Ser intercambista em Galway colocou Eduardo Franco diante de uma Irlanda diferente daquela vista por quem vive apenas em Dublin. No Bolder Podcast, ele conta por que escolheu uma cidade menor, como conseguiu o primeiro emprego, o que encontrou no mercado de acomodação e por que decidiu reconstruir a carreira depois de anos trabalhando em cozinhas.
A conversa também percorre o mochilão pelo Sudeste Asiático que despertou sua vontade de morar fora, a criação de um canal no YouTube durante o lockdown e as vantagens e limitações de viver numa cidade de aproximadamente 80 mil habitantes na época da gravação.
Quem é Eduardo Franco?
Eduardo é gaúcho, do interior do Rio Grande do Sul, e começou a carreira na área de tecnologia. Fez curso técnico, trabalhou como desenvolvedor web e cursou faculdade enquanto construía experiência profissional.
Antes de pensar seriamente em intercâmbio, já sentia o desgaste de uma rotina corporativa que considerava pouco flexível. Algumas empresas tinham estruturas tradicionais, equipamentos inadequados e processos burocráticos até para solicitar uma folga.
O irmão mais velho teve papel decisivo em sua mudança de perspectiva. Ele havia feito intercâmbio na Irlanda em 2014 e, depois, passou cerca de um ano viajando pelo mundo. Foi essa experiência que mostrou a Eduardo que uma vida fora do roteiro convencional era possível.
O mochilão que mudou seus planos
Em 2016, Eduardo pediu demissão e se encontrou com o irmão para viajar durante três meses pelo Sudeste Asiático. O roteiro passou por Tailândia, Vietnã, Camboja e Laos.
A viagem foi econômica: eles ficaram em hostels, usaram transportes frequentados por moradores locais e evitaram opções voltadas apenas a turistas. Em alguns momentos, depois de muitos ônibus e mudanças de cidade, precisavam interromper o roteiro para descansar.
As praias da Tailândia ficaram entre as paisagens mais marcantes. Ao mesmo tempo, Eduardo percebeu que o Brasil possui belezas naturais comparáveis, embora problemas como segurança dificultem que muitas pessoas aproveitem esses lugares com tranquilidade.
Na volta, o irmão sugeriu um plano concreto: trabalhar durante 2017, economizar e fazer intercâmbio na Irlanda. Eduardo retomou a carreira de desenvolvedor web por um ano e juntou o restante do dinheiro necessário.
Por que escolher Galway para fazer intercâmbio?
A escolha de Galway também foi influenciada pelo irmão. Ele conhecia Dublin, mas havia visitado a cidade no oeste da Irlanda e acreditava que uma área menor poderia oferecer uma adaptação mais tranquila.
Eduardo já estava acostumado ao interior e nunca teve grande atração por metrópoles. Uma experiência de assalto à mão armada em Porto Alegre reforçou sua preferência por cidades menores.
Naquele momento, Galway parecia oferecer algumas vantagens:
- distâncias menores no dia a dia;
- menos brasileiros do que em Dublin, sem ausência de comunidade;
- proximidade com paisagens da costa oeste;
- uma rotina mais parecida com a vida que Eduardo conhecia no interior.
Ele pesquisou escolas, conversou com uma agência que vendia programas para Galway e decidiu seguir para a cidade. A crise de acomodação já existia, embora ainda não tivesse a intensidade que ganharia depois.
Galway é realmente mais tranquila que Dublin?
Para Eduardo, a escala menor facilita muitos deslocamentos. Pedalar por 40 minutos em Galway pode significar praticamente sair da cidade, enquanto em Dublin um trajeto semelhante continua dentro da área urbana.
A região também dá acesso ao Wild Atlantic Way e ao Parque Nacional de Connemara. Para quem tem carro ou consegue organizar viagens, o oeste irlandês oferece paisagens naturais muito próximas.
Essa tranquilidade tem um outro lado. Dentro da cidade, as opções podem parecer repetitivas depois de algum tempo. Eduardo conta que acabava voltando aos mesmos pubs e sentia falta de grandes parques e de uma variedade maior de atividades.
Chegar à Irlanda sabendo inglês fez diferença?
Antes de embarcar, Eduardo estudou inglês durante aproximadamente um ano e meio num curso com muita conversação. O investimento pesava no orçamento, mas ele fez questão de mantê-lo.
Isso não eliminou o medo do sotaque irlandês, porém permitiu realizar tarefas básicas, conversar em restaurantes e se apresentar pessoalmente ao procurar emprego. Segundo ele, essa base reduziu dificuldades que muitos estudantes enfrentam no começo.
Eduardo não trata inglês avançado como uma condição obrigatória para fazer intercâmbio. Seu ponto é mais específico: quando existe a possibilidade de estudar antes, até um nível intermediário pode facilitar a busca por trabalho e a adaptação.
