Mecânicos de carro e moto na Irlanda: Lucas Bissoli e Andrey Filho | Bolder Podcast 191

Trabalhar como mecânico na Irlanda exige mais do que conhecer motores. É preciso aprender o vocabulário técnico em inglês, adaptar-se aos carros a diesel, entender o NCT e conquistar a confiança de uma comunidade que muitas vezes não consegue explicar um defeito em outra língua. No Bolder Podcast 191, Lucas Bissoli e Andrey Filho contam como construíram seus negócios de mecânica de carros e motos em Dublin.

As trajetórias começaram de formas diferentes. Lucas cresceu dentro da oficina do pai no Brasil e chegou à Irlanda com muitos anos de experiência, mas sem ferramentas ou inglês. Andrey também era filho de mecânico, porém passou a trabalhar profissionalmente com motos depois de emigrar. Os dois se conheceram fazendo delivery e acabaram abrindo oficinas lado a lado.

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Quais são as diferenças da mecânica na Irlanda?

A lógica do trabalho continua a mesma, mas a frota é diferente. Lucas explica que, no Brasil, lidava principalmente com carros a gasolina e etanol, enquanto veículos pequenos a diesel são comuns na Irlanda. Isso exigiu aprendizado sobre motores, peças e problemas que antes apareciam mais em vans e caminhões.

No caso das motos, Andrey encontrou modelos de cilindrada maior e mais acessíveis do que no Brasil. Ele próprio começou a fazer delivery com uma moto de 600 cilindradas. O combustível não inviabilizava o trabalho, mas pneus, relação e outras peças tornavam a manutenção mais cara do que em uma scooter ou moto de baixa cilindrada.

O idioma foi outro obstáculo. Lucas conta que chegava à loja com a peça desmontada na mão porque não sabia o nome em inglês. O atendente identificava o componente, e assim ele foi formando o próprio vocabulário técnico. A expressão “vela”, por exemplo, não se traduz literalmente: no contexto do motor, é spark plug.

A BMW quebrada que deu início ao negócio de Lucas

Lucas não abriu uma oficina com um grande investimento. A história começou quando comprou de um brasileiro uma BMW diesel que já havia passado por mecânicos sem solução. Ele parcelou o carro mesmo sem ter scanner, ferramentas adequadas ou experiência naquele modelo.

Ao observar os sintomas, lembrou de um defeito que o pai havia encontrado no Brasil e suspeitou do filtro de partículas, o DPF. Trabalhando na garagem do condomínio com o macaco do próprio carro, cavaletes e ferramentas compradas no Lidl, desmontou e limpou a peça. Depois de dois dias, a BMW voltou a funcionar.

Em seguida, Lucas comprou um Fiat Punto com defeito, consertou e vendeu para outro brasileiro. O carro reprovou no NCT por problemas de freio, e ele cumpriu a promessa de corrigir tudo até a aprovação. O comprador indicou o serviço a um amigo, e novos clientes começaram a aparecer.

Da oficina móvel ao primeiro galpão

As ferramentas passaram a ocupar o espaço sob a escada do prédio onde Lucas morava. Quando os vizinhos reclamaram do óleo e dos equipamentos, ele comprou uma van para guardar tudo e atender na casa dos clientes. Era uma oficina móvel improvisada.

O modelo funcionou até a chegada do inverno. Com chuva e vento, tornou-se inviável deitar debaixo de carros em garagens abertas. Durante um atendimento, Lucas viu galpões abandonados nos fundos de uma casa e conseguiu contato com o responsável pelo imóvel, que havia trabalhado com ele no delivery.

O acordo para ocupar o espaço incluía limpar o local e consertar uma van com problema no cabeçote. Era o primeiro motor a diesel que Lucas abriria na Irlanda. A dificuldade o levou a procurar uma retífica e conhecer um profissional em Kildare que continuou sendo seu fornecedor. O reparo da van substituiu parte dos custos iniciais do aluguel.

Como Andrey abriu uma oficina de motos na Irlanda

Andrey chegou à Irlanda ainda muito jovem, em 2008, passou pela Inglaterra e depois retornou ao país. Embora sempre tivesse mexido nas motos da família, começou a se dedicar profissionalmente à área na Irlanda.

Primeiro trabalhou em uma oficina. Com o tempo, clientes passaram a perguntar em quais dias ele estaria presente e a procurá-lo diretamente. Quando reduziu os turnos, algumas pessoas começaram a levar motos até sua casa. Em uma manhã, Andrey encontrou cerca de dez motos no quintal compartilhado do condomínio e percebeu que não dava mais para adiar o próprio negócio.

