A carreira de Alexsandro Souza em tecnologia começou longe da programação. Criado na periferia e sem profissionais de TI como referência, ele teve o primeiro emprego como office boy, entrou em Administração e só encontrou seu caminho depois de programar macros em um curso de Excel.
No Bolder Podcast, Alexsandro explica como chegou à Irlanda para aprender inglês, conseguiu a primeira vaga local em poucos meses e transformou artigos, projetos de código aberto e cursos em uma marca profissional. Essa trajetória também resultou no livro Tech Leadership Playbook, publicado pela Apress.
De office boy ao primeiro contato com tecnologia
Alexsandro começou a trabalhar aos 16 anos como office boy em uma multinacional. Ele gostava de computadores, mas não conhecia ninguém que atuasse na área e não sabia exatamente como transformar esse interesse em profissão.
O departamento de tecnologia da empresa serviu como primeira referência concreta. Alexsandro observava a equipe, os equipamentos e as oportunidades de viagem e começou a imaginar uma carreira naquele ambiente.
Como já havia passado para uma função administrativa, entrou na faculdade de Administração aos 17 anos. A escolha refletia o caminho das pessoas ao seu redor, mas o conteúdo não combinava com aquilo que ele queria fazer.
Uma macro no Excel mudou a carreira
A virada aconteceu em um curso de Excel avançado. No último módulo, Alexsandro aprendeu a criar macros em VBA para automatizar tarefas repetitivas.
Foi seu primeiro contato real com programação. A possibilidade de escrever instruções e fazer o computador executar um processo despertou um interesse que a Administração não havia provocado.
Em 2011, ele começou profissionalmente na área de tecnologia. Entrou como desenvolvedor júnior em uma agência de publicidade e, ao longo de aproximadamente cinco anos, avançou até a posição de tech lead.
Por que Alexsandro veio para a Irlanda?
Alexsandro já tinha experiência técnica quando decidiu fazer o intercâmbio. O problema era o inglês: ele percebia que o idioma limitava o acesso a empresas multinacionais, salários melhores e projetos internacionais.
A Irlanda foi escolhida porque permitiria estudar e trabalhar. Ele não chegou com um plano fechado de permanecer no país nem conhecia em detalhes o tamanho do mercado de tecnologia em Dublin.
Seu inglês era básico. Alexsandro havia estudado no Brasil, mas acredita que poderia ter aproveitado melhor o tempo e o dinheiro do intercâmbio se tivesse chegado com uma base maior. A recomendação é preparar o ouvido e aprender o essencial antes da viagem.
O primeiro emprego de TI na Irlanda
Em aproximadamente três meses, Alexsandro conseguiu um trabalho de tecnologia em uma pequena empresa administrada por chineses. A vaga era de meio período, pagava próximo do mínimo e não oferecia patrocínio de visto, mas permitiu que ele começasse a acumular experiência local.
As condições estavam longe do ideal. Ele descreve um ambiente industrial muito frio e dificuldades de comunicação com parte da equipe. Ainda assim, permaneceu alguns meses enquanto buscava uma oportunidade melhor.
Depois, foi contratado por uma empresa de tecnologia voltada a uma plataforma de troca entre usuários. Foi sua primeira experiência em uma companhia cujo produto principal era realmente tecnologia, diferente da agência de publicidade brasileira que possuía apenas um departamento de desenvolvimento.
Experiência, inglês e visto no mercado irlandês
Na época da entrevista, Alexsandro via vagas no mercado irlandês, mas também uma competição maior depois das demissões em grandes empresas. Segundo ele, muitas companhias priorizavam profissionais seniores, embora organizações maiores também mantivessem programas para recém-formados.
Ter experiência e falar inglês facilita a contratação, mas a ausência de uma permissão pronta não encerra automaticamente uma candidatura. Alexsandro aconselha explicar ao recrutador por que o patrocínio pode valer a pena: um candidato disposto a mudar de país costuma chegar motivado e interessado em construir uma relação mais longa com a empresa.
Isso não transforma a falta de visto em vantagem garantida. É uma forma de apresentar uma dificuldade com uma narrativa profissional, demonstrando o valor que a pessoa pode entregar em troca do investimento feito pela companhia.
Empresas pequenas ou grandes: onde começar?
Alexsandro já trabalhou como tech lead, engineering manager e principal engineer e, na época do episódio, ocupava o cargo de senior platform engineer. Essa experiência permitiu comparar organizações de tamanhos diferentes.
Empresas pequenas costumam oferecer contato com várias etapas do produto. Um desenvolvedor pode trabalhar com frontend, backend, infraestrutura, segurança e implantação. O aprendizado é amplo, mas a cobrança por entrega também pode ser maior.
