Lagoinha Dublin: a história do pastor Fábio Vilela na Irlanda

A história da Lagoinha Dublin passa pela trajetória de Fábio Vilela entre Niterói, Belo Horizonte, Inglaterra e Irlanda. No Bolder Podcast, o pastor explica como começou na igreja ainda adolescente, por que abandonou faculdade e trabalho para estudar teologia e como as dificuldades vividas como imigrante influenciaram o projeto que lidera em Dublin.

A conversa também mostra por que a igreja realiza cultos em uma sala de cinema, como pretende acolher brasileiros recém-chegados e de que maneira começou a se expandir para outras cidades irlandesas.

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De uma família católica ao chamado pastoral

Fábio nasceu em uma família católica de origem portuguesa e italiana. Entre os 14 e 15 anos, começou a frequentar encontros carismáticos perto de casa. Pouco depois, acompanhou a mãe a uma igreja metodista em Niterói e encontrou uma comunidade de adolescentes que o acolheu.

Por volta dos 20 anos, durante um retiro, decidiu que queria servir de maneira mais direta. Começou ensinando crianças, depois liderou adolescentes e jovens. Embora imaginasse fazer seminário somente depois dos 35, mudou os planos, interrompeu faculdade e trabalho e foi para Belo Horizonte.

No Seminário Carisma, ligado à Lagoinha, encontrou uma formação mais prática do que a que buscava em outras instituições. Foi consagrado pastor aos 24 anos, mas permaneceu na Igreja Metodista, atuando em Belo Horizonte e trabalhando com plantação de igrejas.

A experiência missionária que levou Fábio à Europa

Em 2018, Fábio visitou famílias que tentavam iniciar comunidades religiosas em Portugal, Japão e Estados Unidos. A viagem durou 21 dias, com uma semana em cada país. Ele voltou frustrado por não conseguir resolver os obstáculos enfrentados por pessoas ainda em adaptação.

Foi nesse momento que percebeu uma limitação: orientava imigrantes sem ter vivido a imigração. Seis meses depois, vendeu o que tinha no Brasil e embarcou com a esposa e a filha para Manchester. O plano inicial era passar um ano estudando missiologia.

Quatro anos e meio na Inglaterra

Uma oportunidade da Igreja Metodista Britânica levou Fábio a Newcastle, no nordeste da Inglaterra. O projeto buscava trazer missionários latino-americanos para ajudar comunidades britânicas que perdiam membros. Ele foi o primeiro participante.

A experiência durou dois anos e terminou antes do previsto. Fábio relata dificuldades com supervisores e com uma estrutura que, em sua avaliação, resistia a novas formas de trabalho. Depois de 22 anos ligado à Igreja Metodista, pediu desligamento em 2022.

Apesar do desgaste, ele considera a Inglaterra fundamental. Aprendeu inglês, desenvolveu resiliência e viveu o mesmo choque de adaptação que outros imigrantes enfrentam. Hoje, essa experiência o ajuda a resolver a burocracia da igreja e a compreender brasileiros que chegam à Irlanda sem rede de apoio.

Bolder conversa com o pastor Fábio Vilela no estúdio do Bolder Podcast
Fábio Vilela conta como saiu do Brasil, viveu na Inglaterra e iniciou a Lagoinha Dublin.

O convite para iniciar a Lagoinha Dublin

O convite da Lagoinha surgiu durante a saída do projeto britânico. Fábio já conhecia a Irlanda porque a irmã morava em Dublin desde 2016, mas a primeira visita, em 2017, não tinha deixado uma impressão positiva. Mesmo assim, aceitou iniciar o trabalho em outubro de 2022.

A mudança não aconteceu imediatamente. Fábio passou cerca de dez meses morando na Inglaterra e viajando semanalmente para Dublin enquanto procurava uma casa para a família. Ele usa esse período para mostrar que nem mesmo quem chega com uma função definida escapa da crise de acomodação e dos desafios práticos da imigração.

Por que a igreja funciona dentro de um cinema?

A Lagoinha Dublin passou a realizar cultos em uma sala do Cineworld, no Parnell Centre. Fábio explica que o cinema oferece auditório, acústica, cadeiras, tela e equipamentos sem exigir a adaptação completa de um imóvel. Pela manhã, quando há menos sessões, o aluguel também pode ser mais acessível.

O formato não é exclusivo da Lagoinha. Segundo ele, ao menos outras quatro igrejas em Dublin usavam cinemas naquele momento. A solução permite começar rapidamente, embora imponha limitações: horários fixos, necessidade de montar e retirar equipamentos e ausência de um espaço disponível durante a semana.

Acolhimento de brasileiros recém-chegados

Um dos projetos apresentados no episódio é o sistema de “buddies”. Voluntários acompanhariam novos membros durante um período determinado, orientando sobre documentos, transporte, rotina e adaptação. A ideia não é resolver tudo pelo recém-chegado, mas ensinar como lidar com os processos.

Fábio deixa claro que o projeto começaria como piloto para membros da igreja. Depois de testar a estrutura e formar voluntários suficientes, poderia ser aberto à comunidade brasileira. A iniciativa parte de um problema que ele viveu na Inglaterra: chegar sem contatos e sem pessoas que explicassem o funcionamento básico do país.

Expansão para Galway, Waterford e outras cidades

Além de Dublin, Fábio cita uma comunidade em Galway com reuniões semanais e grupos menores em Waterford e Navan. A expansão não segue apenas um plano de abertura de unidades: normalmente começa quando moradores locais se conectam, formam um grupo e demonstram que existe uma comunidade capaz de sustentar o projeto.

Uma igreja contemporânea, mas não liberal

Questionado por Bolder sobre a imagem mais jovem da Lagoinha, Fábio prefere a palavra “contemporânea”. Para ele, a linguagem, a música, a mídia e o formato do culto dialogam com a geração atual, mas as crenças permanecem conservadoras e baseadas na interpretação bíblica da denominação.

Essa distinção ajuda a compreender a proposta apresentada no episódio: modernizar a forma de comunicação sem alterar a essência teológica. Fábio afirma que pessoas de diferentes origens são recebidas, embora a igreja ensine claramente aquilo em que acredita.

A entrevista com Fábio Vilela é, sobretudo, uma história de mudança de rota. O plano de estudar por um ano na Inglaterra virou uma experiência de quatro anos e meio; a saída difícil de uma instituição abriu caminho para Dublin; e uma sala de cinema tornou-se o ponto de encontro de uma comunidade brasileira. Assista ao episódio para acompanhar a trajetória completa e as reflexões sobre fé, imigração e pertencimento.