Como Eduardo conseguiu o primeiro emprego em Galway?
Ele reservou os dois primeiros meses para organizar documentos e conhecer a cidade. No dia em que decidiu procurar trabalho, imprimiu cerca de dez currículos e entrou em restaurantes.
No segundo estabelecimento, perguntou se poderia falar diretamente com o responsável pela cozinha. Explicou que procurava uma oportunidade e estava disponível para começar. Fez um teste no dia seguinte e foi contratado como kitchen porter.
O processo levou poucos minutos, mas Eduardo reconhece a combinação de preparação e sorte: ele tinha inglês suficiente para conversar e encontrou um restaurante que precisava contratar exatamente naquele momento.
O que faz um kitchen porter?
O trabalho vai muito além de lavar pratos. Envolve manter a cozinha limpa, organizar utensílios e realizar limpezas pesadas, inclusive embaixo de equipamentos e freezers.
Para alguém que trabalhava sentado diante do computador no Brasil, a mudança foi física e intensa. Eduardo, porém, via aquela etapa como parte de um ano sabático da tecnologia. A experiência só se tornou mais difícil quando o trabalho começou a parecer uma rotina sem perspectiva de mudança.
De kitchen porter a chef de cozinha
Eduardo permaneceu mais de um ano no primeiro restaurante. Aos poucos, começou a preparar saladas e ajudar em outras tarefas, saindo parcialmente da pia.
No inverno, suas horas foram reduzidas para algo próximo de dez por semana. Uma amiga o indicou para outro estabelecimento, onde começou a trabalhar nos fins de semana. Quando o movimento voltou a crescer, os dois locais quiseram contratá-lo em tempo integral.
Ele escolheu a segunda empresa e passou um período trabalhando como garçom. Mais tarde, quando surgiu uma necessidade na cozinha, voltou a ajudar, aprendeu novas funções e assumiu a posição de chef numa hamburgueria.
No contexto irlandês relatado por Eduardo, “chef” pode nomear diferentes níveis de trabalho dentro da cozinha — não necessariamente o cargo de chef executivo imaginado no Brasil. Ainda assim, a promoção representou evolução profissional e aumento de responsabilidade.
Por que ele decidiu sair da cozinha?
Depois de alguns anos, Eduardo percebeu que não desejava construir uma carreira de longo prazo no setor. Um emprego posterior como responsável por um food truck exigia instalar mesas, grama artificial, gás e gerador sob chuva e vento antes mesmo de começar o atendimento.
As jornadas também podiam chegar a 12 ou 14 horas, especialmente nos fins de semana. Isso deixava pouco tempo para estudar tecnologia e produzir vídeos.
Mesmo recebendo propostas para continuar em outras operações da empresa, ele preferiu encerrar a experiência no início. Não queria que uma equipe passasse a depender dele quando já sabia que pretendia sair.
Acomodação em Galway vale a pena?
A moradia aparece como uma das principais preocupações dos seguidores de Eduardo. Na época da gravação, ele considerava Galway mais barata que Dublin, mas deixava claro que a situação também havia piorado no oeste.
Ele citou, como referência daquele período, quartos individuais na faixa de €350 a €450 e quartos de casal entre aproximadamente €700 e €800. Esses números são históricos e não devem ser usados como cotação atual: preços e disponibilidade mudam rapidamente.
A diferença mais visível estava na ocupação. Eduardo dizia ser incomum encontrar em Galway quartos com beliches e casas com dezenas de moradores, situação observada em algumas acomodações de Dublin.
Isso não significa que mudar para Galway garanta moradia. Ele recebeu mensagens de estudantes pensando em trocar de cidade justamente por não encontrarem quarto na capital, mas evitava prometer uma solução. A orientação era pesquisar antes, utilizar acomodação temporária e não tomar decisões com base apenas em relatos antigos.
Como foi viver o lockdown em Galway?
Eduardo enfrentou o primeiro lockdown quando já trabalhava como chef. O restaurante fechou, as ruas ficaram vazias e as saídas eram limitadas.
Como gostava de passar tempo em casa, aproveitou o período para estudar edição, acompanhar documentários e desenvolver ideias para vídeos. Também tinha um parque perto de casa e conseguia caminhar ou jogar bola com o irmão.
O retorno ao trabalho trouxe outro desafio. Com dias ensolarados e muitos meses de restrições acumuladas, o movimento da hamburgueria aumentou rapidamente quando as atividades reabriram.
Como nasceu o canal de Eduardo Franco?
Eduardo já havia gravado alguns vídeos desde 2018, inclusive durante a forte nevasca daquele ano. Faltavam, porém, conhecimento técnico e constância para transformar as ideias em conteúdo.
