Churrascaria brasileira na Irlanda: a história da Bah33

A história de uma churrascaria brasileira na Irlanda pode começar muito antes da abertura das portas. No Bolder Podcast 549, Riccieri Galvan explica como os churrascos entre estudantes deram origem à Bah33, em Dublin, e detalha as decisões, os imprevistos e os controles necessários para manter o restaurante funcionando.

A conversa passa pela chegada de Riccieri ao país em 2017, pelos primeiros empregos, pela obra concluída durante a pandemia e pelo plano de abrir uma segunda unidade. Mais do que uma história de crescimento, o episódio mostra como ele adaptou a tradição gaúcha à realidade do mercado irlandês.

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Quem é Riccieri Galvan?

Nascido em Porto Alegre e filho de uma família com raízes no interior do Rio Grande do Sul, Riccieri se formou em Ciências Contábeis em 2002. Antes de emigrar, trabalhou por cerca de 15 anos no mesmo grupo empresarial e chegou a administrar atividades ligadas a fazendas e à construção.

Por volta dos 30 anos, decidiu viver uma experiência fora do Brasil. A primeira ideia era ir para a Austrália, mas problemas com o visto mudaram o caminho. A Irlanda apareceu como uma alternativa por permitir que estudantes também trabalhassem.

Riccieri desembarcou em 2017. Na mala de 32 quilos, trouxe quatro espetos de churrasco — um detalhe que, olhando em retrospecto, antecipava parte do que viria depois.

Os primeiros trabalhos na Irlanda

A rotina inicial era intensa: escola de inglês pela manhã, construção à tarde e trabalho em hotel à noite. Ele manteve esse ritmo por aproximadamente dois meses para financiar o processo de cidadania italiana, que exigiu uma temporada de cerca de 45 dias na Itália.

Quando voltou à Irlanda, conseguiu seu primeiro trabalho registrado em restaurante como kitchen porter no Keoghs Café, na Dame Street. Depois passou a auxiliar na cozinha e enfrentou turnos que começavam às 5 horas da manhã. Embora já conhecesse administração, ainda não tinha experiência prática no setor de restaurantes.

Como nasceu a Bah33?

Dos churrascos entre estudantes ao plano de negócio

A ideia começou de forma informal. Aos domingos, Riccieri reunia colegas da escola para churrascos em casa. Cada pessoa contribuía com 5 euros para a carne e levava a própria bebida. Os encontros cresceram tanto que, em uma ocasião, cerca de 50 pessoas ocuparam uma casa de dois quartos.

Em 2018, um primo perguntou por que não havia uma churrascaria no estilo brasileiro na Irlanda. Dublin já tinha restaurantes especializados em carne, mas Riccieri enxergou espaço para uma experiência baseada no espeto, no carvão e na cultura gaúcha.

A partir daí vieram o plano de negócio, o estudo de localização e as conversas com imobiliárias, advogados, contadores e proprietários. Além da barreira do idioma, foi necessário explicar ao senhorio o que era uma churrascaria e como o conceito funcionaria.

O significado do nome Bah33

O nome combina dois elementos da identidade gaúcha. “Bah” é uma expressão derivada de “barbaridade”. O número 33 faz referência ao Paralelo 33, que atravessa a região do Rio Grande do Sul, do Uruguai e da Argentina associada à cultura do pampa.

A inauguração que encontrou a pandemia

O contrato do imóvel foi assinado em setembro de 2019. A previsão era abrir em dezembro, mas a obra atrasou. Em março de 2020, quando o restaurante ainda estava em construção, a pandemia interrompeu as atividades.

Riccieri passou três meses no Brasil e retornou quando as obras puderam recomeçar, em 8 de junho. A construção terminou em julho e a equipe teve cerca de dez dias para testar o funcionamento da casa.

Outro desafio foi formar a equipe. A suspensão de vistos impediu a vinda de profissionais diretamente do Brasil, embora parte dos equipamentos, incluindo a churrasqueira, já tivesse sido importada. Por meio de Anderson, um profissional que estava nos Países Baixos e tinha 25 anos de experiência, a empresa encontrou pessoas que já viviam na Europa. Mais tarde, ele se tornou gerente-geral da operação.

