Depiladora em Dublin: como Helen Morcatti construiu seu negócio

A história de Helen Morcatti mostra como uma depiladora em Dublin pode começar atendendo por cinco euros em um quarto compartilhado e, com o tempo, construir uma clientela própria e abrir um espaço profissional no centro da cidade. O caminho, porém, começou com problemas sérios envolvendo dinheiro, passagem e adaptação.

No Bolder Podcast, Helen conta a Bolder como saiu de Belo Horizonte sem falar inglês, conciliou babá, hotel e atendimentos de beleza, reconheceu o potencial do mercado brasileiro na Irlanda e decidiu encerrar o ciclo no país para voltar ao Brasil.

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Por que Helen decidiu morar fora?

Helen cresceu trabalhando com a família em Belo Horizonte. O pai mantinha uma loja de abacaxis no Ceasa e um sacolão no bairro São Geraldo. Como o comércio funcionava de segunda a segunda, ela cobria diferentes funções, substituía funcionários e tinha pouco espaço para férias.

Aos 27 anos, decidiu que queria morar fora durante um ano. Nunca havia deixado o Brasil e nem sequer tinha viajado de avião. A ideia era aprender inglês, trabalhar, reconhecer a cidadania italiana à qual tinha direito e depois voltar para a vida de que gostava em Minas Gerais.

Antes da viagem, Helen já fazia a própria depilação por causa de uma alergia e havia realizado um curso com uma amiga. Ao pesquisar em grupos de brasileiras na Irlanda, percebeu que havia poucas profissionais oferecendo o serviço. Em vez de embarcar sem direção, decidiu levar materiais e testar o mercado.

Problemas com passagem e dinheiro emprestado

A chegada foi muito mais difícil do que o planejamento indicava. Helen havia comprado passagem, escola e euros por meio de uma pessoa indicada por uma amiga antiga. No aeroporto, descobriu que não havia voo reservado e precisou viajar dois dias depois. A divergência de data ainda gerou questionamentos na imigração, quando ela mal conseguia se comunicar em inglês.

Ela também emprestou mais de três mil euros à amiga e ao marido para ajudá-los com despesas de chegada. O dinheiro não foi devolvido. Como a reserva deveria sustentar os primeiros meses de estudo e a viagem à Itália, a perda mudou completamente as prioridades.

Helen passou a trabalhar intensamente para reconstruir o caixa. Ela afirma que a rede de amigas foi essencial: as colegas de casa permitiram que usasse a sala para atender clientes e ofereceram apoio quando os planos iniciais já não funcionavam.

Como começou a trabalhar com depilação em Dublin

Os primeiros atendimentos aconteceram já na semana da chegada. Helen divulgava o serviço diariamente em grupos de brasileiras e cobrava cinco euros. No começo, testou o atendimento no próprio quarto. Depois, passou a ir de bicicleta à casa das clientes com os materiais na mochila.

Nem sempre havia estrutura: em algumas casas, a cliente dividia quarto e precisava ser atendida na cama ou na beliche. Ao mesmo tempo, cada visita apresentava o trabalho às outras moradoras. Muitas pediam o contato ou aproveitavam para fazer o procedimento no mesmo dia. O boca a boca começou a ampliar a agenda.

Quando as amigas autorizaram o uso da sala da casa, o serviço ganhou uma base fixa. Ainda era um ambiente doméstico, mas permitia organizar melhor o atendimento e receber mais pessoas. A clientela cresceu porque Helen divulgava com constância e procurava criar uma experiência acolhedora.

Helen Morcatti fala sobre trabalhar como depiladora em Dublin
Helen Morcatti explica como transformou atendimentos informais em um negócio de beleza estruturado.

Babá, hotel e atendimentos depois do expediente

A depilação ainda não era a única fonte de renda. Helen começou trabalhando como babá e, cerca de três meses depois, conseguiu emprego em um hotel. Ao terminar o expediente, voltava para casa e atendia clientes; nas folgas do hotel, também abria horários.

Essa rotina ajudou a juntar o dinheiro necessário para ir à Itália. Ela permaneceu 56 dias no país e concluiu o processo de cidadania. Quando retornou à Irlanda, continuou conciliando o emprego fixo com o negócio de beleza até perceber que os atendimentos já geravam renda maior.

