É possível trabalhar como nutricionista na Irlanda com uma formação brasileira? No Bolder Podcast 126, Marcelo Tollio e Gabriella Cruz mostram que a resposta depende do tipo de atividade desejada. Marcelo fez uma formação técnica na Irlanda e se especializou em nutrição esportiva; Gabriella graduou-se no Brasil e enfrentou um longo processo para reconhecer a qualificação e obter o registro profissional irlandês.
A conversa revela as diferenças entre nutritionist e dietitian, o caminho de quem pretende trabalhar em hospitais ou no HSE, a rotina do atendimento autônomo e vários mitos sobre dieta, perda de peso, musculação e alimentos “proibidos”.
Dois caminhos para trabalhar com nutrição na Irlanda
Embora atuem na mesma área, Marcelo e Gabriella chegaram à profissão por trajetórias muito diferentes. Essa diferença ajuda a entender por que não existe uma única resposta para quem pergunta como ser nutricionista na Irlanda.
Marcelo construiu a carreira no esporte e no atendimento de pessoas saudáveis que buscam emagrecimento, ganho de massa muscular ou preparação para competições. Gabriella possui graduação brasileira em Nutrição e direcionou a formação também para a área clínica, incluindo pacientes com doenças e casos ligados à saúde intestinal.
Quando o episódio foi gravado, os dois trabalhavam juntos havia aproximadamente um ano. Marcelo já tinha uma lista de espera que podia chegar a um ou dois meses e procurava outro profissional para dividir a demanda. Encontrou Gabriella pelas redes sociais, convidou-a para conhecer o consultório e começou a encaminhar clientes. Em cerca de uma semana, segundo eles, a agenda dela também estava cheia.
Quem é Marcelo Tollio?
Marcelo Tollio entrou na nutrição por meio do fisiculturismo. Como atleta, percebeu que mudanças na alimentação afetavam diretamente seu peso e sua composição corporal. Passou a estudar para compreender as estratégias utilizadas pelo treinador e melhorar o próprio desempenho.
O conhecimento começou de maneira prática e autodidata. Depois de aproximadamente três anos de estudo e experiência no esporte, Marcelo passou a preparar outros atletas. Os resultados fizeram amigos e conhecidos procurarem dietas, inicialmente sem cobrança.
Ao perceber que a procura havia se transformado em trabalho, decidiu buscar uma qualificação formal na Irlanda. Fez um curso técnico de aproximadamente seis meses que, segundo relata, permitia atuar de forma independente com pessoas saudáveis e objetivos esportivos.
King Nutrition e o consultório em Dublin
Marcelo também criou a King Nutrition, apresentada no episódio como a primeira loja brasileira de suplementos da Irlanda. O espaço, localizado na Parnell Street na época da gravação, reunia a loja e o consultório.
A proposta era combinar orientação nutricional e venda de suplementos. Em vez de indicar um produto apenas porque funcionou para outra pessoa, a equipe avaliava as necessidades e o objetivo de cada cliente. Marcelo, Gabriella e Michael atendiam no local, com apoio de profissionais de treinamento físico.
Marcelo explica que prefere trabalhar com transformação corporal, atletas e competidores. Uma das metas era mostrar que também é possível competir em federações de fisiculturismo natural, nas quais há controle antidoping.
Quem é Gabriella Cruz?
A primeira formação de Gabriella foi Engenharia. Ela concluiu um mestrado e trabalhava como pesquisadora, mas vivia de maneira sedentária. Quando começou a treinar com acompanhamento profissional e a melhorar a alimentação, quis compreender cientificamente as mudanças que sentia.
O interesse que começou como hobby se tornou uma segunda graduação. Durante um período, conciliou trabalho, mestrado e aulas noturnas de Nutrição. A nova área acabou ocupando o primeiro lugar, e Gabriella deixou a Engenharia.
No Brasil, a graduação ofereceu contato com alimentação coletiva, clínica, hospitais, diferentes faixas etárias e outras frentes da profissão. Depois dos estágios e do início da carreira, ela veio para a Irlanda como estudante e buscou uma maneira de continuar trabalhando legalmente na área.
Nutrição clínica e esportiva no mesmo atendimento
Gabriella gosta da prática esportiva, mas mantém forte interesse por casos clínicos e hospitalares. No episódio, conta que se aprofundava em questões gastrointestinais e pretendia combinar o consultório com um trabalho de meio período em ambiente clínico.
Para Marcelo, essa experiência torna a atuação dela complementar: Gabriella entende a rotina de quem treina, mas também possui a formação necessária para lidar com situações que ultrapassam a nutrição esportiva de pessoas saudáveis.