Como a Bah33 adaptou o churrasco ao delivery?

Com as restrições sanitárias, a Bah33 precisou trabalhar no formato à la carte e testar o delivery. A dificuldade era evidente: cortes servidos diretamente do espeto perdem temperatura e textura durante o transporte.

A equipe preparou diferentes carnes e embalagens e chegou a deixá-las do lado de fora por 50 ou 60 minutos, durante o inverno, para simular uma entrega. Os cortes que não mantinham a qualidade foram retirados do cardápio. Segundo Riccieri, o delivery acabou permanecendo e passou a representar entre 13% e 15% do lucro da empresa.

A diversificação continuou com casamentos, eventos e festivais. No Big Grill, por exemplo, a equipe preparou aproximadamente 2,5 toneladas de costela em três dias, com jornadas que chegaram a 15 ou 17 horas.

Carne irlandesa com método gaúcho

A Bah33 usa carne 100% irlandesa e aplica o método gaúcho de preparo no carvão. Segundo Riccieri, esse é um dos pontos que diferencia o restaurante de outras churrascarias que trabalham com gás.

A proposta também aparece nos uniformes inspirados na pilcha, na costela como um dos pratos de assinatura e na ideia do churrasco como encontro. O objetivo não é atender apenas brasileiros: de acordo com o convidado, cerca de 80% do público da casa é formado por irlandeses e clientes de outras nacionalidades.

Quanto custa manter um restaurante na Irlanda?

Na conversa com Bolder, Riccieri explica que o custo de um imóvel comercial não se resume ao aluguel. A conta também pode incluir rates e taxa de serviço, especialmente em centros comerciais, onde entram despesas como segurança, eletricidade de áreas comuns e coleta de resíduos.

O maior custo, porém, é a mão de obra. Por isso, as reservas ajudam a projetar o movimento e montar as escalas. Na época da entrevista, a Bah33 tinha aproximadamente 36 funcionários, entre equipe fixa e profissionais pagos por hora.

Controle de estoque e desperdício

Todo descarte é pesado, fotografado e registrado. Vendas e estoque são acompanhados em conjunto, o que permite localizar diferenças e entender onde ocorreu uma perda.

O restaurante também reaproveita partes próprias para outras receitas: sobras adequadas entram no arroz carreteiro e aparas da costela podem virar croquetes. Os lotes e as datas são controlados para manter a rastreabilidade.

A segunda unidade da Bah33 em Dundrum

A primeira casa começou com 70 lugares e, após uma expansão, chegou a 140. No episódio, Riccieri revela que a segunda unidade está planejada para o Dundrum Town Centre, com capacidade para 260 pessoas — quase o dobro da operação atual.

A expectativa apresentada na entrevista era abrir até o fim de 2026, dependendo do andamento da obra. Ele também considera formatos menores e uma possível franquia no futuro, mas ressalta que crescer sem perder o padrão de qualidade é uma preocupação central.

Vale a pena empreender na Irlanda?

A experiência de Riccieri mostra que abrir um restaurante na Irlanda exige mais do que uma boa ideia. É preciso entender contratos, custos, licenças, contratação, estoque e comportamento do público. Também é necessário reagir rapidamente quando o cenário muda, como aconteceu com a pandemia.

Ao mesmo tempo, a Bah33 encontrou espaço ao oferecer algo específico: carne irlandesa preparada com técnica e identidade gaúchas. Para o empresário, consistência no produto e no atendimento é o que sustenta a operação e permite pensar no longo prazo.

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Uma empresa construída para deixar legado

Riccieri diz que pensa no negócio como um legado para os dois filhos. A trajetória começou com uma mudança temporária para estudar inglês, passou por turnos na construção, em hotel e na cozinha, e chegou a uma churrascaria de 140 lugares prestes a iniciar uma nova etapa.

No episódio completo, Bolder e Riccieri conversam sobre imigração, gestão, cultura gaúcha e os bastidores de uma churrascaria brasileira na Irlanda. Assista ao vídeo no topo da página e compartilhe nos comentários qual parte dessa história mais chamou sua atenção.

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