Construir uma carreira na Irlanda exige mais do que traduzir o currículo e se candidatar a dezenas de vagas. No Bolder Podcast, Stephanie Santana conta como saiu do recrutamento de tecnologia no Brasil, enfrentou a pandemia como intercambista, trabalhou como babá, cuidadora e cleaner e, depois de muitas entrevistas, voltou à área profissional.
Hoje, Stephanie atua com recrutamento no setor público e mentoria de carreira. Na conversa com Bolder, ela explica como empresas irlandesas selecionam profissionais, quais áreas costumam patrocinar permissões de trabalho e por que iniciativa, comunicação e clareza profissional pesam tanto quanto a experiência técnica.
Contexto: mercado de trabalho, salários, vistos e listas de ocupações mudam. As experiências e os exemplos deste episódio representam a época da gravação. Antes de planejar uma mudança, confirme os requisitos atuais em fontes oficiais.
Da área de vendas ao recrutamento de tecnologia
No Brasil, Stephanie formou-se em Marketing, mas teve dificuldade para encontrar oportunidades bem remuneradas na área. Como precisava ajudar a família, construiu a carreira em vendas B2B e passou por empresas de diferentes setores.
O trabalho comercial trazia cobrança constante, metas e pressão. Cansada dessa rotina, ela se candidatou a uma vaga de recepcionista numa consultoria britânica de tecnologia. Foi contratada e, em apenas dois meses, recebeu uma promoção para a operação de recrutamento.
A empresa atendia multinacionais e alocava profissionais de TI em projetos. Stephanie recebia comissão pelas contratações, aprendeu a lidar com um setor técnico e foi promovida três vezes. O crescimento era ligado ao cumprimento de metas, o que aumentava remuneração e responsabilidade.
Como a consultoria tinha escritórios em vários países, profissionais que falavam inglês podiam trabalhar com vagas na Europa e nos Estados Unidos. Stephanie ainda sabia muito pouco do idioma e percebeu que isso limitava sua evolução, mesmo dentro do Brasil.
Por que ela escolheu fazer intercâmbio na Irlanda
Stephanie chegou à Irlanda no último dia de janeiro de 2020. O plano parecia simples: estudar durante seis meses, alcançar fluência, viajar nas férias e voltar ao Brasil mais preparada para trabalhar em inglês.
Em aproximadamente 20 dias, conseguiu emprego como babá de duas crianças de uma família indiana. Uma colega de casa havia feito a indicação, e a experiência de cuidar dos cinco irmãos mais novos ajudou, mesmo com o inglês limitado.
Um mês depois, a pandemia mudou tudo. Ela não podia mais ir à casa da família, as aulas passaram para o ambiente remoto e a circulação foi restringida. Como estava formalmente registrada, conseguiu solicitar o benefício disponível naquele período — apoio decisivo para pagar o aluguel.
Voltar ao Brasil parecia uma possibilidade, mas todo o dinheiro que havia juntado com o trabalho em recrutamento estava investido no intercâmbio. Stephanie decidiu permanecer e tentar transformar a experiência interrompida em algo útil.
Estudar inglês durante a pandemia
Durante os dois anos do curso, Stephanie frequentou presencialmente a escola por apenas algumas semanas. Nos primeiros meses, morava com brasileiros, estudava numa turma formada por brasileiros e chegou a ter professor brasileiro. O ambiente prometido como internacional praticamente não existia.
Passados seis meses, ela sentia que ainda estava no mesmo nível. Receber o auxílio e continuar em casa não a aproximaria do objetivo, por isso começou a procurar um trabalho em que precisasse conversar com pessoas.
A oportunidade veio na área de cuidados domiciliares. Stephanie trabalhava como cuidadora de idosos e fazia aproximadamente oito visitas por dia. Percorria as casas sob chuva e vento, ajudava com banho, troca de fraldas, refeições, limpeza e companhia.
O trabalho era física e emocionalmente difícil. Alguns clientes estavam isolados da família e precisavam de apoio afetivo. Em uma ocasião, ela chegou para uma visita e encontrou o paciente já falecido. Para alguém sem formação em saúde ou experiência anterior, foram situações muito intensas.
