O escritor português Vitor Vicente voltou ao Bolder Podcast depois de um ano especialmente produtivo. Nesse período, ele comprou um apartamento na Irlanda, criou um podcast em inglês, passou a colaborar com programas brasileiros, escreveu para jornais e portais e preparou novas traduções de seus livros.
Na conversa com Bolder, Vitor também relata sua quarta viagem ao Brasil, com passagens por Florianópolis, Pantanal e Salvador. O episódio percorre literatura de viagem, produção de podcast, diferenças entre o português europeu e o brasileiro, medo de voar e a forma como ele aprendeu a transformar experiências em histórias.
Quem é Vitor Vicente?
Vitor é português, vive na Irlanda e construiu uma trajetória marcada por mudanças de país, literatura e comunicação. Ele já morou em Katowice e Cracóvia, na Polônia, e transformou essa fase em poemas. Na época da entrevista, uma poeta polonesa traduzia a obra, que já tinha editora garantida para uma nova publicação.
Outro livro havia sido publicado em inglês, e traduções para polonês e húngaro estavam em desenvolvimento. Além da escrita, Vitor passou a contribuir com veículos de Portugal e do Brasil. A compra do apartamento na Irlanda aparece como mais um sinal de uma vida que se consolidou fora do país natal.
A volta ao Brasil e o lançamento de “Bravo Brasil”
“Bravo Brasil” reúne relatos das duas primeiras viagens de Vitor ao país, realizadas por volta de 2008 e 2009. Ele admite que o livro foi escrito por uma versão mais jovem de si mesmo: as opiniões não mudaram necessariamente por completo, mas hoje ele empregaria outro tom.
A obra combina observação, humor e opinião. Vitor não se define apenas como alguém que descreve lugares; ele tenta interpretar comportamentos e registrar o que uma viagem desperta. Para ele, essa mistura diferencia um relato pessoal de um simples roteiro turístico.
Como começou a relação de Vitor com o Brasil?
O interesse começou em Barcelona, onde Vitor trabalhou com um brasileiro de Salvador. A amizade aproximou-o da cultura do país e, com o tempo, ele passou a conviver com outros brasileiros. Mais tarde, namorou uma mulher de Sorocaba e viajou ao Brasil duas vezes; essas experiências se tornaram a base de “Bravo Brasil”.
Ele descreve o país como um lugar familiar e, ao mesmo tempo, misterioso. Consegue se comunicar em português e reconhecer referências próximas às de Portugal, mas continua encontrando situações, palavras e hábitos inesperados. Esse equilíbrio ajuda a explicar por que o Brasil permanece interessante depois de quatro viagens.
Florianópolis: a parte preferida da viagem
Na viagem mais recente, Vitor chegou por Florianópolis. O voo havia sido redirecionado para Santa Catarina em razão dos problemas enfrentados pelo aeroporto de Porto Alegre naquele período, e a passagem apareceu por um preço atraente. Era uma região que ele já queria conhecer.
Florianópolis acabou se tornando uma de suas experiências favoritas no Brasil. Ele elogia a comida, a receptividade, o clima mais ameno, a organização e a sensação de segurança. Também se surpreendeu com os preços: relata ter encontrado caipirinhas por aproximadamente R$ 12 a R$ 20 durante happy hours.
Como recebe em euro, Vitor reconhece que sua percepção de custo não é a mesma de quem vive e ganha no Brasil. Ainda assim, esperava uma cidade mais cara. Se o país estivesse a poucas horas de voo da Irlanda, diz que provavelmente o visitaria todos os anos.
A experiência no Pantanal
Depois de Florianópolis, Vitor viajou de avião até Campo Grande e seguiu com uma agência para um rancho no Pantanal. O local ficava isolado, com outros ranchos a vários quilômetros de distância. Ele e a namorada dividiram a experiência com poucos hóspedes e foram recebidos de forma próxima pelas cozinheiras e pela equipe.
A comida caseira — especialmente a carne bovina — ficou entre as melhores lembranças. As atividades incluíram pesca de piranhas, passeio de barco e cavalgada. Vitor não conseguiu pescar, mas o resultado importava menos do que aceitar experiências que antes evitava.
Cavalo, barco e avião: como Vitor passou a enfrentar os medos
Andar a cavalo no Pantanal tinha um significado especial porque Vitor carregava esse medo havia anos. Barcos pequenos também lhe causavam desconforto, e viajar de avião já havia sido uma fonte importante de ansiedade. Aos poucos, ele passou a tratar esses receios de maneira mais racional.
Seu raciocínio é observar o risco real, em vez de alimentar todos os cenários imaginados. No caso do avião, por exemplo, concentra-se na baixa probabilidade estatística de um acidente. Ele reconhece que ainda sente desconforto em situações como vento durante a decolagem, mas já não permite que isso controle a decisão de viajar.
Vitor também fez algumas sessões de terapia online. A experiência ajudou-o a perceber que já tinha elaborado várias respostas e precisava colocá-las em prática. Ele faz questão de esclarecer que isso não diminui o valor da profissional: apenas indica que, naquele momento, precisava mais de ação e continuidade do que de um acompanhamento longo.
O podcast como projeto de vida
O Vitor Vicente Podcast começou na mesma fase em que ele procurou terapia. O entusiasmo com o projeto mostrou uma direção que ainda não estava totalmente clara. Vitor diz que criar o programa foi uma das melhores decisões de sua vida, talvez entre as três ou cinco mais importantes.
Na época do episódio, havia publicado cerca de 37 conversas. Os convidados incluíam escritores, professores, viajantes e pessoas que criaram empresas, cursos ou projetos próprios. Alguns episódios abordavam temas políticos e internacionais; outros pareciam uma conversa descontraída de pub.
