Trabalhar como ourives na Irlanda abriu para Fábio Oliveira uma carreira que ele não havia planejado quando saiu do Brasil. Formado em Direito e interessado em seguir a vida acadêmica, ele chegou a Cork em 2018 para aprender inglês e conhecer outra cultura. A estadia que deveria durar entre seis meses e um ano acabou se transformando numa mudança de profissão e na criação da própria marca de joias.
Nesta conversa com Bolder, Fábio explica como entrou na ourivesaria durante a pandemia, de que forma combina técnicas tradicionais com modelagem 3D e por que comunidade, prática e conhecimento de negócios são tão importantes quanto criatividade para viver de arte.
De Campina Grande para uma nova vida em Cork
Fábio é de Campina Grande, na Paraíba, e se mudou para a Irlanda com a companheira. Os dois queriam viver uma experiência internacional, conhecer outra cultura e melhorar o inglês. Cork foi escolhida como base, mas o plano original ainda era temporário.
No Brasil, ele havia estudado Direito e cogitava fazer mestrado, possivelmente seguindo uma trajetória acadêmica. A ourivesaria não fazia parte daquele roteiro. O interesse por música, artes e processos criativos existia, porém ainda não havia se convertido numa profissão.
A imigração criou espaço para repensar esse caminho. Fábio reconhece que talvez não tivesse feito uma mudança tão radical se continuasse no ambiente em que já possuía uma formação e expectativas profissionais estabelecidas. Morar fora colocou outras possibilidades diante dele.
Como Fábio começou a trabalhar com joias
Antes de produzir peças, Fábio começou a estudar gemologia. A primeira ideia era aproveitar a relação do Brasil com pedras preciosas e talvez trabalhar com a importação de gemas. Um amigo ligado ao artesanato e à fabricação de instrumentos percebeu a facilidade que ele tinha para imaginar formas e sugeriu que explorasse o design.
O ponto decisivo veio durante a pandemia, quando Fábio fez um curso prático de introdução à joalheria no St John’s College, em Cork. Entrar numa oficina, conhecer as ferramentas e trabalhar diretamente com o metal provocou uma identificação imediata.
Depois, ele buscou formação individual em design de joias com um profissional brasileiro. O objetivo era transformar imagens mentais em projetos que realmente pudessem ser fabricados. Como o desenho à mão não era seu ponto forte, a modelagem digital tornou-se uma ferramenta especialmente importante.
A importância do Benchspace em Cork
Outro passo fundamental foi encontrar o Benchspace, um espaço criativo de Cork voltado a trabalhos manuais e com presença forte da joalheria. Ali, Fábio conseguiu praticar, conviver com profissionais, receber orientação e entender melhor como funciona o setor na Irlanda.
Um espaço como esse oferece mais do que bancada e ferramentas. Ele aproxima o iniciante de associações, exposições, competições e pessoas que já conhecem os caminhos da profissão. Para uma atividade que pode parecer solitária, esse contato reduz o isolamento e acelera o aprendizado.
Fábio também passou a ensinar no Benchspace. Entre as experiências oferecidas estão aulas para casais que desejam produzir as próprias alianças — cada pessoa fabrica a aliança que será usada pelo parceiro. A atividade cria uma lembrança afetiva que vai além da compra de uma joia pronta.
Mo Ghrian: uma marca brasileira com nome irlandês
A marca criada por Fábio chama-se Mo Ghrian, expressão irlandesa associada a “meu sol”. O nome conecta dois pontos da história dele: a origem paraibana, marcada pelo sol, e a descoberta da ourivesaria na Irlanda.
A escolha também ajuda a estabelecer proximidade com o público local. A maior parte dos clientes da marca é irlandesa, e não apenas brasileira. Em feiras e exposições, as pessoas frequentemente identificam algo diferente nas peças e relacionam essa linguagem à experiência de Fábio como brasileiro.