Ao mesmo tempo, conversar com idosos acelerou o inglês. Alguns atendimentos existiam principalmente para fazer companhia, e as histórias contadas pelos clientes criaram vínculos. Depois, Stephanie também trabalhou em café e limpeza, acumulando experiências comuns a muitos intercambistas.
Como ela conseguiu voltar à própria área
Stephanie continuou se candidatando a vagas, mesmo sem se sentir preparada. Atendia ligações de recrutadores com respostas previamente anotadas. Quando a conversa saía do roteiro, frequentemente não entendia o que estava sendo perguntado.
Ela participou de processos em grandes multinacionais e recebeu várias rejeições. Em vez de interpretar cada “não” como prova de incapacidade, usava a entrevista seguinte para corrigir os erros da anterior.
Quando o período como estudante de inglês terminou, começou uma pós-graduação em International Business. Um mês depois, recebeu uma proposta para trabalhar novamente com recrutamento. A empresa se dispôs a patrocinar sua permissão de trabalho, mas ela preferiu concluir o curso no qual já havia investido e manter maior liberdade profissional.
A formação também criaria uma rota de pós-estudo. Para Stephanie, a decisão fez sentido porque não queria ficar dependente de uma única empresa logo no retorno à carreira.
O que garantiu a primeira vaga profissional na Irlanda?
Stephanie destaca dois fatores: iniciativa e autoconfiança. O inglês ainda não estava no nível desejado, mas ela treinava intensamente antes das entrevistas. Gravava respostas, ensaiava diante do espelho e preparava exemplos que mostrassem como havia resolvido problemas.
A experiência brasileira continuava importante, porém o recrutamento irlandês envolvia setores novos. Na primeira oportunidade, ela precisou aprender engenharia, construção e outras áreas técnicas em outro idioma.
O gerente que a contratou percebeu disposição para aprender e assumir responsabilidade. Ela não fingiu dominar todas as especialidades, mas mostrou que conseguiria desenvolver o conhecimento necessário.
Para Stephanie, uma entrevista mistura competência e posicionamento. O candidato precisa explicar o que sabe, demonstrar iniciativa e transmitir segurança. Um ótimo histórico perde força quando a pessoa não consegue relacioná-lo às necessidades da vaga.
Como funciona o recrutamento na Irlanda
No Brasil, a consultoria em que Stephanie trabalhava possuía um banco de candidatos consolidado. Na Irlanda, a concorrência por profissionais qualificados transformava o recrutador em um verdadeiro headhunter.
Grande parte das candidaturas espontâneas não atendia completamente aos requisitos. O recrutador precisava pesquisar no LinkedIn, abordar profissionais empregados e convencê-los a considerar uma mudança.
Em determinadas áreas, era a empresa que precisava “vender” a vaga. Stephanie trabalhou com oportunidades de engenharia que ofereciam salários elevados, benefícios e até passagens regulares para o profissional visitar o país de origem.
Agências de recrutamento são numerosas porque terceirizar a busca reduz o trabalho interno das empresas. Elas recebem uma taxa pela contratação, enquanto recrutadores podem ganhar comissão. Isso também explica por que o profissional da agência investe tempo nos candidatos com maior chance de contratação.
O visto impede um brasileiro de ser considerado?
Stephanie afirma que depende do cliente e da vaga. Algumas empresas já avisavam que não poderiam patrocinar uma permissão. Outras faziam o processo sem dificuldade quando encontravam um profissional realmente necessário.
Empresas menores podem não possuir orçamento, estrutura ou experiência para lidar com o patrocínio. Organizações maiores, principalmente em áreas técnicas, tendem a conhecer melhor o processo.
Também existem limites internos e planejamento anual. Uma empresa pode ter esgotado o número de contratações internacionais previsto para determinado período, mesmo que o candidato se disponha a pagar parte das taxas.
Para perfis juniores ou pessoas em transição, a permissão de pós-estudo pode facilitar a entrada. A empresa consegue testar o profissional num contrato antes de decidir se oferece uma posição permanente e inicia o patrocínio.
Quais áreas oferecem oportunidades na Irlanda?
