Trabalhar como professor de inglês na Irlanda foi um projeto planejado durante dois anos por Cleber Sardinha. No Bolder Podcast, o brasiliense explica por que deixou uma carreira de 19 anos em um banco público, obteve uma certificação internacional e chegou a Dublin já preparado para procurar espaço nas escolas de idiomas.
A entrevista também é uma aula sobre aprendizado: Cleber questiona promessas de fluência rápida, explica a responsabilidade do estudante e discute o preconceito contra professores não nativos. Na parte final, fala sobre viagens solo e como conhecer outros países ampliou sua relação com línguas e culturas.
Da carreira bancária às aulas de inglês
Em Brasília, Cleber dividia o tempo entre o banco e a educação. Foram 19 anos como empregado de uma instituição pública, paralelamente ao trabalho em escolas de idiomas. Nos sete anos anteriores à mudança, permaneceu em uma escola específica, mas também acumulou experiência no ensino superior e em outras disciplinas.
O interesse pelo inglês surgiu ainda na adolescência. Como gostava de leitura e de português, começou uma graduação em Letras e, por sugestão de um professor, passou para Português–Inglês. Formou-se pela Universidade Católica de Brasília e percebeu que queria construir a carreira em sala de aula.
Cleber também fez mestrado em Educação no Brasil. Mais tarde, já na Irlanda, concluiu outro mestrado, desta vez na área de Recursos Humanos. Essa combinação aparece na forma como analisa tanto a metodologia de ensino quanto o comportamento de alunos e profissionais.
Como se preparar para dar aulas de inglês na Irlanda
Antes dos 40 anos, Cleber estabeleceu uma meta: morar em um país de língua inglesa. Para ele, a experiência cultural e o contato cotidiano com o idioma complementariam a formação de professor. Um amigo de Brasília que já ensinava em Dublin mostrou que esse caminho era possível.
Ao perguntar o que precisava fazer, recebeu a indicação do CELTA, certificação de ensino de inglês ligada à Universidade de Cambridge. Cleber pesquisou o processo e encontrou justamente a primeira turma oferecida em Brasília. Fez o curso em janeiro de 2018 e chegou à Irlanda em novembro daquele ano.
A preparação produziu resultado rápido: em janeiro, cerca de dois meses após a chegada, já começou a trabalhar como professor. Ele veio formalmente como estudante e se matriculou em uma turma de proficiency, nível posterior ao avançado. Mesmo com anos de experiência, considera importante continuar aprendendo.
É possível aprender inglês em seis meses?
Cleber desconfia das promessas de “falar inglês em seis meses” ou “aprender em um ano”. Para ele, o estudo de uma língua não tem um ponto final comparável a um curso técnico fechado. Vocabulário, pronúncia, repertório cultural e capacidade de comunicação continuam se desenvolvendo ao longo da vida.
Isso não significa que o estudante precise esperar anos para se comunicar. A crítica é à ideia de que avançar de nível ou receber um certificado comprova automaticamente domínio do idioma. Cleber relata o caso de um aluno que voltou ao Brasil com certificado de upper intermediate, mas teve dificuldade em uma entrevista profissional realizada em inglês.
A experiência na Irlanda, por si só, também não garante fluência. Alguns intercambistas se concentram no trabalho, nas compras e nas viagens e deixam a escola em segundo plano. Quando voltam ao Brasil, percebem que aproveitaram o país, mas não desenvolveram a competência linguística esperada.
Escola ou convivência: onde se aprende inglês?
Na visão de Cleber, educação formal e aprendizado informal não competem. Conversar no trabalho, assistir a filmes, ouvir música e observar expressões usadas por nativos ajudam a desenvolver naturalidade. A escola, porém, oferece método, sequência, correção e explicações que dificilmente aparecem numa conversa casual.
Ele compara o idioma à natação. Uma pessoa pode aprender sendo colocada diretamente na piscina, enquanto outra recebe instruções progressivas sobre respiração, braços e pernas. As duas talvez consigam nadar, mas a técnica e a segurança podem ser diferentes.
Como aproveitar melhor o intercâmbio de inglês?
- Defina para que precisa do idioma: carreira, faculdade, viagens ou integração no país.
- Participe ativamente das aulas e peça correções ao professor.
- Não confunda mudança de nível com domínio real do conteúdo.
- Use filmes, música e o ambiente de trabalho como complemento ao estudo estruturado.
- Reserve tempo específico para inglês, mesmo quando o trabalho estiver ocupando a rotina.
- Pense no que levará profissionalmente da Irlanda ao fim do intercâmbio.
Professor brasileiro pode ensinar inglês na Irlanda?
Cleber enfrentou resistência tanto de professores quanto de estudantes. Em uma aula como substituto, um brasileiro afirmou que não havia saído do Brasil para estudar com outro brasileiro. A turma, composta também por alunos da Mongólia, Turquia e China, avaliou positivamente a aula, e o episódio expôs um preconceito comum contra docentes não nativos.
Para Cleber, nacionalidade não substitui formação pedagógica. Um nativo conhece a língua, mas isso não significa automaticamente que saiba ensiná-la. Da mesma forma, um professor estrangeiro precisa comprovar conhecimento, método e qualificação. O critério deve ser a competência profissional, não apenas o passaporte.
Inglês com sotaque irlandês e linguagem da vida real
Morar em Dublin também mostrou a Cleber a distância entre alguns exemplos dos livros e as expressões realmente usadas. Ele cita o clássico “I’m fine, thanks”, pouco ouvido em seu cotidiano, e o irlandês “not too bad”, que pode significar que está tudo bem, apesar de soar negativo para quem interpreta literalmente.
Esse tipo de contato é uma das vantagens de estudar no exterior: além da gramática, o aluno começa a entender entonação, humor, contexto e escolhas culturais. Mas a exposição só se transforma em aprendizado quando existe atenção e curiosidade.
Viajar sozinho como parte do aprendizado
Antes de morar na Irlanda, Cleber já conhecia aproximadamente 16 ou 17 países. Seu primeiro mochilão aconteceu em 2007: foram 40 dias e dez países europeus. Grande parte das viagens foi feita sozinho, uma experiência que ele considera diferente de estar solitário.
Ao viajar sem um grupo fechado, ficou mais aberto a conhecer pessoas em hostels e a usar o inglês como ferramenta real. Em Roma, por exemplo, conheceu um canadense e uma argentina; depois seguiu parte do roteiro com novos companheiros. Em Praga, encontrou uma estudante tcheca de português que havia morado em Maceió e falava vários idiomas.
A possibilidade de viajar pela Europa pesou na escolha da Irlanda, ao lado da autorização de trabalho para estudantes existente naquele período e da experiência do amigo que já lecionava em Dublin.
Planejamento e propósito fazem diferença
A trajetória de Cleber mostra que a mudança de país começou muito antes do embarque. Ele pesquisou o mercado, obteve a certificação necessária e chegou sabendo qual experiência queria construir. O mesmo princípio aparece em sua orientação aos estudantes: aprender inglês exige participação, continuidade e uma razão concreta para estudar.
Assista ao episódio completo para acompanhar os exemplos de sala de aula, as reflexões sobre professores nativos e as histórias de viagem de Cleber Sardinha.
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