Trabalhar com TI na Irlanda não foi uma transição imediata para Neemias Santos. Embora já tivesse cerca de sete anos de experiência como desenvolvedor no Brasil, ele chegou a Dublin sem conseguir sustentar uma entrevista em inglês, trabalhou em restaurante e participou de mais de 30 processos seletivos antes de voltar à programação.
No Bolder Podcast, Neemias reconstrói essa trajetória sem tratar a área de tecnologia como promessa de emprego fácil. Ele fala sobre inglês, networking, salários, vistos, testes técnicos, layoffs e a necessidade de transformar cada entrevista malsucedida em treinamento para a próxima.
Como Neemias entrou na programação
O contato com computadores começou ainda na infância. O pai percebeu que o filho sempre mexia na máquina da família e o colocou em um curso de manutenção. Mais tarde, em Brasília, Neemias chegou a tentar o caminho dos concursos públicos, mas não se identificava com aquela rotina de estudos.
A mudança aconteceu quando ele passou em frente a uma escola de design e viu uma sala cheia de pessoas trabalhando com computadores. Cancelou o preparatório para concursos e se matriculou no novo curso. O primeiro emprego foi como web designer — e também foi a experiência que mostrou que sua habilidade não estava no design, mas no código.
Depois de uma demissão, um colega indicou Neemias para uma vaga de programador. Ele dominava HTML, mas ainda não sabia desenvolver o que a empresa precisava. Foi contratado numa quinta-feira, pegou livros de programação na faculdade e passou o fim de semana estudando para conseguir começar na segunda. A formação prática continuou no próprio trabalho, resolvendo problemas e recebendo revisões de outros desenvolvedores.
Por que ele decidiu fazer intercâmbio na Irlanda?
Uma entrevista para uma multinacional expôs o principal obstáculo profissional de Neemias: o inglês. Quando a recrutadora perguntou sobre seus desafios, ele não entendeu a palavra “challenge” e perdeu a oportunidade. A frustração levou o casal a pesquisar um intercâmbio.
Austrália, Estados Unidos e Canadá não cabiam no orçamento. A Irlanda apareceu como uma opção financeiramente possível e com permissão de estudo. Neemias e a esposa passaram aproximadamente dois anos economizando e planejando a mudança. Eles chegaram em maio de 2017, depois da primeira viagem internacional do casal, com escalas em países africanos.
De desenvolvedor no Brasil a lavador de pratos em Dublin
A experiência profissional brasileira não evitou o recomeço. Sem inglês funcional, Neemias aceitou trabalho na cozinha de um restaurante. Ele relata a pressão do ambiente, as dificuldades de comunicação e o contraste entre a carreira de desenvolvedor que havia deixado e a rotina física que encontrou na Irlanda.
Durante cerca de oito meses, também fez limpeza de acomodações e trabalhou recolhendo lixo depois de festivais. Ao mesmo tempo, continuou enviando currículos e atendendo ligações de recrutadores entre os turnos do restaurante e as aulas de inglês.
A primeira entrevista aconteceu com três semanas de Irlanda
Neemias traduziu o currículo e cartas de recomendação com uma ferramenta automática. Na entrevista, conseguia dizer apenas frases muito básicas sobre saber programar. O retorno da empresa foi direto: tecnicamente seu histórico parecia adequado, mas a comunicação ainda não permitia a contratação.
Em vez de parar de aplicar, ele decidiu usar os processos seletivos como parte do curso de inglês. Foram mais de 30 entrevistas. No início, não passava da conversa com o recrutador. Depois começou a avançar para testes técnicos, mas ainda era eliminado quando precisava explicar decisões a gerentes e líderes de equipe.
Como se preparar para entrevistas de TI em inglês
Neemias anotou as perguntas que se repetiam, escreveu respostas e pediu aos professores que corrigissem o texto. Depois, treinava em voz alta até conseguir contar sua trajetória, descrever projetos e falar sobre tecnologias com menos dependência da improvisação.
- Registre as perguntas recebidas em cada entrevista.
- Prepare exemplos concretos de problemas que você resolveu.
- Treine a explicação de conceitos técnicos em linguagem simples.
- Peça correção a alguém com bom domínio do inglês.
- Revise o que não conseguiu explicar antes da próxima seleção.
A técnica não servia para esconder limitações, mas para criar vocabulário e confiança. Neemias observa que a comunicação diferencia um profissional júnior de alguém capaz de liderar: não basta escrever código; é preciso traduzir um problema complexo para clientes, gestores e colegas de outras áreas.
Networking abriu a primeira porta na Irlanda
Pouco depois de chegar, Neemias participou de uma palestra com um desenvolvedor brasileiro e manteve o contato. Meses mais tarde, esse profissional publicou que procurava alguém para substituí-lo. Neemias enviou o currículo e voltou justamente a uma empresa na qual já havia sido reprovado.
