Foi passar o Natal e imigrou para a Irlanda: César Garcia

Imigrar para a Irlanda depois dos 50 anos parecia um plano adiado para César Garcia. O desejo existia desde a adolescência, mas casamento, quatro filhos e uma empresa no Brasil fizeram com que a mudança permanecesse no futuro. Décadas depois, ele viajou para passar o Natal com a família e acabou transformando a visita em um novo começo.

No Bolder Podcast 206, César explica como uma prova de italiano, uma temporada planejada até janeiro e um trabalho temporário em restaurante mudaram a direção de sua vida. A conversa aborda imigração madura sem romantização: há frio, insegurança, adaptação profissional e inglês com sotaque difícil, mas também disposição para aprender.

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Quem é César Garcia?

No Brasil, César trabalhou durante muitos anos como empregado e depois construiu a própria trajetória empresarial. Passou pela área de expansão da Wizard durante a transformação do negócio em franquia e, mais tarde, tornou-se o primeiro franqueado sul-americano de uma empresa americana de limpeza de carpetes e estofados.

Quando a franqueadora encerrou a operação brasileira, ele continuou com marca própria. Ao longo de cerca de 25 anos, o negócio ampliou os serviços para restauração de pisos de madeira, polimento de mármore e granito e manutenção de imóveis na região de São Paulo.

César estudava inglês desde os 12 anos e usou o idioma em treinamentos e viagens profissionais. Mesmo assim, conta que entender o sotaque irlandês foi uma dificuldade real quando começou a trabalhar no país.

Como o sonho de viver fora voltou aos planos?

César e a esposa, Cris, alimentavam o desejo de morar fora desde o início do casamento, mas priorizaram a criação dos quatro filhos. Com o tempo, ajudaram dois deles a realizar intercâmbios. Em 2015, César Júnior foi para a Irlanda e depois levou a irmã Vanessa.

Em 2016, o casal visitou os filhos e o primeiro neto no país. Ficaram pouco mais de 20 dias e se encantaram com a experiência — embora tenham precisado comprar jaquetas já no segundo dia do verão irlandês.

A viagem reacendeu o projeto de imigração. A família começou a reunir documentos para o reconhecimento da cidadania italiana de Cris e, por consequência, para o processo de César como cônjuge. Retificações no Brasil, mudanças de juiz e outros entraves tornaram a espera longa.

Uma prova de italiano antes do Natal na Irlanda

Uma mudança na legislação italiana passou a exigir prova de proficiência para determinados processos de cidadania por casamento. César, que já estudava o idioma por interesse na história dos antepassados da esposa, decidiu preparar-se seriamente para o exame.

O filho ofereceu pagar curso, passagem, prova e estadia, com duas condições: depois da Itália, César passaria o Natal e o Ano-Novo com a família na Irlanda; antes disso, os dois fariam uma viagem a Roma.

Em outubro de 2021, César chegou à Irlanda para cumprir o período de quarentena exigido naquele contexto da pandemia. Depois seguiu para Salerno, onde uma amiga brasileira passou a falar apenas italiano com ele, e estudou em uma escola na Sicília. A prova era oral, por isso a rotina ficou concentrada em conversação.

Depois de aprovado e de viajar por Roma com o filho, César voltou à Irlanda em 8 de dezembro. Sua passagem de retorno ao Brasil estava marcada para 25 de janeiro de 2022.

Do passeio ao primeiro trabalho em Dublin

César não queria passar todo o período como turista. Pediu ajuda para encontrar uma experiência de trabalho e chegou a considerar entregas de bicicleta. Um amigo, porém, o levou a um restaurante que precisava de funcionários para o movimento de dezembro.

Orientado a vestir roupa preta, César chegou preparado. Quando a gerente perguntou quando poderia fazer um teste, levantou a jaqueta e respondeu que podia começar imediatamente. Foi encaminhado para a lavagem de louça.

No início, secava talheres e tentava acompanhar o ritmo de linha de produção. Um colega brasileiro, Vini, tornou-se seu primeiro contato fora do círculo da família e ajudou na adaptação. A gerente consultou outro funcionário sobre seu desempenho e, no dia seguinte, César foi chamado novamente.

O objetivo era viver uma rotina completa, com hora para entrar, sair e produzir, não apenas tirar fotos durante as férias. O trabalho também exigiu ajustar a compreensão do inglês falado por colegas de diferentes nacionalidades.

O convite que mudou a passagem de volta

Em janeiro, com a queda do movimento, César foi informado de que o contrato temporário terminaria. Durante aquela que imaginava ser sua última refeição no restaurante, ouviu uma gerente falar ao telefone e perguntar se ele aceitaria trabalhar 40 horas por semana em outra unidade, no atendimento.

O convite veio com início imediato. A partir daí, o PPS e a formalização tornaram-se necessários. César ligou para Cris, que estava nos Estados Unidos visitando uma filha e um neto, e o casal mudou os planos: em vez de retornar ao Brasil para organizar a mudança e voltar em maio, ele permaneceria na Irlanda e ela viajaria diretamente para encontrá-lo.

Cris chegou em janeiro de 2022 como cidadã europeia, e o casal iniciou o processo de residência de César. A passagem de volta daquele mês deixou de ser usada.

Recomeçar profissionalmente em outra idade

César afirma que ninguém perguntou sua idade no processo de contratação. Sem apresentar um currículo extenso, ele foi avaliado pela disposição de começar naquele momento e pelo desempenho durante o teste.

No restaurante, saiu da lavagem de louça, passou por atendimento e depois entrou na cozinha. Começou em tarefas de apoio, avançou para preparação de saladas e pratos e tornou-se assistente do chefe. A equipe reunia profissionais da Polônia, Argentina, Bulgária, França, Itália, China, Mongólia, México e Venezuela.

Mesmo com décadas de experiência em manutenção e limpeza no Brasil, César decidiu estudar manutenção elétrica industrial. O objetivo não era simplesmente reproduzir a carreira anterior, mas aproveitar a mudança para aprender habilidades novas.

Imigrar para a Irlanda depois dos 50 vale a pena?

Na experiência de César, valeu. Ele e Cris trocaram uma casa ampla no interior de São Paulo por um apartamento muito menor, mas descrevem a fase como uma segunda lua de mel. Estar perto dos filhos e netos e construir novas amizades pesou mais do que o espaço físico.

Isso não significa que a decisão seja simples ou igual para todas as pessoas. A trajetória contou com cidadania europeia da esposa, apoio familiar, conhecimento prévio de idiomas e uma oportunidade de trabalho. Regras de residência e emprego mudam; qualquer planejamento deve ser confirmado em fontes oficiais atualizadas.

O conselho de César vale para diferentes idades: definir o objetivo, ser honesto sobre o que se deseja e aceitar que o crescimento acontece “tijolinho por tijolinho”. Assista ao episódio completo no topo da página para conhecer toda a história da viagem de Natal que virou imigração.