Nutritionist e dietitian: qual é a diferença na Irlanda?
A terminologia pode confundir brasileiros. Na Irlanda, o título dietitian — também escrito dietician — é legalmente protegido. Apenas pessoas registradas no Dietitians Register da CORU podem utilizá-lo.
O título nutritionist não corresponde automaticamente à graduação brasileira em Nutrição. No relato de Marcelo, sua formação técnica irlandesa permitia trabalhar de maneira autônoma com nutrição esportiva e clientes saudáveis, mas não oferecia o mesmo acesso a hospitais, serviço público ou tratamento clínico de doenças.
Gabriella compara o dietitian irlandês ao nutricionista graduado e registrado no Brasil. Esse profissional pode disputar funções clínicas e hospitalares, desde que cumpra as exigências de reconhecimento e registro.
O que dizem as regras atuais?
A CORU informa que o registro de dietistas foi aberto em 2014 e que os títulos dietitian e dietician são protegidos desde 2016. Quem obteve a qualificação fora da Irlanda precisa primeiro ter a formação reconhecida e, depois, solicitar o registro.
A profissão de dietician continua na Critical Skills Occupations List vigente em 2026. Isso não significa que o diploma ou o visto sejam automáticos: é necessário cumprir os requisitos profissionais, receber uma proposta elegível e atender aos critérios salariais e migratórios atuais.
Como Gabriella validou a graduação brasileira
Gabriella descreve duas etapas: o reconhecimento da qualificação estrangeira e o registro profissional. O processo pessoal dela durou quase dois anos e exigiu persistência.
Entre os documentos solicitados estavam diploma, histórico acadêmico e a descrição detalhada das disciplinas. O handbook da graduação tinha 136 páginas e precisou ser traduzido. O objetivo era demonstrar que a formação brasileira cobria as competências exigidas na Irlanda.
Na fase de registro, ela também precisou comprovar proficiência em inglês. Fez o IELTS duas vezes porque, na primeira tentativa, ficou um ponto abaixo do resultado necessário.
A CORU ainda entrou em contato com o Conselho Regional de Nutricionistas no Brasil para confirmar a situação profissional de Gabriella. Como o prazo para a resposta era curto, ela precisou acompanhar o caso de perto e procurar diferentes contatos no conselho.
Quanto custou e quais eram os possíveis resultados?
Na entrevista de 2022, Gabriella estimou ter gastado mais de R$10 mil com traduções e documentação no Brasil, além de taxas em euros. Ela menciona uma taxa de aproximadamente €400 no reconhecimento, outra superior a €200 no registro e cerca de €200 por tentativa no exame de inglês.
Esses valores registram a experiência dela e não devem ser usados como tabela atual. Taxas e critérios podem mudar; quem pretende iniciar o processo deve consultar diretamente a CORU.
A análise podia resultar em aprovação, solicitação de formação complementar ou recusa. Gabriella começou sem conhecer outra brasileira que tivesse concluído o caminho e, segundo os participantes, tornou-se a primeira profissional brasileira de que eles tinham conhecimento a conseguir aquele registro.
Vale a pena estudar no Brasil ou na Irlanda?
A resposta apresentada por Marcelo depende principalmente da situação migratória. Para quem não possui cidadania europeia, uma graduação na Irlanda pode ter um custo elevado. Nesse cenário, estudar no Brasil e posteriormente solicitar o reconhecimento pode fazer sentido.
Para quem possui cidadania europeia e pretende construir a carreira na Irlanda, cursar uma formação irlandesa pode reduzir o custo acadêmico e eliminar a necessidade de reconhecer um diploma estrangeiro.
Mesmo assim, a decisão não deve considerar apenas duração e preço. É necessário definir se o objetivo é atendimento esportivo autônomo, registro como dietista, carreira hospitalar ou permissão de trabalho. Cada caminho exige uma combinação diferente de qualificação, registro e situação migratória.
Como era o mercado de nutrição na Irlanda em 2022?
Na época da gravação, Gabriella recebia diariamente anúncios de vagas para dietistas e relatava pouca concorrência em algumas regiões fora de Dublin. A escassez de profissionais ajudava a explicar a presença da ocupação na lista de Critical Skills.
Marcelo, por outro lado, construiu uma atividade autônoma. Ele afirma que consultas particulares custavam normalmente entre €70 e €100 naquele momento e que um profissional com agenda cheia poderia gerar uma receita relevante.
