A história do Roceiro Viajante na Europa passa por futebol em Portugal, trabalhos em restaurantes e fábricas, uma casa comprada na Dinamarca e expedições de aurora boreal no norte da Noruega. No Bolder Podcast 419, Ítalo Garcia fala também sobre as polêmicas que ampliaram sua presença nas redes, as críticas aos seus passeios e o momento em que decidiu procurar terapia.
É um episódio longo e marcado pelo jeito direto do convidado. Alguns trechos apresentam interpretações pessoais, crenças religiosas e relatos de conflitos segundo a perspectiva de Ítalo. O texto abaixo organiza os fatos narrados sem tratar acusações ou opiniões como conclusões independentes.
Quem é Ítalo Garcia, o Roceiro Viajante?
Ítalo cresceu em Goiás e diz ter trabalhado desde cedo na roça, em feiras e na venda de alimentos. O apelido Roceiro Viajante surgiu em 2014 para representar justamente essa combinação: alguém vindo do interior que queria conhecer o mundo.
Na data da entrevista, ele tinha ultrapassado 100 mil seguidores no Instagram. Uma parte do crescimento veio de vídeos de discussões, denúncias e situações inesperadas em aeroportos e cidades europeias. Ítalo prefere chamar esse conteúdo de “resenha”, embora reconheça que seu jeito é polêmico e frequentemente o coloca em conflitos.
A primeira mudança para Portugal
Ítalo deixou o Brasil aos 18 anos para tentar carreira no futebol em Portugal. Passou num teste e começou a jogar no campeonato português de juniores, mas uma lesão séria no tornozelo encerrou a oportunidade.
Sem renda suficiente no esporte, trabalhou como servente de pedreiro e em outras atividades. Depois tentou novamente o futebol na Alemanha, mas relata que o projeto era conduzido por um intermediário que cobrava dinheiro dos jogadores e dos clubes, impedindo os contratos.
Voltou ao Brasil em 2009 e retornou a Portugal em 2011. Passou cerca de quatro meses procurando emprego até conseguir uma vaga lavando pratos num restaurante. Também viveu por um período na Turquia e conta ter trabalhado sem regularização — algo que ele próprio diz não recomendar, pelo risco de deportação e exploração.
Como surgiu o trabalho com aurora boreal?
Anos depois, já na Dinamarca, Ítalo trabalhava como chefe da churrasqueira de um restaurante de comida brasileira. O movimento era forte no verão, mas caía durante o inverno. Para completar a renda, foi trabalhar numa fábrica de processamento de peixe no norte do país.
Durante uma pausa, viu no Instagram uma expedição para nadar com orcas no norte da Noruega. O pacote completo custava cerca de € 8 mil, então procurou uma alternativa de apenas um dia. Comprou passagem para Tromsø e planejou três noites na região.
Ítalo já tinha visto aurora boreal na Islândia em 2019. Na nova viagem, enfrentou céu nublado e uma nevasca, mas dirigiu até uma região próxima às fronteiras de Noruega, Suécia e Finlândia, onde encontrou o céu aberto. Ao ver a aurora, começou a desenhar a rota e calcular como transformaria a experiência em um passeio acessível para brasileiros.
Como são as expedições do Roceiro Viajante?
Na entrevista, Ítalo descreve um roteiro de cinco noites durante a temporada, normalmente de setembro a março. Não existe itinerário fixo: ele acompanha nuvens e atividade geomagnética e pode atravessar fronteiras para procurar céu aberto.
Isso significa longas horas de carro. Um dos grupos terminou a viagem perto da fronteira com a Rússia depois de cerca de 12 horas na estrada. Ele afirma não limitar a quilometragem quando acredita que existe uma chance melhor de encontrar condições adequadas.
A aurora aparece sempre?
Não há como prometer intensidade, cor ou visibilidade a olho nu. Ítalo explica que uma aurora fraca pode aparecer melhor na câmera do celular, enquanto uma atividade forte pode ser claramente visível e até mais impressionante do que a fotografia.
O céu nublado pode impedir completamente a observação, mesmo com atividade geomagnética. Algumas críticas aos passeios surgiram de clientes que encontraram auroras fracas ou condições ruins. Ítalo diz ficar igualmente frustrado, mas distingue fatores naturais de problemas de atendimento.