A embalagem também carrega essa mistura. Ele utiliza algodão colorido da Paraíba, que ajuda no controle de umidade e acrescenta uma referência concreta às suas raízes. Sustentabilidade, procedência dos materiais e redução do impacto da embalagem fazem parte das decisões da marca.
Como nasce uma joia artesanal
O processo pode começar longe da bancada. Fábio conta que uma ideia surgiu enquanto estava num festival ouvindo música. Durante horas, ele organizou mentalmente formatos e soluções como se montasse um quebra-cabeça.
Quando o conceito ganha direção, a peça é desenvolvida no Rhino, software de modelagem 3D. A ferramenta permite criar geometrias complexas e testar proporções que seriam difíceis de resolver apenas com desenho ou escultura manual em cera.
O modelo é impresso em resina e usado na preparação do molde para fundição. No processo conhecido como fundição por cera perdida, o metal derretido ocupa o espaço do modelo. Depois dessa base digital e industrial, o trabalho retorna à bancada para receber acabamento, textura, pedras e outras técnicas manuais.
Essa combinação ajuda Fábio a criar joias com aparência ancestral e, ao mesmo tempo, detalhes contemporâneos. A tecnologia não substitui a mão do ourives: ela amplia as formas possíveis, enquanto a bancada dá personalidade e acabamento à peça.
Quando o projeto precisa mudar no meio do caminho
Nem toda ideia funciona exatamente como foi desenhada. Em uma das obras, Fábio planejava aplicar uma técnica coreana de fusão de ouro sobre prata, conhecida como Keum-boo, em mais de uma área. Uma parte não produziu o resultado esperado, e ele precisou recorrer à pátina para escurecer o metal e recuperar o contraste.
Esse tipo de adaptação faz parte da ourivesaria. Textura, cor e acabamento podem mudar durante a produção, desde que o artista não trate o projeto inicial como algo intocável.
Há também riscos maiores. Fábio já quebrou uma pedra valiosa durante o trabalho. O prejuízo não envolve somente a gema: todo o desenho pode ter sido criado para aquelas medidas específicas, tornando difícil encontrar uma substituta idêntica.
A lição foi reconhecer a frustração, interromper o processo e voltar à oficina com calma. Quando realmente é necessário recomeçar, insistir cansado pode multiplicar os erros.
Joias inspiradas em água, céu e espiritualidade
As coleções da Mo Ghrian exploram movimento, natureza, experiências espirituais e imagens celestes. Em “The Kindness Within”, por exemplo, uma forma fluida inspirada na água combina prata e safira amarela.
Metais, pedras e escolhas sustentáveis
Fábio trabalha principalmente com prata e ouro, além de pedras como safiras e granadas. A seleção não acontece apenas pela cor ou pelo valor comercial. Cada material precisa conversar com o conceito, resistir ao processo de fabricação e permitir o acabamento imaginado.
Também existe uma preocupação com a origem dos materiais. Numa cadeia que envolve mineração, transporte e transformação, buscar fornecedores responsáveis é parte do trabalho de uma marca contemporânea. Essa atenção se estende à embalagem, pensada para proteger a joia sem criar um volume desnecessário de resíduos.
O conhecimento de gemologia que despertou o interesse inicial de Fábio continua sendo útil. Entender dureza, corte, dimensões e comportamento da pedra reduz erros e ajuda a projetar a estrutura que vai segurá-la. Uma gema bonita, mas inadequada ao uso diário ou ao tipo de cravação, pode comprometer toda a peça.
Outra peça apresentada durante a conversa é o colar Aurora. A joia trabalha a ideia de corpos celestes com safiras rosadas, granadas verdes e detalhes em ouro. O desenho foi pensado para não possuir um lado “errado”, permitindo que a peça seja observada de diferentes ângulos.
Fábio também mostrou uma criação inspirada em bússola e na estrela Eta Eridani, na qual combinou prata, ouro e Keum-boo. Uma de suas obras chegou à final da competição Future Makers e recebeu destaque, dando visibilidade ao trabalho autoral.
