Mochilão pelo mundo: a jornada da escritora Nanda Fabiane

Nanda Fabiane deixou uma carreira estável no Brasil, mudou-se para a Irlanda e transformou as viagens em parte central de sua vida. Depois de passar por dezenas de países e fazer um mochilão pelo Sudeste Asiático durante quase um ano, ela reuniu os perrengues e as descobertas no livro Me Encontrei na Jornada.

No Bolder Podcast 175, Nanda fala sobre viajar sozinha, trabalhar até 70 horas por semana para financiar um sabático, enfrentar a depressão depois do retorno e repensar o modelo de sucesso que havia construído. A entrevista não romantiza completamente a estrada: aparecem falta de dinheiro, golpes, doença, internação e a necessidade de pesquisar cada destino.

Publicidade

Por que Nanda Fabiane deixou o Brasil?

Antes de emigrar, Nanda era gerente de marketing, tinha apartamento e carro. Por fora, sua vida parecia organizada; por dentro, sentia que ainda não havia realizado o sonho de conhecer o mundo. Um relacionamento tóxico aumentou a urgência de mudar, mas ela afirma que a viagem não era apenas uma fuga: era um desejo antigo.

Em 2015, escolheu a Irlanda como primeiro país. A mudança abriu uma percepção nova: depois de atravessar o oceano, outros destinos pareciam mais próximos e possíveis. Nanda começou a viajar pela Europa e aprendeu a sair sozinha quando amigos não podiam acompanhá-la.

Ao longo dos anos, viveu quatro ciclos na Irlanda. Trabalhava, juntava dinheiro, viajava até a reserva diminuir e voltava para recomeçar. Em alguns períodos, fazia jornadas de 50, 60 ou 70 horas semanais com um destino específico em mente.

Viajar sozinha muda a experiência?

Para Nanda, viajar sozinha facilita o contato com outras pessoas. Num hostel, encontra viajantes na mesma situação, dispostos a dividir informações, passeios e histórias. Quando duas pessoas viajam juntas, é mais fácil permanecer dentro da própria dupla.

A primeira experiência que realmente quebrou seu medo foi Londres. Nanda ainda falava pouco inglês, ficou perdida e precisou pedir ajuda na rua. No fim, percebeu que conseguia resolver os problemas sem depender de um acompanhante.

Isso não significa ausência de risco. Ela recomenda pesquisar a cultura, entender as leis, perguntar na hospedagem quais regiões são seguras e informar que está acompanhada quando alguém desconhecido insiste em saber se viaja sozinha. Em festas, também cuidava da própria bebida e observava o grupo.

Como planejar financeiramente um mochilão?

Para a viagem mais longa, iniciada em 2018, Nanda trabalhou intensamente e reduziu os gastos. Parou de sair, não comprava roupas e guardava o máximo possível. Chegou a uma reserva aproximada de €10 mil para passagens, seguro e cerca de um ano de viagem.

O orçamento médio planejado era perto de €30 por dia, mas o custo variava muito. Na Indonésia, era possível dormir em hostel com piscina e café da manhã por poucos euros e gastar aproximadamente €15 num dia. Países nórdicos, por outro lado, consumiram rapidamente o dinheiro de uma de suas primeiras viagens.

Quanto menos deslocamentos, menor costuma ser o custo. Permanecer semanas no mesmo lugar reduz passagens e permite conhecer opções locais mais baratas. Nanda alternava períodos econômicos com alguma experiência mais confortável, de acordo com o objetivo daquela etapa.

Os valores pertencem a viagens realizadas anos atrás. Não devem ser usados como orçamento atual para a Ásia ou a Europa. Câmbio, transporte, hospedagem, vistos e seguro precisam ser pesquisados novamente para cada roteiro.

Dez meses pelo Sudeste Asiático

Nanda passou aproximadamente dez meses no Sudeste Asiático, um mês na Austrália e outro período no Leste Europeu. Seu plano inicial para a Tailândia era ficar 30 dias, mas a conexão com o país estendeu a passagem para três meses.

Em vez de marcar destinos rapidamente, ela prefere viver o cotidiano e conhecer moradores. Timor-Leste chamou atenção pela presença da língua portuguesa e por tradições muito diferentes. Na Amazônia, sentiu algo parecido: estava no Brasil, porém diante de comidas, paisagens e modos de vida completamente novos.

Nem todos os destinos produziram a mesma conexão. No Camboja, sentiu-se tratada constantemente como fonte de dinheiro. Ao cruzar a fronteira terrestre, funcionários tentaram cobrar um valor muito superior ao preço que ela esperava pagar pelo visto. Outros viajantes que resistiram foram retirados do ônibus, e Nanda acabou cedendo por medo de ficar sozinha numa área sem estrutura.

Ela ressalta que essa foi sua experiência pessoal. Amigos permaneceram meses no país e guardam lembranças positivas. Uma viagem não representa toda uma população, mas o relato ajuda a mostrar por que pesquisa e atenção continuam necessárias.

Internada sozinha na Indonésia

Um dos episódios mais difíceis aconteceu em Bali. Nanda desenvolveu uma infecção gastrointestinal conhecida entre viajantes como “Bali belly” e precisou ficar seis dias internada.

