A maternidade na Irlanda é o ponto de partida desta conversa com Ana Nigro, mas o episódio vai muito além de uma comparação entre países. Ana conta como se tornou mãe aos 19 anos no Rio de Janeiro, enfrentou a maternidade solo, conciliou trabalho, faculdade e criação da filha e, anos depois, reconstruiu a vida em Dublin. No Bolder Podcast, ela também relata como foi ter o segundo filho no sistema público irlandês e criar duas crianças longe da rede de apoio familiar.
A entrevista mostra duas experiências de maternidade separadas por 11 anos e por contextos completamente diferentes. De um lado, a jovem que precisava escolher entre pagar a creche e fazer as compras do mês. Do outro, a imigrante que planejou a segunda gravidez depois de encontrar mais estabilidade na Irlanda.
Mãe aos 19 anos e o começo da maternidade solo
Ana teve Annabelle em 2008, quando tinha 19 anos. Naquele momento, estava desempregada, morava com a mãe e estudava para o vestibular. Ela descreve o nascimento da filha como uma divisão muito clara entre a Ana de antes e a Ana que precisou assumir responsabilidades rapidamente.
Quando Annabelle tinha 11 meses, Ana começou a trabalhar digitalizando documentos em uma empresa de limpeza de caixas-d’água e controle de pragas. Aos poucos, passou a vender serviços, aumentou a renda e chegou a coordenar o escritório e uma equipe de cerca de 15 homens, apesar de ter apenas 21 anos.
A separação do pai da menina aconteceu quando Annabelle tinha 1 ano e 10 meses. A partir dali, Ana passou a cuidar da filha como mãe solo. Seu salário ficava na faixa de R$ 700 a R$ 800, enquanto a creche particular custava aproximadamente R$ 400. Ela lembra de uma semana em que comeu arroz com salsicha para conseguir pagar a mensalidade, sabendo que a filha faria as refeições na escola.
Trabalho, faculdade e três horas de deslocamento
A experiência profissional despertou em Ana o interesse por contabilidade. Depois de fazer um pré-vestibular social, ela conseguiu uma bolsa integral do ProUni para cursar Ciências Contábeis na Estácio.
A rotina, porém, era pesada. Ana morava em Brás de Pina e estudava na Barra da Tijuca, em um deslocamento que podia levar cerca de três horas. Saía de casa às 6h e muitas vezes voltava perto da meia-noite. Durante a semana, Annabelle ficava com a avó, uma ajuda essencial, mas que também provocava culpa e a sensação de estar perdendo parte do crescimento da filha.
Foi na faculdade que Ana conheceu o homem que viria a ser seu marido e a figura paterna de Annabelle. A construção dessa nova família seria decisiva nos planos de sair do Brasil.
Da Itália para a Irlanda com apenas 300 euros
A mudança começou em maio de 2018. Ana e o marido passaram primeiro pela Itália, onde ele buscou o reconhecimento da cidadania italiana, e depois seguiram para a Irlanda. Segundo ela, chegaram com cerca de 300 euros e foram acolhidos na sala da casa do cunhado. O marido começou a trabalhar já no dia seguinte.
A cidadania europeia abriu portas, mas não eliminou as dificuldades. Ana lembra que ainda havia dívidas, jornadas longas e a necessidade de organizar documentação e moradia. Em determinado período, ela chegou a trabalhar 12 horas por dia.
Annabelle permaneceu no Brasil com a avó paterna durante essa fase inicial. Ana foi criticada por viajar sem a filha, mas explica que a intenção sempre foi trazê-la assim que a família tivesse casa e situação mais estáveis. Enquanto isso, pagava aulas particulares de inglês e cuidava das autorizações necessárias para a mudança.
Nove meses longe da filha
A separação durou nove meses — um período que Ana compara a uma nova gestação. Annabelle pediu para ir antes do que estava inicialmente previsto e chegou à Irlanda em fevereiro de 2019, aos 10 anos.
Ana procurou uma escola acostumada a receber imigrantes. A filha começou as aulas poucos dias depois de chegar, já perto do fim do ano letivo e sem falar inglês. Em vez de exigir que ela dominasse todo o conteúdo imediatamente, a direção priorizou a integração com a turma e a adaptação ao novo ambiente.
Na mesa de Annabelle, a escola colocou uma folha com palavras essenciais para situações do dia a dia, como pedir para ir ao banheiro. A menina fez amizades já no primeiro dia, avançou para o ano seguinte e, com o tempo, tornou-se uma aluna bastante ativa. Na época da entrevista, já estudava no ensino secundário, havia recebido reconhecimento em artes e tinha sido escolhida para participar do grupo de boas-vindas a novos estudantes.
Como foi a segunda gravidez na Irlanda
Depois de se sentir mais segura no país, Ana e o marido planejaram a chegada de Arthur. A experiência permitiu que ela comparasse o nascimento de Annabelle em um hospital particular no Brasil com o atendimento de maternidade pelo sistema público irlandês.
Ana faz questão de dizer que a experiência de cada mulher é individual. No caso dela, o parto e o acompanhamento na Irlanda foram positivos. Embora os dois filhos tenham nascido por cesariana, a segunda cirurgia aconteceu por uma questão de saúde. Ela queria tentar o parto vaginal e percebeu que a equipe irlandesa tratava a cesárea como uma intervenção indicada quando necessária, não como a primeira opção.
Um dos aspectos que mais a marcou foi o contato pele a pele com o bebê logo após o nascimento. Para Ana, manter Arthur perto dela tornou o atendimento mais humano do que o parto que havia vivido 11 anos antes.