Quando a atividade virou um negócio

Helen aumentou o preço gradualmente: dos cinco euros iniciais para oito, depois 12 e, por fim, para um valor compatível com sua experiência e estrutura. Em julho de 2019, alugou uma sala no centro de Dublin.

A transição foi calculada. Durante o primeiro mês, manteve o outro emprego até as quatro da tarde e atendia na sala das 16h30 às 20h. Como a agenda ficava cheia nesse intervalo, colocou receitas e compromissos no papel e confirmou que conseguiria pagar aluguel e despesas antes de abandonar a renda fixa.

O endereço profissional mudou a percepção do serviço. Por mais cuidadoso que fosse o atendimento no quarto, um espaço preparado para o procedimento transmitia mais confiança. Estar no centro também facilitava o acesso de clientes vindas de diferentes regiões por ônibus ou Luas.

O que ajudou Helen a formar clientela?

O público brasileiro foi central desde o começo, mas Helen também passou a atender irlandesas. Para ela, uma grande comunidade brasileira pode sustentar um negócio local, desde que o trabalho seja bom. Falar o mesmo idioma ajuda no primeiro contato; qualidade e confiança determinam se a cliente retorna.

  • Divulgação diária nos primeiros meses.
  • Indicação espontânea entre amigas e colegas de casa.
  • Atendimento acolhedor e atenção à intimidade da cliente.
  • Pequenos agrados, como chocolates após o procedimento.
  • Local acessível no centro de Dublin.
  • Conteúdo no Instagram sobre hidratação, esfoliação e cuidados com a pele.
  • Sistema online para a própria cliente escolher o horário.

O agendamento digital resolveu um problema prático. Enquanto atendia, Helen não conseguia responder mensagens imediatamente; algumas pessoas desistiam ou procuravam outra profissional. Com o link na bio, a cliente via os serviços e reservava um horário sem depender de resposta manual.

Profissionalização e segurança na área de beleza

Helen destaca que um procedimento aparentemente simples exige conhecimento de pele, temperatura da cera, direção da puxada e anatomia. Trabalhar com beleza sem preparo pode causar lesões. Ter feito cursos não elimina erros, mas oferece base para prevenir problemas e reagir de maneira profissional.

Ela também alerta para a expectativa de que empreender no exterior produz dinheiro rápido. Receita e despesas estão na mesma moeda, e aluguel, materiais, seguros e impostos precisam entrar na conta. Antes de abrir um negócio, é necessário pesquisar demanda, concorrência e obrigações locais.

Vale a pena entrar em um mercado concorrido?

Para Helen, praticamente todas as áreas parecem saturadas. Isso não impede a entrada de uma profissional nova, mas obriga a definir um diferencial concreto: abordagem, experiência de atendimento, técnica, material ou especialização. Oferecer o mesmo serviço não significa construir a mesma relação com o cliente.

Por que decidiu voltar ao Brasil?

Depois de seis anos e oito meses na Irlanda, Helen decidiu retornar a Belo Horizonte. Ela deixa claro que não estava fugindo do país nem insatisfeita com tudo o que viveu. Considerava sua trajetória bem-sucedida, tinha cidadania europeia e poderia voltar se mudasse de ideia.

A decisão envolveu encerramento de ciclo, família, clima, planos de vida e, sobretudo, o desejo de se reaproximar de sua comunidade religiosa. Solteira e perto dos 35 anos, também avaliava que comprar uma casa na Irlanda seria difícil dentro de seus objetivos naquele momento.

O plano era retomar o trabalho com a família durante o Natal e desenvolver novamente o negócio de estética no Brasil. Em vez de tratar o retorno como fracasso, Helen o apresenta como outra escolha possível dentro de uma experiência migratória.

Observação: o episódio descreve regras, custos e condições existentes na época da chegada e da gravação. Exigências migratórias, trabalho estudantil, cidadania e obrigações para negócios podem mudar; confirme as informações atuais em fontes oficiais.

Assista ao episódio completo para conhecer os detalhes do começo difícil de Helen Morcatti e as decisões que transformaram a depilação em um negócio em Dublin.