Ela estava sozinha, com febre e dor, sem compreender todos os procedimentos. A seguradora demorava a liberar a internação, enquanto a equipe do hospital não entendia o processo. Nanda pediu ajuda num grupo de brasileiros em Bali.

Um brasileiro que morava na Indonésia apareceu no hospital, conversou com a recepção e resolveu a documentação. Depois chegaram outras pessoas com frutas e itens de que ela precisava. Durante os seis dias, ajudaram com roupa, mochila e ofereceram hospedagem para quando recebesse alta.

A doença também mudou seu destino. Nanda perdeu um voo para Lombok; naquele período, a ilha sofreu um terremoto de magnitude 6,9 e recebeu alerta de tsunami. Amigos estavam lá, e ela visitou a região depois, quando ainda havia destruição visível.

O retorno e a depressão pós-sabático

Depois de meses vivendo experiências intensas, voltar à rotina foi difícil. Nanda descreve um estado conhecido como depressão pós-sabático: enquanto viajava, cada dia trazia pessoas, lugares e decisões novas; de volta, sentia que nada acontecia.

Ela havia conquistado uma bolsa integral para uma pós-graduação em marketing e tinha a possibilidade de retornar a um programa profissional. Antes da viagem, o plano parecia perfeito. Depois, pensar na vida corporativa provocava ansiedade.

A dificuldade não era ingratidão. Nanda já não se reconhecia nos mesmos objetivos. Fez terapia e voltou a trabalhar muitas horas com a intenção de financiar outro período na estrada, mas ainda precisava descobrir como unir escrita, viagem e sustento.

Como nasceu o livro “Me Encontrei na Jornada”?

Escrever ajudou Nanda a organizar o retorno. Ela começou a publicar histórias sobre a Ásia: a internação em Bali, os problemas nas fronteiras, os encontros com moradores e até um barco que a deixou no mar durante um passeio de snorkel.

Leitores insistiam que o material poderia virar um livro. Quando a pandemia cancelou três voos de volta à Irlanda e a deixou em Florianópolis, editoras entraram em contato. Sem poder continuar a viagem, ela decidiu escrever.

O processo completo — texto, revisão, preparação e lançamento — levou aproximadamente um ano. Nanda tinha experiência com redação, mas nunca havia publicado as histórias. Trabalhar num projeto alinhado ao que amava tornou a disciplina mais natural.

O retorno financeiro não foi imediato. Direitos, produção e divulgação exigiram investimento, enquanto o mercado brasileiro de livros oferecia margens limitadas. Meses depois, as vendas cresceram e o título passou a circular entre leitores e hostels.

O livro como instrumento de cura

O significado do projeto mudou quando começaram a chegar mensagens de leitores. Pessoas contaram que o livro ajudou a recuperar sonhos, enfrentar a depressão ou sair de relacionamentos abusivos.

Nanda passou a enxergar a obra menos como produto e mais como parte de seu propósito. Para ela, escrever primeiro organizou as próprias feridas; depois, a experiência compartilhada ofereceu companhia a quem enfrentava algo semelhante.

O Brasil visto depois de tantos países

Durante a preparação do livro, Nanda viveu em Florianópolis, passou meses na Bahia e percorreu outras regiões. A Amazônia, Alter do Chão e Caraíva aparecem entre os lugares mais marcantes.

A viagem mudou sua antiga certeza de que nunca voltaria a morar no Brasil. Ela critica o custo e a dificuldade dos deslocamentos internos, que tornam alguns destinos mais acessíveis a estrangeiros do que aos próprios brasileiros. Também acredita que a cultura de hostel e de viagem independente ainda pode se desenvolver mais.

Mesmo em destinos considerados tranquilos, Nanda pergunta sobre transporte e áreas que devem ser evitadas. O medo não precisa impedir a viagem, mas deve produzir preparação, não imprudência.

Viajar é prioridade, não ausência de responsabilidade

Quando alguém pergunta de onde vem o dinheiro, Nanda responde que trabalha como outras pessoas e define uma prioridade diferente. Vendeu o apartamento e o carro, reduziu bens materiais e direcionou uma parcela relevante da renda para a estrada.

Isso não significa viajar sem reserva. Antes de sair do Brasil, havia feito investimentos; antes do sabático, calculou passagens, seguro e retorno. Ela conhece viajantes que vivem apenas com mochila e bicicleta, mas admite que ainda prefere manter algum “pé no chão”.

O modelo não serve para todo mundo. Quem deseja comprar uma casa, sustentar uma família ou construir uma carreira tradicional fará escolhas diferentes. O ponto da entrevista é questionar metas automáticas e decidir conscientemente o que merece tempo e dinheiro.

O que a jornada ensinou a Nanda Fabiane

A história de Nanda não é uma sequência de férias. Houve jornadas exaustivas para juntar dinheiro, solidão, doença, ansiedade e a sensação de não pertencer mais à vida anterior. Houve também hospitalidade de desconhecidos, contato com culturas diferentes e a descoberta da escrita como trabalho e propósito.

Para quem pensa em viajar sozinho, a recomendação é combinar curiosidade com planejamento: pesquisar leis e costumes, contratar seguro adequado, manter uma reserva e respeitar os próprios limites.

Assista ao episódio completo para conhecer as histórias do mochilão, a criação de Me Encontrei na Jornada e a reflexão de Nanda sobre viver de maneira coerente com as próprias prioridades.