As referências não são copiadas literalmente. Viagens, música, meditação, arte visionária e formas orgânicas entram no repertório e reaparecem transformadas. Em uma coleção em desenvolvimento, Fábio imagina uma festa oferecida por Dionísio na qual divindades de culturas diferentes levam música, comida e símbolos próprios.
Joias personalizadas que contam histórias
Uma encomenda personalizada mostrou como uma lembrança pode ser convertida em objeto. Um cliente queria representar o local onde havia acampado com a namorada. Fábio estudou a fotografia e a topografia da área, reproduzindo o contraste entre a linha da costa e a montanha.
A pedra foi posicionada no ponto correspondente ao local da barraca. Quando recebeu a joia, a namorada reconheceu imediatamente a paisagem. O valor do trabalho estava justamente na relação entre desenho, lugar e memória do casal.
Projetos assim exigem escuta. O ourives precisa entender o que é essencial na história do cliente e decidir quais elementos podem ser representados sem transformar a peça numa ilustração literal.
Existe mercado para ourives na Irlanda?
Fábio não conhecia muitos brasileiros atuando como ourives no país. É uma profissão pouco visível: quando ele conta o que faz, muitas pessoas respondem que nunca haviam conhecido alguém da área.
Isso não significa ausência de mercado. A Irlanda possui tradição na produção de joias, formação especializada, associações, feiras e espaços criativos. Segundo Fábio, as oportunidades em competições, exposições e estúdios estiveram abertas mesmo ele vindo de outra cultura.
Essa origem pode ser uma vantagem criativa. A técnica local oferece precisão, ferramentas e conhecimento acumulado; a experiência brasileira acrescenta outro repertório de cores, soluções e formas. Para Fábio, o Brasil possui enorme riqueza em gemas e muita criatividade, enquanto o acesso a determinadas tecnologias ainda pode ser mais limitado.
O melhor resultado aparece quando inventividade e domínio técnico caminham juntos. Também é possível transitar entre joalheria clássica e peças experimentais, sem tratar uma linguagem como superior à outra.
Como começar uma carreira artística na Irlanda
A primeira recomendação de Fábio é encontrar uma comunidade. Vale conversar com artistas, procurar associações, galerias, cursos, oficinas compartilhadas e perguntar diretamente onde estão as oportunidades. Esperar que a informação chegue sozinha costuma manter o iniciante isolado.
A segunda é aceitar que uma profissão criativa também é um negócio. Quem pretende viver de arte precisa aprender a vender, administrar, precificar, atender clientes e divulgar o trabalho. Essa parte não precisa ser vista como inimiga da criação: ela permite que a atividade continue existindo.
A terceira orientação é seguir a paixão e experimentar. Isso não elimina a necessidade de estudo. A ourivesaria exige muitas horas de prática para entender como cada metal se comporta, dominar ferramentas e aprender a corrigir problemas.
A formação em Direito não foi desperdiçada. Ela ajudou Fábio a interpretar o mundo, organizar ideias e lidar com a estrutura empresarial da marca. Uma mudança de carreira não apaga a trajetória anterior; frequentemente, reorganiza habilidades que já existiam.
Vale a pena trabalhar com ourivesaria na Irlanda?
A história de Fábio mostra que a ourivesaria na Irlanda pode oferecer espaço para um brasileiro, mas não é um atalho. É preciso desenvolver técnica, entrar numa rede profissional, suportar erros de produção e cuidar da parte comercial.
Em troca, a profissão permite transformar referências pessoais em objetos duradouros. Na Mo Ghrian, o sol da Paraíba, a língua irlandesa, técnicas asiáticas, tecnologia 3D e histórias de clientes aparecem dentro de um mesmo trabalho.
Assista ao episódio completo para conhecer as peças apresentadas por Fábio Oliveira e ouvir os detalhes de sua mudança do Direito para a joalheria artesanal em Cork.
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