Empreendedora brasileira de 12 anos cria negócio de impressão 3D na Irlanda

Uma empreendedora brasileira de 12 anos está transformando impressão 3D em negócio na Irlanda. Marina criou com o pai, Thiago, a Nina Loop 3D, que produz brinquedos sensoriais, marcadores de página, itens decorativos e chaveiros personalizados com NFC.

Na visita de Bolder à casa da família, os dois mostram que a história não começou com um plano empresarial elaborado. Marina queria uma impressora para explorar a tecnologia e juntar dinheiro para seus sonhos. Em menos de dois meses, as vendas já haviam recuperado o valor do primeiro equipamento — e ela decidiu reinvestir tudo em uma segunda máquina.

De Portugal para uma nova vida na Irlanda

Thiago morou alguns meses na Irlanda em 2016, mas mudanças nas regras de imigração impediram que a família estendesse a permanência da filha como estudante. Surgiu então uma oportunidade em Portugal, onde permaneceram por quase nove anos.

Trabalhando como data engineer, ele recebeu uma nova proposta profissional na Irlanda e decidiu voltar. Marina havia vivido cerca de oito anos em Portugal e chegou sem falar inglês. O sotaque e o vocabulário foram desafios no início, mas, após oito meses, ela já se considerava avançada e havia construído um grupo de amigas.

A adaptação escolar teve um efeito direto no negócio. Colegas começaram a comprar os produtos, professores incentivaram a iniciativa e a própria diretora fez encomendas para a filha. A escola também abriu a possibilidade de Marina participar de futuras feiras de empreendedorismo.

Como surgiu a Nina Loop 3D

A ideia apareceu quando Marina assistiu a vídeos de impressão 3D na internet. Ela se interessou especialmente por brinquedos sensoriais e percebeu que a tecnologia poderia unir criatividade a uma forma de guardar dinheiro para viajar.

O pedido feito ao pai foi específico: em vez dos presentes de Natal e aniversário, queria uma impressora 3D. Thiago pesquisou o assunto, confirmou que não era um interesse passageiro e aceitou com uma condição — a própria iniciativa deveria pagar o equipamento.

Embora trabalhe com tecnologia, ele nunca havia modelado nem impresso uma peça. Pai e filha aprenderam acompanhando vídeos, testando configurações e lidando com erros. Hoje, Thiago cuida da parte técnica e da modelagem mais complexa; Marina seleciona produtos, grava e edita vídeos e administra boa parte das redes sociais, com apoio da mãe.

O que eles produzem com impressão 3D?

A sala da casa já funciona como oficina e estoque. Entre os produtos mostrados a Bolder estão:

  • brinquedos articulados e objetos sensoriais;
  • marcadores e suportes para livros;
  • dragões, dinossauros e peças inspiradas em cultura pop;
  • vasos, porta-canetas e suportes para celular;
  • chaveiros com compartimentos, mecanismos e fotos;
  • chaveiros empresariais com chips NFC.

Algumas peças são escolhidas em comunidades de projetos para impressão 3D. Outras recebem alterações de tamanho, cor ou identidade visual. Quando a licença permite uso comercial, a família paga o valor correspondente; segundo Thiago, certos modelos custam entre €10 e €40 por mês para serem vendidos legalmente.

A personalização é o ponto em que eles enxergam mais potencial. A impressão 3D permite adaptar uma peça para uma marca, produzir pequenas séries e criar soluções que não justificariam uma linha industrial convencional.

Como funcionam os chaveiros NFC?

Os chaveiros NFC se tornaram um dos principais produtos da Nina Loop 3D. Durante a impressão, a máquina faz uma pausa, Marina posiciona o chip dentro da peça e o processo continua, deixando o componente incorporado.

Ao aproximar um celular, o chaveiro abre um endereço programado. Pode ser Instagram, TikTok, site, página de avaliações, agenda de atendimento ou um agregador de links. O destino pode ser alterado depois sem fabricar outra peça.

A família começou criando um exemplar para a própria marca. Depois, a padaria brasileira Chefe Oliveira encomendou unidades para seu aniversário, e outras empresas chegaram por indicação. No vídeo, Marina também entrega um chaveiro personalizado do Bolder Podcast.

Quanto tempo demora uma impressão 3D?

O tempo depende do tamanho, das camadas e das trocas de cor. Um marcador simples pode levar de 20 a 40 minutos. Um chaveiro mais elaborado demora cerca de duas horas e meia. Já um dragão articulado apresentado no vídeo exige aproximadamente nove horas.

O software Bambu Studio transforma o modelo em centenas de camadas e gera as instruções enviadas à impressora. Uma estrela sensorial, por exemplo, tinha 343 camadas. Sempre que a máquina precisa trocar de cor, interrompe o fluxo de um filamento e carrega outro, aumentando o tempo e o desperdício.

A segunda impressora comprada pela empresa possui dois bicos, o que reduz as trocas e a “purga” de material usada para limpar a cor anterior. A escolha mostra como Marina aplicou uma lição empresarial concreta: em vez de retirar o primeiro resultado, reinvestiu em capacidade e eficiência.