A esposa já o incentivava havia aproximadamente um ano. Ainda assim, o medo de o negócio não funcionar atrasava a decisão. A oportunidade apareceu quando Andrey soube que Lucas queria alugar uma parte pouco utilizada do galpão. Eles dividiram o espaço com uma parede, mantendo a Bissoli Motors e a BR Motorcycles como negócios separados, mas complementares.

Por que brasileiros procuram mecânicos brasileiros?

Segundo os convidados, a maior parte dos clientes era brasileira. O idioma ajuda a explicar o defeito, compreender o diagnóstico e discutir o orçamento. Também existe o fator confiança: quem não entende de mecânica pode ter dificuldade para avaliar se todos os reparos sugeridos são realmente necessários.

Lucas e Andrey destacam ainda a praticidade. Serviços rápidos, como uma lâmpada, um pneu ou uma troca de óleo, podem ser atendidos no mesmo dia quando há estrutura disponível. Em alguns momentos, porém, até uma troca simples precisa ser agendada porque os elevadores estão ocupados com carros desmontados.

Lucas explica que levantar o carro corretamente não é detalhe. Fazer a troca de óleo com o veículo inclinado pode impedir o escoamento completo do óleo antigo. Na época da entrevista, ele tinha dois elevadores e planejava mudar para um local maior, com uma terceira estrutura reservada para serviços rápidos.

Carro usado na Irlanda: o que observar antes de comprar?

Um carro barato pode se transformar em uma manutenção cara. No episódio, os mecânicos recomendam avaliar o histórico, o estado geral e a validade do NCT antes da compra. Lucas se dispõe a examinar veículos levados até a oficina, mas explica que acompanhar o comprador até cada anúncio tomaria tempo demais da agenda.

Para quem busca menor risco de manutenção, ele cita Toyota, Honda e outros modelos japoneses como exemplos que normalmente chegam à oficina para serviços preventivos, não para grandes falhas. Já Jaguar e Land Rover aparecem como carros que podem ser baratos no anúncio, mas exigem peças e mão de obra caras. Lucas relata que alguns reparos demandam separar a carroceria do chassi e que componentes simples podem custar muitas vezes mais do que equivalentes de marcas populares.

Os valores mencionados no episódio refletem o mercado na época da gravação e variam conforme modelo, oficina e disponibilidade de peças. Mais importante do que escolher apenas pela marca é fazer uma avaliação independente e manter uma reserva para seguro, imposto, NCT e manutenção.

E para comprar uma moto?

Andrey recomenda atenção tanto ao estado mecânico quanto à segurança da negociação. Ele conta o caso de uma moto levada durante um suposto teste: o interessado ligou o veículo, engatou a marcha e simplesmente foi embora. Por isso, vendedores evitam divulgar o endereço de casa e preferem encontrar compradores em locais movimentados.

O roubo de motos também é uma preocupação recorrente. No episódio, Andrey sugere esconder um rastreador, como um AirTag, para aumentar a possibilidade de localização. Para quem trabalha com delivery, pneus sem câmara e um kit de reparo podem evitar que um furo encerre o dia de trabalho.

Quanto custa manter carro e moto na Irlanda?

Os convidados explicam que peças podem ser mais acessíveis do que no Brasil, mas a mão de obra pesa no orçamento. O custo aumenta de acordo com a complexidade, o tempo e a responsabilidade sobre o veículo. Trabalhar em uma moto esportiva ou em um carro de alto valor não é equivalente a atender um modelo popular.

No caso das motos, Andrey cita a Ducati como exemplo de manutenção especializada e cara. Para quem faz delivery, Honda PCX e Yamaha NMAX aparecem na conversa como opções comuns, com peças e manutenção mais previsíveis. Nos carros, Lucas reforça que ter condições de comprar um modelo premium não significa necessariamente conseguir mantê-lo.

Há oportunidades para mecânicos na Irlanda?

Na época da entrevista, Lucas estava com dificuldade para preencher uma vaga de mecânico em tempo integral. Além da qualificação técnica e da confiança, o limite de horas do visto de estudante reduzia o número de candidatos disponíveis durante todo o dia. Ele também apontou carência de profissionais especializados em elétrica automotiva.

A história de Lucas e Andrey mostra que existe demanda, mas o caminho envolve documentação para trabalhar, inglês técnico, ferramentas, estrutura e reputação. Os dois começaram sem uma oficina pronta: um consertando carros com ferramentas de mercado e outro atendendo motos no quintal de casa.

Assista ao Bolder Podcast 191 para conhecer todos os detalhes sobre a rotina de mecânicos de carro e moto na Irlanda, os custos de manutenção, os riscos na compra de veículos usados e a construção da Bissoli Motors e da BR Motorcycles.