Trabalhando na Irlanda: Reciel Xavier já fez de tudo

A trajetória de Reciel Xavier trabalhando na Irlanda reúne experiências que dificilmente caberiam em um currículo convencional. Sem falar inglês, ele começou fazendo esculturas de balão vestido de palhaço na Grafton Street. Depois passou por restaurante brasileiro, cozinha, café sofisticado, navio de cruzeiro, venda de marmitas, varejo e eventos corporativos.

Na conversa com Bolder, Reciel explica como cada trabalho surgiu, o que aprendeu atendendo clientes com um vocabulário ensaiado e por que não considera nenhuma dessas etapas perdida. O episódio também aborda produção de conteúdo, trabalho como modelo, um incêndio em sua casa e os planos profissionais que tinha na época da gravação.

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Da pedagogia no Brasil ao intercâmbio na Irlanda

Reciel nasceu em Americana, no interior de São Paulo, e chegou a Dublin em 2014. Antes da mudança, formou-se em pedagogia e acumulou experiência prática durante os quatro anos da faculdade.

Sua rotina incluía estágio em uma creche pela manhã, trabalho como segundo professor à tarde e aulas da faculdade à noite. Ele também participava de projetos de recreação e chegou a abrir uma empresa dedicada a festas e eventos.

Embora não tenha assumido uma turma como professor titular depois de formado, Reciel não vê a graduação como tempo perdido. O conhecimento sobre recreação, arte e relacionamento com crianças acabaria sendo usado justamente quando ele mais precisou se virar na Irlanda.

Chegar à Irlanda sem falar inglês

Reciel desembarcou sozinho, sem conhecer ninguém e praticamente sem inglês. Seu objetivo era aprender o idioma, uma necessidade que já havia impedido uma oportunidade profissional anos antes.

Durante uma viagem de formatura em um cruzeiro, ele foi convidado a participar de um processo seletivo para trabalhar a bordo. A proposta não avançou porque a função exigia inglês. A ideia ficou de lado enquanto ele cursava pedagogia, mas voltaria a aparecer mais tarde.

Em Dublin, o idioma também dificultou a procura pelo primeiro emprego. Reciel entregava currículos e comparecia a entrevistas, mas não conseguia sustentar a conversa. Depois de aproximadamente três ou quatro meses sem trabalho, decidiu recorrer a uma habilidade que já dominava.

O primeiro trabalho: palhaço na Grafton Street

Reciel comprou um nariz de palhaço, improvisou o restante da roupa e começou a fazer esculturas com balões na Grafton Street. Ele entregava cachorros, espadas e outras figuras às crianças, deixando que os responsáveis contribuíssem com o valor que desejassem.

Durante o verão, o dinheiro ajudava a pagar o aluguel e as despesas. Com a mudança do tempo, vieram novos problemas: o vento levava o nariz de espuma e o frio dificultava trabalhar com uma fantasia leve. Ainda assim, Reciel permaneceu nessa atividade por alguns meses.

Foi justamente na rua que apareceu a oportunidade seguinte. Depois de entregar um balão a uma criança brasileira, começou a conversar com o pai dela, que era ligado ao restaurante The D One. Reciel contou que precisava de emprego e foi convidado a levar o currículo. Assim começou uma passagem de quase dois anos como floor staff no restaurante.

Como Reciel aprendeu inglês no trabalho

O aprendizado de inglês aconteceu de maneira muito prática. Para atender mesas e vender produtos, Reciel anotava e repetia frases específicas, como formas de oferecer ajuda, bebidas, sobremesas ou macarons.

Essa estratégia foi colocada à prova em uma entrevista para a Ladurée, que na época mantinha um quiosque dentro da Brown Thomas. Reciel conta que havia decorado algumas respostas e nem sempre compreendia as perguntas. Mesmo assim, conseguiu a vaga.

No trabalho, um gerente percebeu sua dedicação e passou a corrigir expressões e explicar maneiras mais educadas de falar com o público. Reciel ficou cerca de dez meses na empresa e acompanhou a mudança do quiosque para o café próximo à Grafton Street.

As gorjetas faziam diferença?

Segundo o relato de Reciel, as gorjetas no café chegaram a pagar seu aluguel e suas contas. Em semanas movimentadas, especialmente no período de Natal, ele recebia aproximadamente €200 a €250 após a divisão entre a equipe.

Essa experiência contrastava com seu trabalho anterior voltado principalmente ao público brasileiro, onde as gorjetas eram menos comuns. Os valores representam o que ele viveu naquele período, não uma garantia sobre a remuneração atual no setor.

A rotina pesada como kitchen porter

Entre os empregos importantes dessa fase, Reciel também trabalhou como kitchen porter em um restaurante instalado em um barco no rio Liffey. A experiência durou apenas cerca de um mês, mas ficou marcada pelos turnos de 12 horas.

Como os pratos eram preparados individualmente em panelas e frigideiras diferentes, a cozinha produzia uma quantidade enorme de utensílios. A máquina ajudava, mas cada item ainda precisava passar pelas mãos da equipe. Reciel usou as muitas horas trabalhadas para juntar o dinheiro necessário a uma renovação do intercâmbio.