Durante o lockdown, passou meses trabalhando num único vídeo. Estudou filmagem, trilha sonora, edição e referências de criadores como Casey Neistat e Eliezer Tymniak. Depois publicou um vídeo mostrando um dia de trabalho na Irlanda, que ganhou boa resposta do público.
Em seguida, mostrou um dia de folga e passou a publicar semanalmente. O canal começou com informações práticas sobre intercâmbio, documentos e mercado, mas Eduardo percebeu uma limitação: quando o espectador chegava à Irlanda, muitas dessas dicas deixavam de ser relevantes.
Da informação prática para histórias pessoais
A solução foi tornar o conteúdo mais humano. Em vez de gravar apenas “como fazer” alguma coisa, Eduardo começou a mostrar sua rotina, sentimentos, decisões profissionais e visão sobre os lugares.
Isso permitiu criar uma relação que não dependia exclusivamente da próxima turma de intercambistas. Trabalho e vida na Irlanda continuavam presentes, mas passaram a ser vistos através de sua experiência pessoal.
Eduardo costuma pensar numa introdução, no desenvolvimento e no ponto de chegada de cada vídeo. Em determinada fase, escrevia o roteiro palavra por palavra para memorizar a mensagem e reduzir o número de tentativas diante da câmera.
O que o YouTube ensinou sobre disciplina?
Antes do canal, Eduardo dizia começar projetos e nem sempre terminá-los. Publicar um vídeo por semana exigiu uma consistência que ele ainda não havia desenvolvido.
Um episódio curto podia exigir três horas de gravação e outras cinco de edição, especialmente porque seu formato incluía cenas externas, imagens de apoio e trilha sonora. Para manter o calendário, foi necessário abrir mão de parte da vida noturna e usar os dias de folga para produzir.
Os comentários negativos também exigiram maturidade. Uma crítica sobre as músicas do canal o afetou porque a seleção sonora consumia muito tempo. Um amigo lembrou que havia dezenas de mensagens positivas e apenas uma avaliação ruim. A partir daí, Eduardo começou a colocar cada comentário em perspectiva.
É possível fugir da comunidade brasileira?
Antes de viajar, muitos estudantes dizem que querem evitar brasileiros para aprender inglês. O irmão de Eduardo o alertou para não transformar isso numa regra. Nos primeiros meses, são frequentemente outros brasileiros que compartilham vagas, ajudam na busca por moradia e explicam aspectos básicos da adaptação.
Galway tinha menos falantes de português nas ruas do que Dublin, mas ainda oferecia uma comunidade capaz de criar vínculos. O desafio era equilibrar essa rede de apoio com situações que exigissem o uso do inglês.
Há também uma característica difícil da vida de intercambista: muitas amizades terminam quando colegas voltam ao país de origem. Eduardo conta que perdeu pessoas próximas ao longo dos anos, mas os que permaneceram se tornaram amizades duradouras.
Os conselhos de Eduardo para quem pensa em morar na Irlanda
A experiência contada no episódio sugere algumas lições práticas:
- estude inglês antes da viagem sempre que isso estiver ao seu alcance;
- não escolha a cidade apenas pelo preço — considere rotina, transporte e oportunidades;
- pesquise acomodação com antecedência e desconfie de promessas fáceis;
- use a comunidade brasileira como apoio, sem abandonar o contato com outros idiomas;
- aceite trabalhos de entrada, mas mantenha um plano para a carreira desejada;
- não trate preços ou regras mencionados em vídeos antigos como informações atuais;
- organize uma reserva e mais de uma forma de pagamento ao viajar.
Eduardo também rejeita a ideia de começar a experiência de maneira irregular. Para ele, chegar legalmente reduz riscos e oferece uma base melhor para lidar com trabalho, estudo e imigração.
Intercâmbio em Galway vale a pena?
A resposta depende do estilo de vida. Galway fez sentido para Eduardo porque ele vinha do interior, preferia uma cidade menor e queria acesso ao oeste da Irlanda. As distâncias curtas e a comunidade ajudaram na adaptação.
Por outro lado, quem busca grande variedade de empregos, eventos e atividades urbanas pode sentir as limitações da cidade. Moradia também não é garantida e precisa ser avaliada com dados atuais.
O ponto central da história é que o intercâmbio não seguiu uma linha reta. Eduardo saiu da tecnologia, trabalhou como kitchen porter, garçom e chef, criou um canal e voltou a estudar programação. Cada etapa ajudou a descobrir o tipo de rotina que desejava construir.
Assista ao episódio completo para conhecer a trajetória de Eduardo Franco e entender como é viver, trabalhar e produzir conteúdo como intercambista em Galway.
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