Pré-natal com consultas mais espaçadas
Outra diferença foi o pré-natal. Ana conta que as consultas e ultrassonografias eram mais espaçadas do que muitas brasileiras esperam. Na visão dela, a lógica do sistema era acompanhar uma gestação saudável sem fazer exames invasivos em excesso e intensificar a investigação quando surgisse algum sinal de risco.
Essa diferença ficou clara quando Ana teve uma infecção nos rins durante a gravidez. Depois de organizar o próprio chá de bebê, ela começou a sentir febre e dores fortes durante a noite. No dia seguinte, procurou a maternidade e acabou internada por seis dias, com Arthur ainda pesando aproximadamente 1,5 kg e correndo risco de nascer com 28 semanas.
A partir daquele momento, os exames tornaram-se frequentes e o acompanhamento passou a ser muito próximo. Ana afirma que se sentiu acolhida pela equipe e que todo o tratamento relacionado à gravidez, dentro da modalidade pública que escolheu, foi coberto pelo sistema.
Os procedimentos, valores e regras citados nesta entrevista refletem a experiência de Ana e o período em que o episódio foi gravado. Quem estiver planejando uma gravidez ou mudança para a Irlanda deve confirmar as condições atuais com os órgãos oficiais e profissionais de saúde.
Licença-maternidade, creche e o custo de criar filhos
Na época em que engravidou, Ana trabalhava como assistente de cozinha em uma casa de repouso. No episódio, ela explica que recebeu o pagamento governamental da licença-maternidade, mas sua empresa não complementava o valor até chegar ao salário habitual. Ela também comenta que algumas empresas ofereciam benefícios adicionais ou um período sem remuneração com a vaga preservada.
Para Ana, o maior desafio da maternidade na Irlanda não era necessariamente comprar fraldas, roupas ou alimentos. Ela considerava esses itens relativamente acessíveis e valorizava a possibilidade de levar as crianças a parques e áreas de lazer gratuitas.
O problema mais difícil era conciliar o trabalho dos pais com os cuidados da criança. Ana destaca a falta de creche pública para os primeiros anos e o peso da creche privada no orçamento familiar. Na visão dela, essa questão se torna ainda mais séria para famílias imigrantes que não têm avós, tios ou amigos próximos para ajudar.
Educação e qualidade de vida
Ao comparar Brasil e Irlanda, Ana identifica a educação básica como uma das principais diferenças. Ela se diz satisfeita com a escola pública da filha e com o incentivo a habilidades que iam além do conteúdo tradicional. Annabelle, por exemplo, pôde desenvolver o interesse por artes, cerâmica e carpintaria, atividades que também envolviam matemática, geometria e química de forma prática.
Ainda assim, Ana não romantiza a experiência de criar filhos no exterior. O pós-parto sem familiares por perto, a dificuldade de o casal ter tempo sozinho e as dúvidas sobre escola, enxoval, clima e rotina pesam. Até uma questão aparentemente simples — como vestir um bebê para o frio irlandês — pode se tornar complicada para quem não cresceu naquele ambiente.
Por que Ana começou a falar sobre maternidade na Irlanda
Quando chegou ao país, Ana encontrou muito conteúdo voltado a estudantes e intercambistas, mas pouco material para famílias. Ela não sabia como pesquisar escolas, quais modelos de ensino existiam ou o que a filha precisaria para começar as aulas.
As conversas em grupos de Facebook e com outras mães mostraram que havia uma comunidade com necessidades bem diferentes das de quem chega sozinho. Uma família precisa pensar em bairros, escolas, deslocamento, orçamento, gravidez e rede de apoio. Ana começou a responder perguntas em seu perfil pessoal e, de forma gradual, abriu o Instagram para compartilhar o que havia aprendido.
O objetivo, segundo ela, era fazer com que outras famílias não se sentissem tão perdidas quanto ela se sentiu. As perguntas iam desde o funcionamento do pré-natal até o custo mensal de mercado, as roupas adequadas para crianças e a possibilidade de pai e mãe trabalharem ao mesmo tempo.
Manter a cultura brasileira dentro de casa
Arthur nasceu na Irlanda, enquanto Annabelle chegou ao país aos 10 anos e se adaptou rapidamente. Mesmo assim, Ana quer preservar a ligação dos filhos com o Brasil. Em casa, a família fala português, lê livros e ouve músicas brasileiras. Ela também pretende envolver Arthur em atividades culturais da comunidade brasileira à medida que ele crescer.
Para Ana, integração não significa apagar a origem. O desafio é permitir que os filhos se sintam parte da sociedade irlandesa sem perder a história e a cultura da família.
Vale a pena criar filhos na Irlanda?
A resposta de Ana é construída a partir da própria trajetória. A Irlanda trouxe segurança, educação, áreas públicas de lazer e a possibilidade de planejar o segundo filho. Ao mesmo tempo, exigiu enfrentar a distância da família, os custos de childcare e uma rotina sem a rede de apoio que ela havia tido no Brasil.
O episódio deixa claro que a maternidade na Irlanda não pode ser resumida a “melhor” ou “pior”. É uma experiência formada por visto, renda, moradia, escola, saúde e suporte emocional. Ao contar desde os dias em que precisava escolher como pagar a creche até o nascimento de Arthur, Ana oferece uma visão concreta das decisões que uma família imigrante precisa tomar.
Assista à conversa completa com Bolder para conhecer todos os detalhes da trajetória de Ana Nigro e da criação de seus filhos na Irlanda.
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