Impressão 3D também dá prejuízo

Nem toda produção termina bem. A família mostrou a Bolder uma bandeja inteira de chaveiros religiosos que falhou perto do fim, depois de quase seis horas. Se a peça se solta da placa aquecida ou uma camada apresenta defeito, todo o filamento usado pode ser perdido.

Uma recicladora doméstica de filamento ainda custa, segundo Thiago, o equivalente a aproximadamente três impressoras, por isso não faria sentido nesta fase. O descarte e o consumo nas trocas de cor entraram na análise antes da compra da nova máquina.

Como o negócio conseguiu os primeiros clientes?

Instagram, Etsy e boca a boca foram os primeiros canais. O sofá inspirado em Friends teve forte saída na loja online. Já os chaveiros NFC cresceram por meio de parcerias com empresas brasileiras e encomendas personalizadas.

A escola também virou uma pequena vitrine. Marina levou um cubo infinito, explicou aos colegas que havia produzido a peça e recebeu pedidos. O apoio de professores e da diretora ajudou a validar a ideia em um público que realmente utiliza os brinquedos.

O site próprio ainda estava em desenvolvimento durante a gravação. Enquanto isso, Instagram, TikTok e WhatsApp concentravam divulgação, orçamento e atendimento.

Uma criança pode administrar um negócio?

No caso mostrado pelo vídeo, trata-se de um projeto familiar. Marina é a idealizadora, participa das decisões, cuida do conteúdo e aprende sobre produto e venda, enquanto os pais assumem burocracia, operação técnica e responsabilidades de adulto.

Thiago enfatiza que a escola vem primeiro. Marina termina as aulas por volta das 14h40, faz os deveres e só depois participa das atividades da empresa. Ela não cumpre jornada nem deixa compromissos escolares de lado; o envolvimento é tratado como aprendizado e atividade criativa.

Essa divisão também evita romantizar trabalho infantil. A história é interessante justamente porque os pais criaram limites, acompanham a execução e usam o negócio para ensinar reinvestimento, custos, licenças, impostos e frustração.

Brinquedos impressos em 3D precisam seguir regras de segurança

A família escolheu filamentos originais da Bambu Lab por considerar a qualidade, durabilidade e composição melhores. Thiago descreveu o PLA utilizado como material derivado de amido de milho e com risco reduzido em relação a filamentos mais baratos.

Isso, porém, não torna automaticamente uma peça segura para ser colocada na boca. Na Irlanda, quem fabrica ou vende brinquedos precisa avaliar riscos mecânicos, químicos, de inflamabilidade e de peças pequenas, além de cumprir rotulagem e documentação.

A CCPC explica as regras de segurança para brinquedos, incluindo marca CE, identificação do fabricante, faixa etária e advertências. Os requisitos são ainda mais rigorosos para produtos destinados a menores de 36 meses. Essa etapa será especialmente importante se a Nina Loop 3D ampliar a venda de itens infantis.

Como o Local Enterprise Office pode ajudar?

Thiago e Marina procuraram o Local Enterprise Office, órgão que oferece orientação, treinamento e possíveis apoios financeiros a pequenos negócios na Irlanda. Eles conheceram caminhos para testar produtos, estruturar a empresa e se preparar para o mercado.

No vídeo, Thiago cita um apoio próximo de €10 mil para prototipagem e outro para atividades posteriores ao lançamento. Os valores e critérios dependem do escritório local, do programa e da proposta. Não se trata de dinheiro automático: normalmente a empresa precisa apresentar um projeto elegível, solicitar antes de gastar e comprovar as despesas.

Em Dublin, o Feasibility Study Grant do LEO pode cobrir 50% de custos qualificados, até o limite indicado pelo programa, e a concessão média fica perto de €10 mil. Potencial de inovação, exportação e criação de empregos pesa na avaliação.

Por que formalizar a empresa?

A família foi convidada para um evento de uma associação ligada à neurodivergência, mas descobriu que precisava estar formalizada para participar como vendedora. Isso levou à discussão sobre operar como sole trader, emitir registros e declarar corretamente a renda.

Thiago observou que pequenos negócios podem ter tratamento simplificado e limites específicos antes do registro de VAT, mas isso não elimina a obrigação de acompanhar faturamento e imposto de renda. A recomendação recebida foi participar dos treinamentos e definir a estrutura com orientação adequada.

Empreendedorismo como ferramenta para alcançar outros sonhos

Marina não pretende necessariamente passar a vida apenas com impressão 3D. Seu sonho é ser atriz e cantora. Para ela, gravar, editar, aparecer nas redes e conversar com clientes também funciona como preparação para se comunicar melhor e construir projetos próprios.

A trajetória da família ajuda a explicar por que a oportunidade tem tanto valor. Thiago reconhece as dificuldades da imigração, mas acredita que morar na Europa permitiu à filha conhecer países, culturas e possibilidades que boa parte da família não teve. Marina compartilha essa percepção ao comparar sua rotina com a dos primos no Brasil.

O plano para a Nina Loop 3D é crescer conforme o entusiasmo de Marina: sair da sala da casa, ter mais impressoras, atender novos clientes e continuar reinvestindo. Assista ao vídeo completo para conhecer a oficina, acompanhar uma impressão e ver os produtos criados por pai e filha na Irlanda.

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