Ele descobriu que se sente mais confortável falando para milhares de pessoas do que diante de uma planilha. O comentário é bem-humorado, mas resume uma decisão profissional: comunicação, organização de ideias e gestão de convidados são habilidades naturais para ele.
A parte difícil acontece fora da câmera
Entrevistar não é o maior problema. A dificuldade está na produção: editar cortes, preparar miniaturas, organizar agenda, escolher títulos e divulgar cada episódio. Vitor gosta da parte criativa dos títulos e da seleção de temas, mas gostaria de contar com alguém que compreendesse a identidade do projeto para assumir tarefas técnicas.
Ele já precisou mudar a ordem de publicação quando um assunto recente tornou determinada conversa mais relevante. O podcast, portanto, mistura criação com gerenciamento: é preciso entender quem deve ser convidado, quando gravar e qual episódio não pode esperar.
Por que o podcast é feito em inglês?
Vitor escolheu o inglês porque não usava português diariamente e sentia que sua fluência havia perdido naturalidade. Na Irlanda, seus amigos são estrangeiros e irlandeses; ele fala português principalmente quando visita a família em Portugal.
Isso começou a mudar com sua participação no podcast brasileiro “Guerra de Informação”, que realiza lives em português, e com um programa de entrevistas chamado “Convincente”. A prática devolveu ritmo ao idioma. Bolder observa no episódio que a conversa estava mais fluida do que na primeira participação de Vitor.
Mesmo assim, o português usado por ele não é exatamente o de Lisboa nem o do Brasil. Vitor ajusta palavras e velocidade de acordo com o interlocutor. A convivência internacional acabou criando uma forma própria de se comunicar.
A velocidade da internet e o problema da desinformação
Uma parte mais séria do episódio discute como notícias e imagens circulam sem contexto. Vitor usa episódios internacionais que acompanha em seu podcast para argumentar que fotos antigas podem ser reapresentadas como atuais e que o público reage antes de verificar a origem.
Ele lembra uma brincadeira feita anos antes: publicou no Facebook uma foto tirada em um parque perto de Uberlândia e afirmou que finalmente havia visitado a Amazônia. Muitas pessoas acreditaram. Para Vitor, o problema se tornou maior porque hoje um conteúdo é substituído por outro antes que o leitor tenha tempo de refletir.
A conversa também reconhece a responsabilidade dos criadores. Um título precisa chamar atenção, mas não pode prometer algo que o conteúdo não entrega. Vitor conta que convidados já apontaram quando ele foi sensacionalista demais e que alterou títulos depois de receber críticas razoáveis.
Como Vitor escreve durante uma viagem?
O método depende da companhia. Quando viaja sozinho, pode escrever no próprio percurso, como fez no trem Transiberiano entre Moscou e Vladivostok. Acompanhado, prefere registrar notas rápidas no celular e desenvolver o texto depois de voltar.
Uma expressão, o jeito como alguém reage ou um detalhe da rua pode virar anotação. Mais tarde, essas pequenas observações recuperam a atmosfera da viagem. O livro não nasce apenas da memória geral, mas de fragmentos recolhidos enquanto as situações ainda estão frescas.
Inspiração sem disciplina não termina um livro
Vitor chama seu processo de “inspiração trabalhada”. A ideia inicial é importante, mas precisa ser transformada em rotina. Escrever uma obra em prosa exige definir metas, abrir mão de noites no pub ou de um filme e produzir mesmo quando a novidade do projeto já passou.
Ele compara o trabalho a preparar uma maratona. Talento ajuda, mas não substitui treinamento. O próprio Vitor demorou a entender que precisava construir uma estrutura para explorar sua capacidade de escrever.
Do primeiro manuscrito aos autores brasileiros
Seu primeiro manuscrito foi uma novela escrita aos 16 ou 17 anos. Ele tentou reproduzir o estilo de Bret Easton Ellis e adaptar “Less Than Zero” à própria realidade. Hoje considera o resultado ruim e agradece por não ter sido publicado, mas reconhece que a imitação funcionou como aprendizado.
Entre as referências brasileiras, Vitor destaca Nelson Rodrigues. Admira o humor, a inteligência, a franqueza e a disposição de escrever sem se orientar apenas pela aprovação do público. Essa influência combina com sua preferência por relatos que misturam observação e opinião.
Português de Portugal versus português do Brasil
No final, Bolder testa o conhecimento de Vitor sobre expressões brasileiras. Ele identifica “abestalhado”, “camiseta regata”, “bonde”, “moleque”, “rabanada”, “cacetada”, “ficar de boa”, “troco”, “sorvete”, “guarda-roupa” e “suco”. Já “pochete”, “pipa”, “toró” e “frentista” causam confusão.
A brincadeira mostra que compartilhar o idioma não elimina diferenças. “Pipa”, por exemplo, lembra a Vitor um recipiente de vinho; no Brasil, pode ser o brinquedo que em Portugal seria chamado de papagaio de papel. “Cacetinho” é um tipo de pão em algumas regiões brasileiras, enquanto a palavra produz outra associação para um português.
Uma conversa sobre criar, viajar e mudar
O episódio vai muito além de apresentar um livro. Ele mostra como Vitor conectou viagens, escrita e podcast para reorganizar prioridades pessoais. A ida ao Pantanal serviu para testar medos; a volta ao Brasil ofereceu novos materiais; o podcast revelou um caminho profissional; e o uso frequente do português recuperou uma parte de sua identidade.
Assista à conversa completa para conhecer as histórias de Florianópolis, Pantanal e Salvador, as diferenças culturais entre Brasil e Portugal e o processo de criação do escritor e podcaster Vitor Vicente.
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