Nas grandes empresas, as funções tendem a ser mais especializadas e os salários podem ser melhores. Para quem está começando, Alexsandro considera valiosa a oportunidade de atuar em uma companhia menor, construir uma base variada e depois decidir se quer migrar para uma estrutura maior.
Algoritmos são importantes nas entrevistas?
O peso de algoritmos e estruturas de dados depende da empresa. Companhias como Google, Meta e Amazon costumam incluir esse conhecimento nas entrevistas, mesmo quando ele não aparece diariamente no trabalho.
Outras organizações valorizam mais a experiência prática, a arquitetura, a capacidade de resolver problemas e o domínio das tecnologias usadas pela equipe. Por isso, a preparação precisa considerar o perfil da vaga em vez de seguir uma única lista genérica.
Personal branding ajudou Alexsandro na prática
Alexsandro começou a escrever artigos ainda no Brasil e participava de comunidades de PHP. Na avaliação dele, essa presença já ajudou a demonstrar conhecimento e capacidade de colaborar quando buscou os primeiros empregos na Irlanda.
Com o tempo, passou a publicar no LinkedIn, manter projetos open source, gravar vídeos, dar palestras e criar cursos. Uma gerente da Mastercard chegou a pedir que um recrutador entrasse em contato depois de ler um artigo escrito por ele sobre APIs.
Em outro processo, Alexsandro se candidatou a uma função técnica de principal engineer e recebeu uma oferta para engineering manager. Ele acredita que os anos escrevendo sobre gestão de pessoas e projetos ajudaram a empresa a enxergar habilidades além das respostas dadas nas entrevistas.
Como conseguir experiência sem o primeiro emprego?
Para quem está tentando entrar em tecnologia, Alexsandro recomenda criar projetos e participar de software de código aberto. O GitHub permite mostrar o que foi desenvolvido e oferece uma evidência mais concreta do que apenas afirmar que concluiu um curso.
A contribuição não precisa começar no código principal. Documentação, testes, correção de erros e pequenos recursos também fazem parte de um projeto real.
Outra possibilidade é construir um site para uma associação, igreja, pequeno comércio ou projeto comunitário. Segundo Alexsandro, programação se aprende colocando a mão na massa. A empresa pode ensinar processos internos, mas espera que o candidato já domine os fundamentos.
Quase 20 mil alunos em cursos online
Na época da entrevista, Alexsandro tinha quase 20 mil estudantes inscritos em seus cursos na Udemy, muitos deles gratuitos. Os temas incluíam inteligência artificial, machine learning, DevOps e Java.
Ele também usava essa experiência em apresentações profissionais. Ensinar milhares de pessoas reforçava o conhecimento técnico e mostrava habilidade para organizar e comunicar assuntos complexos.
O que é o livro Tech Leadership Playbook?
Tech Leadership Playbook: Building and Sustaining High-Impact Technology Teams reúne mais de dez anos de artigos e experiência profissional. O livro aborda formação de equipes, gestão ágil, qualidade de código, arquitetura, garantia de qualidade, ciclo de desenvolvimento, observabilidade e alinhamento entre tecnologia e negócio.
O público inclui engenheiros seniores, tech leads, engineering managers, CTOs e fundadores que precisam organizar equipes e projetos de software.
Alexsandro publicou a obra pela Apress, editora do grupo Springer Nature. Ele enviou propostas para duas editoras: a primeira recusou porque já possuía um título semelhante; a segunda aceitou e ofereceu edição, revisão, diagramação e distribuição.
Editora ou publicação independente?
No episódio, Alexsandro compara a editora com a publicação independente pela Amazon. No modelo independente, o autor controla o conteúdo e pode começar sem imprimir um estoque, pois os exemplares são produzidos sob demanda. Em contrapartida, precisa cuidar de revisão, capa, diagramação e divulgação.
A editora oferece validação profissional e distribuição, mas fica com os direitos previstos no contrato e paga ao autor uma porcentagem das vendas. Alexsandro deixa claro que escolheu esse caminho principalmente pelo valor para sua reputação profissional, não pela expectativa de enriquecer com royalties.
Uma carreira construída pela demonstração de conhecimento
A trajetória de Alexsandro Souza mostra que a carreira em tecnologia não foi resultado de um único curso ou emprego. Ela foi construída com curiosidade, experiência prática, inglês, participação em comunidades e produção constante de conteúdo.
No episódio completo, Bolder e Alexsandro detalham o mercado de tecnologia na Irlanda, entrevistas, vistos, projetos open source, cursos e publicação de livros. Mais informações sobre a obra também estão disponíveis na página oficial da Springer Nature.
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