Na primeira tentativa, não conseguira explicar em inglês uma diferença básica de programação. Trinta dias depois, mais preparado, participou de uma entrevista parcialmente em português e parcialmente em inglês. Recebeu a proposta no dia do aniversário.
Para ele, a indicação não foi apenas sorte. A oportunidade só existiu porque havia participado do evento, mantido contato, continuado estudando e acumulado tentativas. Encontros de profissionais brasileiros, conversas com quem já trabalha nas empresas e indicações internas podem aproximar o candidato do processo — sem substituir experiência ou desempenho técnico.
Salário e progressão na carreira de software
No primeiro emprego irlandês, Neemias recebeu €30 mil por ano, valor que ele identifica como o mínimo aplicável ao seu permit naquele período. Era um salto em relação ao restaurante, mas baixo para alguém que já trazia cerca de sete anos de experiência. A limitação no inglês também prejudicava sua capacidade de negociar.
Ele permaneceu aproximadamente quatro anos e meio na empresa, ganhou responsabilidades e aumentos, chegou a liderar iniciativas e trabalhou próximo da direção. Depois percebeu que a diferença em relação aos salários do mercado não seria corrigida apenas com reajustes internos e voltou a estudar para entrevistas.
Os €30 mil mencionados no vídeo são parte da história de 2017 e não representam a regra atual. Desde março de 2026, a faixa geral do Critical Skills Employment Permit para ocupações estratégicas com diploma relevante começa em €40.904 anuais; recém-formados elegíveis têm uma faixa própria. Os requisitos devem ser verificados na página oficial do Critical Skills Employment Permit.
Programadores ainda podem conseguir Critical Skills?
Sim, dependendo da vaga, salário, formação e experiência. A lista oficial vigente inclui programadores e profissionais de desenvolvimento de software, desenvolvimento web, análise de negócios de TI, arquitetura de sistemas, gestão de projetos e outras funções de tecnologia.
Estar na lista não garante o permit. É necessário ter uma oferta elegível de empregador irlandês, atender à remuneração aplicável e demonstrar as qualificações exigidas para o cargo. A referência correta é a Critical Skills Occupations List, que pode ser alterada pelo governo.
O mercado de TI ficou mais difícil depois dos layoffs?
Neemias descreve um mercado diferente daquele que encontrou no início. Durante a expansão ligada à pandemia, empresas contrataram muitos profissionais. Os layoffs posteriores devolveram ao mercado desenvolvedores experientes, aumentando a concorrência, principalmente para juniores e recém-formados.
Isso não significa ausência de vagas. Significa que experiência, inglês, portfólio e capacidade de explicar resultados ganharam peso. Neemias recomenda tratar a busca como um projeto: acompanhar candidaturas em uma planilha, adaptar o currículo, pesquisar a empresa, falar com profissionais da equipe e manter uma rotina de aplicações.
Júnior, pleno ou sênior?
As vagas irlandesas costumam usar junior, mid-level e senior. O título não depende apenas do número de anos. Profissionais mais avançados precisam tomar decisões, revisar código, lidar com ambiguidades e explicar impactos para pessoas não técnicas. Neemias também lembra que tecnologia oferece rotas fora da programação pura, como product management, project management, infraestrutura e segurança.
Inglês, experiência e permissão de trabalho
Na visão de Neemias, três elementos aumentam as chances: experiência relevante, inglês e direito de trabalho. Ter dois deles já pode abrir conversas; reunir os três reduz obstáculos. Para quem precisa de permit, a capacidade de mostrar valor para a empresa é ainda mais importante.
O episódio também mostra por que não se deve ocultar a situação migratória. As condições de trabalho dependem do Stamp e do permit de cada pessoa. O candidato deve responder com precisão sobre sua autorização e não começar uma jornada incompatível com a permissão vigente.
Vale a pena trabalhar com TI na Irlanda?
Para Neemias, valeu. Sete anos depois da chegada, ele havia consolidado a carreira, formado família e comprado uma casa. Isso não apaga os meses em trabalhos operacionais, as dezenas de recusas nem o salário inicial abaixo de sua experiência.
A principal lição não é simplesmente “arriscar”. É preparar-se para a oportunidade: estudar inglês antes da mudança, criar reserva financeira, conhecer as regras do permit, treinar entrevistas e participar da comunidade profissional. O mercado pode mudar, mas essa preparação continua útil na Irlanda ou em qualquer outro país.
Assista ao episódio completo para conhecer os detalhes da trajetória de Neemias e as perguntas respondidas por ele sobre desenvolvimento web, trabalho remoto, cyber security e carreira em startups.
Continue acompanhando o Bolder
Histórias reais de brasileiros pelo mundo: imigração, intercâmbio, carreira e vida fora do Brasil.
💥 Recursos para você
Alguns links são de parceiros e podem apoiar o Bolder sem custo adicional para você.
🤝 Parceiros
Conheça as empresas que apoiam o Bolder Podcast.
📱 Mais Bolder
#irlanda #intercambio #imigracao