O cálculo apresentado no programa era de faturamento bruto, sem descontar impostos, despesas do consultório, software, seguros, períodos sem atendimento e outros custos. Além disso, preços e faixas salariais de 2022 não representam necessariamente o mercado atual.
O atendimento começa pela rotina real do cliente
Marcelo e Gabriella defendem uma consulta longa o suficiente para que a pessoa compreenda o plano. A intenção não é apenas entregar uma lista de alimentos, mas ensinar escolhas que possam ser mantidas sem depender do nutricionista para sempre.
As dietas são adaptadas aos produtos encontrados nos supermercados usados pelo cliente. Preferências culturais também entram no planejamento: pão, tapioca, cuscuz, queijo e feijão-tropeiro aparecem na conversa como exemplos de alimentos que podem ser encaixados.
O mesmo acontece com quem recebe refeições no trabalho. Alguns clientes de grandes empresas enviavam fotos do refeitório para que os profissionais montassem estratégias usando o que estava disponível. Gabriella alerta, porém, que o óleo e a preparação de cozinhas coletivas dificultam estimativas exatas.
É preciso cortar pão e alimentos preferidos para emagrecer?
Um dos mitos discutidos é a existência de alimentos automaticamente proibidos. Marcelo diz que inclui pão nos planos e prefere trabalhar com quantidades e substituições possíveis, em vez de criar medo de um alimento isolado.
Gabriella ressalta que produtos considerados saudáveis também possuem calorias. Castanhas, azeite e outros alimentos nutritivos podem atrapalhar determinado objetivo quando consumidos sem atenção à quantidade.
O plano eficiente é aquele que considera as necessidades, preferências e rotina da pessoa. Se a estratégia causa fome, exige alimentos que o cliente detesta ou só pode ser seguida por poucos dias, a chance de abandono aumenta.
Dietas da moda funcionam?
Ao responder sobre dieta da sopa, jejum e outras estratégias populares, os convidados fazem uma distinção importante. Uma dieta pode reduzir o peso quando leva a pessoa a consumir menos energia do que gasta, mas isso não significa que seja equilibrada ou sustentável.
O problema aparece depois: se a pessoa volta exatamente aos hábitos anteriores, o peso tende a retornar. Por isso, Gabriella prefere falar em ciclos de estratégias nutricionais acompanhados de educação alimentar.
O objetivo do acompanhamento é ensinar a pessoa a ajustar porções, identificar alternativas e manter o resultado. Não basta chegar a determinado peso; é preciso construir uma rotina possível para a fase seguinte.
Emagrecimento e ganho de massa são objetivos diferentes
Marcelo explica que reduzir o peso pode acontecer com mudanças na alimentação mesmo sem academia. No entanto, treino de força é fundamental para quem deseja melhorar a composição e o formato corporal, preservar ou desenvolver musculatura.
Ganhar massa muscular é um processo mais lento que perder gordura e depende de treino, dieta, descanso e características individuais. Gabriella acrescenta que a manutenção de músculos ganha importância com a idade, ajudando na autonomia e mobilidade.
As afirmações do episódio são explicações gerais. Metas de peso, exercício, suplementação e tratamento de doenças precisam ser individualizadas por profissionais habilitados.
É possível ter uma alimentação vegetariana e praticar fisiculturismo?
Os convidados dizem que sim. Marcelo cita uma atleta vegetariana, natural e da categoria master que estava sendo preparada para competir. O planejamento exige atenção à ingestão de proteínas, variedade alimentar e suplementação quando necessária.
Dublin também oferecia muitas opções vegetarianas e veganas, facilitando substituições. Ainda assim, a disponibilidade de produtos não elimina a necessidade de organizar a dieta de acordo com o objetivo e a saúde da pessoa.
O que fica da conversa com Marcelo Tollio e Gabriella Cruz
O episódio mostra que “trabalhar com nutrição na Irlanda” pode descrever profissões e responsabilidades diferentes. Marcelo construiu um negócio na nutrição esportiva após estudar no país; Gabriella usou a graduação brasileira para buscar o título protegido de dietista e possibilidades clínicas e hospitalares.
Para brasileiros formados, a principal lição é pesquisar antes de abandonar a profissão. Existe um processo para reconhecimento internacional, mas ele exige documentação, inglês, investimento e não oferece aprovação garantida.
Assista ao Bolder Podcast 126 para conhecer a trajetória completa de Marcelo e Gabriella e entender como cada um encontrou seu espaço no mercado irlandês.
Este artigo é informativo e não substitui orientação individual de saúde, imigração ou reconhecimento profissional. Confirme os requisitos atuais com a CORU e com os órgãos oficiais de emprego e imigração da Irlanda.
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