Na experiência de Stephanie, engenharia, construção e funções técnicas especializadas tinham forte demanda. Eletricistas, profissionais de montagem, especialistas em móveis planejados e trabalhadores ligados a grandes obras eram difíceis de encontrar.
Ciências da vida também se destacavam. Farmacêuticas, biofarmacêuticas e empresas de dispositivos médicos precisavam de profissionais técnicos e de áreas de apoio, incluindo supply chain e logística.
Data centers e grandes projetos de infraestrutura ofereciam algumas das remunerações mais altas. Stephanie chegou a trabalhar numa vaga de engenharia com salário anual de €145 mil e viu posições superiores anunciadas por valores ainda maiores.
Construção, arquitetura, gerenciamento de obra e real estate também apareciam com frequência. O hospital infantil de Dublin é citado de forma bem-humorada como um projeto tão longo que poderia garantir trabalho por muitos anos.
Inglês perfeito é obrigatório?
O inglês precisa ser comunicável, não impecável. Experiência, iniciativa, resolução de problemas e capacidade de explicar o próprio trabalho podem compensar pequenos erros linguísticos.
A entrevista, entretanto, exige preparação. É preciso compreender a pergunta, organizar exemplos e conversar sobre resultados. Stephanie recomenda ensaiar em voz alta e gravar as respostas, método que usou para ganhar confiança.
Depois da contratação, o aprendizado continua no cotidiano. A empresa pode aceitar um profissional que ainda está aperfeiçoando o idioma, desde que consiga colaborar e mostre evolução.
Setor público ou empresa privada?
Stephanie passou a trabalhar no recrutamento interno da Trinity College Dublin. Diferentemente da agência, o processo é mais passivo: candidatos enviam suas inscrições e a equipe administra a seleção segundo regras do setor público.
As vagas funcionam como competições. Formação, experiência e competências técnicas geram uma avaliação inicial, seguida por uma entrevista em painel. Participam representantes da área contratante e de outras equipes.
O setor público pode oferecer estabilidade, rotina previsível e qualidade de vida, mas geralmente não possui os maiores salários. Quem prioriza remuneração pode encontrar valores superiores no setor privado ou em contratos temporários de projetos.
Estar na Irlanda costuma ajudar porque permite começar rapidamente, mas pessoas de várias localidades podem se candidatar quando atendem aos requisitos.
Como começar em recrutamento e seleção
A área aceita profissionais de entrada, especialmente quando trazem habilidades transferíveis. Experiência em vendas é valorizada porque recrutamento em agência envolve relacionamento, negociação, abordagem de clientes e apresentação de vagas.
Alguns recrutadores trabalham num modelo 360: conquistam empresas clientes, administram a conta e também encontram candidatos. Outros se concentram apenas na busca e triagem.
Para recrutamento interno, cursos de RH e Business Partner podem ajudar. Ainda assim, Stephanie considera comunicação, relacionamento e experiência prática mais importantes do que acumular certificados genéricos.
Networking também faz diferença. Empresas oferecem bônus de indicação aos funcionários, pois uma boa recomendação pode custar menos do que contratar uma agência. Conversar com pessoas da área ajuda a entender as exigências e pode gerar uma indicação legítima.
Clareza profissional antes de enviar currículos
Dizer que está “aberto a qualquer oportunidade” parece flexível, mas dificulta o trabalho do recrutador. Quem se candidata a funções sem relação entre si transmite falta de direção e se torna difícil de apresentar a um cliente.
Stephanie recomenda definir cargos-alvo, mapear competências transferíveis e adaptar currículo e LinkedIn. A estratégia não é copiar palavras-chave, mas explicar como a experiência anterior resolve problemas daquele mercado.
Foi dessa necessidade que surgiu seu trabalho de mentoria para mulheres. Ela ajuda clientes a construir confiança, clareza e posicionamento, usando tanto a experiência como recrutadora quanto as dificuldades que viveu como imigrante.
A trajetória mostra que uma carreira na Irlanda pode incluir etapas fora da profissão original. Trabalhar como cuidadora, babá ou cleaner não apagou a experiência de Stephanie; deu tempo, inglês e resistência para que ela voltasse mais preparada. Assista ao episódio completo para conhecer os exemplos e as perguntas do público.
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