Quem contrata uma viagem desse tipo precisa avaliar contrato, política de cancelamento, hospedagem, transporte, seguro e o que acontece quando o clima não permite a observação. Nenhum guia controla a natureza.
Nadar com orcas no norte da Noruega
Ítalo também organiza passeios com parceiros locais para observar e nadar perto de orcas. A água pode ficar próxima de 2 °C ou 3 °C, e os participantes usam equipamento térmico apropriado. É uma atividade que exige operadores experientes, condições adequadas e respeito às regras de segurança e bem-estar dos animais.
Como ele comprou uma casa na Dinamarca?
Ítalo escolheu uma área rural da Dinamarca para criar os filhos. A casa estava anunciada por aproximadamente € 46 mil e foi negociada por € 43 mil. Um gerente bancário inicialmente recusou o financiamento, alegando que ele precisaria morar no país por cinco anos.
Depois de publicar uma avaliação negativa contando sua história, recebeu contato da direção do banco. Segundo Ítalo, a instituição aceitaria financiar o imóvel se ele apresentasse aproximadamente 50% do valor como entrada.
Ele não possuía essa quantia guardada. Usou € 20 mil de crédito pré-aprovado numa conta portuguesa e recebeu mais € 3 mil emprestados por um amigo. A combinação permitiu fechar a compra, mas criou duas dívidas: o financiamento do imóvel e o empréstimo usado como entrada. Ítalo diz que começou a amortizar os valores conforme trabalhava.
Portanto, “comprar sem dinheiro” não significou receber uma casa gratuitamente. Foi uma operação altamente alavancada, dependente de crédito e ajuda pessoal. Não é um modelo que deva ser reproduzido sem avaliar juros, renda estável, impostos e risco de endividamento.
Passaporte europeu garante sucesso?
Ítalo considera Portugal uma porta de entrada comum para brasileiros, mas ressalta que conseguir cidadania europeia não resolve automaticamente carreira, renda ou adaptação. O documento amplia a liberdade de morar e trabalhar em países da União Europeia; aproveitar essa liberdade exige qualificação, rede de contatos e disposição para recomeçar.
Ele viveu em Portugal, Turquia, Alemanha, Belarus e Dinamarca e se comunica em português, inglês, espanhol e alemão. A trajetória, porém, inclui períodos de instabilidade, trabalhos pesados e situações migratórias que ele hoje reconhece como arriscadas.
As polêmicas e a decisão de fazer terapia
Boa parte do episódio revisita confrontos que viralizaram: uma discussão no aeroporto, problemas durante entregas e conflitos com pessoas que, segundo Ítalo, teriam aplicado golpes. Ele relata que costumava assumir disputas de terceiros por acreditar que estava combatendo uma injustiça.
Com o tempo, percebeu que reagir impulsivamente criava novos problemas. Em determinado momento, diz ter olhado para si e não reconhecido a pessoa em que estava se transformando. Começou então a fazer terapia semanal, ainda conciliando as sessões com uma agenda imprevisível de viagens.
Ítalo afirma que ter filhos também reduziu sua disposição para entrar em conflitos. O processo não apagou sua personalidade nem as divergências públicas, mas trouxe a consciência de que pedir desculpas, rever decisões e cuidar da saúde mental fazem parte da mudança.
O que define a trajetória do Roceiro Viajante?
A história reúne improviso, trabalho e uma tolerância a risco acima da média. Ítalo saiu de uma região rural de Goiás, tentou o futebol, lavou pratos, trabalhou na construção, em restaurantes e na indústria pesqueira e encontrou no turismo de natureza uma atividade que combina renda e paixão por viajar.
Ao mesmo tempo, o episódio mostra os custos dessa postura: endividamento, conflitos, instabilidade e decisões que nem sempre devem servir de exemplo. A parte mais interessante não é copiar cada passo, mas entender como ele transformou oportunidades e erros em um negócio próprio.
Assista à conversa completa para conhecer os detalhes das expedições, das viagens por diferentes países e das histórias que Ítalo e Bolder relembram durante mais de duas horas de entrevista.
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