O antigo plano de trabalhar em navio de cruzeiro

Quando seu período como estudante se aproximou do fim, Reciel retomou o plano que havia começado antes da faculdade. Ainda na Irlanda, entrou em contato com uma agência especializada em recrutamento para navios e iniciou o processo seletivo.

Para trabalhar a bordo, precisou fazer no Brasil um curso de segurança com treinamento de combate a incêndio, primeiros socorros e procedimentos de emergência. Depois disso, completou dois contratos em navios de cruzeiro.

As rotas incluíam viagens pelo Brasil, Argentina e Uruguai, além de uma temporada europeia com escalas na Itália, França e Espanha. No primeiro contrato, trabalhou em uma área reservada a clientes do clube do navio; no segundo, ficou na pizzaria.

O horário continuava exigente, mas a função na pizzaria dispensava o café da manhã. Em alguns períodos, Reciel começava à tarde e terminava por volta das três da manhã. Como falava português, inglês e um pouco de espanhol e italiano, conseguia vender muitos itens adicionais. O desempenho era recompensado com períodos de folga, permitindo que conhecesse cidades durante as paradas.

Trabalhar em cruzeiro vale a pena?

Reciel descreve a experiência como positiva, mas não esconde a carga de trabalho. Em algumas áreas do restaurante, os tripulantes podiam trabalhar 12 ou 14 horas por dia, e a renda variável dependia de gorjetas e vendas.

Por outro lado, moradia e alimentação a bordo reduziam os gastos, o que permitia guardar dinheiro. Para ele, trabalhar em navio pode proporcionar experiências únicas, mas permanecer muitos anos nesse ritmo é uma decisão bastante pessoal.

Da cozinha às marmitas durante a pandemia

Depois do segundo contrato, Reciel recebeu a oportunidade de voltar a Dublin para trabalhar em um restaurante. Durante a pandemia, chegou a atuar como head chef, mas o fechamento do setor mudou novamente seus planos.

Sem conseguir ficar parado, começou a preparar marmitas com baixo teor calórico e bombons de chocolate. Gravava as receitas, publicava treinos feitos em casa e mostrava sua rotina. Os vídeos atraíram clientes para as marmitas e abriram caminho para seu trabalho como criador de conteúdo.

A atividade foi interrompida depois que um incêndio atingiu o quarto de uma colega de casa. Embora ninguém tenha morrido, a fumaça e o calor causaram danos em outros cômodos. Reciel precisou cancelar os pedidos de vários clientes no momento de maior demanda e passou meses reorganizando a moradia.

Ele destaca a ajuda recebida de amigos e da comunidade brasileira. Para Reciel, o apoio entre imigrantes teve papel importante tanto depois do incêndio quanto na divulgação de seu pequeno negócio.

Produção de conteúdo, cabelo e trabalho como modelo

Durante a pandemia, Reciel também documentou sua transição capilar. Passou a mostrar o crescimento dos cachos, os produtos utilizados e os cuidados necessários. O assunto trouxe parcerias com lojas e marcas de cosméticos.

Uma dessas oportunidades foi um trabalho de fotografia para a L’Oréal, realizado depois de um processo de seleção de modelos. A experiência retomou um interesse antigo: aos 15 anos, Reciel havia vencido um concurso de modelo em sua escola, mas a agência que o recebeu encerrou as atividades.

Ele explica que produzir conteúdo exige mais do que publicar fotos. É preciso aprender edição, marketing, formatos de vídeo e maneiras de manter o público interessado. Receber produtos pode ajudar, mas o objetivo é transformar influência em trabalho remunerado.

O que significa “já fez de tudo na Irlanda”?

Além das funções descritas no episódio, Reciel trabalhou na Zara, foi supervisor em uma empresa de sucos e, na época da gravação, atuava com hospitality e eventos corporativos dentro da Amazon. Seu plano era crescer profissionalmente em uma empresa maior sem abandonar a criação de conteúdo.

O ponto comum entre tantas mudanças não é simplesmente aceitar qualquer trabalho. Reciel procura aproveitar o que aprendeu em cada etapa. A pedagogia ajudou na recreação; os balões abriram a porta do restaurante; o atendimento ensinou inglês; os idiomas ajudaram nas vendas no navio; e as marmitas deram origem ao conteúdo digital.

Vale a pena assistir ao episódio completo?

A conversa mostra uma experiência de imigração feita de tentativas, trabalhos temporários e mudanças de direção. Reciel não apresenta uma fórmula para conseguir emprego na Irlanda. Sua principal recomendação é estudar, comparecer às entrevistas mesmo com medo e continuar procurando até encontrar uma área que faça sentido.

No vídeo completo, Bolder e Reciel falam ainda sobre entrevistas em inglês, rotina a bordo, gorjetas, redes sociais e os bastidores de quem tenta conciliar emprego fixo com produção de conteúdo. É um relato especialmente útil para quem deseja entender como habilidades aparentemente desconectadas podem ganhar valor durante a vida no exterior.