Moradia na Irlanda: os perrengues de Carlla Candido em 12 anos

Moradia na Irlanda é uma das dificuldades mais mencionadas por imigrantes, mas a história de Carlla Candido mostra uma versão especialmente dura desse problema. Em conversa com Bolder, ela relembra períodos em casas lotadas, noites sem endereço fixo, apartamentos de Airbnb destruídos por hóspedes e os anos de trabalho que antecederam a conquista de seu próprio espaço em Dublin.

Carlla completou 12 anos na Irlanda em agosto de 2026. Ao olhar para trás, ela não transforma os perrengues em uma história fácil: fala de medo, cansaço e solidão, mas também da fé e da persistência que a impediram de desistir.

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Uma carreira consolidada antes do intercâmbio

Antes de chegar à Irlanda, Carlla já tinha uma longa trajetória profissional no Brasil. Foram 13 anos na Samarco, em uma atividade ligada à mineração, e mais de dez anos no setor de petróleo, em Macaé.

Ela trabalhava com sistemas de gestão de qualidade, saúde, segurança e meio ambiente, incluindo processos relacionados a normas ISO e treinamento de equipes. Era uma função de responsabilidade, especialmente em ambientes nos quais a manutenção envolvia riscos importantes.

A necessidade de inglês no trabalho ajudou a despertar o interesse pelo idioma. Ainda assim, sua mudança não foi a continuação direta dessa carreira: Carlla chegou como estudante de inglês, planejando inicialmente passar um ano fora, e precisou recomeçar.

Seis meses sem trabalho e apenas €5 no bolso

Os primeiros meses foram bem diferentes da imagem de uma mudança planejada e confortável. Carlla conta que ficou cerca de seis meses sem conseguir emprego. Em determinado momento, tinha apenas €5.

Mesmo com experiência profissional, ela não conseguia sequer uma oportunidade como cleaner. Foi nesse período que surgiu uma vaga de au pair — justamente um tipo de trabalho que ela antes dizia que não faria. Diante da realidade, reviu a decisão e aceitou a oportunidade.

Essa passagem ajuda a entender um dos pontos centrais da conversa: emigrar pode exigir flexibilidade para começar em áreas completamente diferentes, sem que isso apague a experiência acumulada anteriormente.

Como era viver em uma casa com 25 pessoas

Em uma das fases mais difíceis, Carlla viveu em uma casa de três andares com aproximadamente 25 moradores. Havia beliches e muita gente compartilhando cozinha, banheiros e áreas comuns.

O quarto dela era tão pequeno que também abrigava o boiler. Sem estrutura de cama, Carlla apoiava o colchão sobre as próprias malas. Para alguém que valoriza silêncio e privacidade, a convivência intensa tornou a experiência ainda mais desgastante.

Ao falar sobre casas compartilhadas, ela também faz uma observação prática: muitos imigrantes nunca tinham morado sozinhos antes de chegar ao exterior. Dividir uma casa exige aprender a tomar banhos mais curtos, limpar a cozinha depois de usar e respeitar pessoas com hábitos muito diferentes.

Vários trabalhos de limpeza ao mesmo tempo

Carlla passou a conciliar estudo com trabalhos em restaurantes, escritórios e apartamentos de temporada. Houve dias em que encaixava turnos de quatro horas em locais diferentes e fazia do chicken fillet roll barato sua refeição para conseguir manter o orçamento.

Em um dos restaurantes, chegou a supervisionar uma equipe de nove cleaners. A responsabilidade e o estresse cresceram tanto que ela percebeu que estava tratando as pessoas de uma maneira que não combinava com seus valores. Mesmo diante de uma oferta próxima de €20 por hora para continuar, decidiu sair.

Segundo Carlla, ao longo dos anos ela treinou mais de 200 profissionais de limpeza. A experiência anterior com processos e treinamento continuava presente, embora aplicada em outro setor.

Gerenciando apartamentos de Airbnb em Dublin

Outro trabalho importante foi a gestão de quatro apartamentos de Airbnb no centro de Dublin. Carlla organizava a limpeza, recebia hóspedes e criou mensagens e rotinas de check-in para lidar melhor com os horários de chegada.

O serviço cresceu e ela passou a contratar e treinar outras pessoas. Também recebia valores pelos check-ins, dinheiro que mais tarde ajudaria a financiar seu processo de cidadania italiana.

Mas a proximidade com os apartamentos acabou se misturando ao próprio problema de moradia. Como sabia quais unidades estavam vazias, Carlla começou a dormir no apartamento disponível entre uma reserva e outra.

Dormir onde não havia reserva

Durante um período, Carlla não tinha uma acomodação estável. Ela se organizava conforme o calendário dos hóspedes e passava a noite no apartamento que estivesse livre. Quando todas as unidades estavam reservadas, precisava procurar o sofá de algum amigo ou outra solução temporária.

Nem sempre os amigos conseguiam recebê-la, e a rotina acontecia ao mesmo tempo em que ela trabalhava intensamente. O relato revela uma face pouco visível da crise de moradia na Irlanda: uma pessoa pode estar empregada e, ainda assim, não ter um lugar permanente para dormir.

Essa experiência aparece no episódio como um perrengue vivido no passado, não como recomendação. Além da instabilidade emocional, depender de imóveis de trabalho para ter onde passar a noite cria riscos pessoais e profissionais.

Festas, drogas e apartamentos destruídos

A gestão dos Airbnbs também trouxe situações extremas. Em um dos casos, hóspedes locais usaram um apartamento para uma festa. Depois da saída, Carlla encontrou paredes danificadas, comida debaixo das camas, sujeira espalhada, o roteador de internet desaparecido e mais de dez sacos de lixo.

Os vizinhos enviaram vídeos que indicavam a presença de dezenas de pessoas. Inicialmente, o proprietário evitou chamar a Garda por medo das consequências para o anúncio. Depois de outra ocorrência, com televisão e espelho quebrados, a polícia foi acionada.

Em outra ocasião, durante a forte nevasca de 2018, Carlla atravessou Dublin usando calçados inadequados para resolver um problema com hóspedes. Os episódios ajudam a explicar por que ela deixou essa atividade depois de cerca de sete anos.

A cidadania italiana também exigiu resistência

Parte do dinheiro acumulado com os check-ins foi destinada ao reconhecimento da cidadania italiana. Carlla passou aproximadamente sete meses na Itália e enfrentou mais uma sequência de imprevistos.

O processo demorou além do esperado porque a pessoa responsável pelo andamento ficou doente. Durante o inverno, ela chegou a viver em uma casa sem eletricidade, internet e aquecimento.

Hoje, Carlla tem o passaporte italiano. A conquista não apagou as dificuldades, mas ampliou sua segurança migratória depois de anos de incerteza.

O estúdio com sol que finalmente apareceu

Depois de tanta instabilidade, Carlla buscava algo muito específico: um estúdio onde entrasse luz do sol. Um proprietário entrou em contato antes mesmo de publicar o imóvel no Daft e disse que tinha justamente um “studio with sun”.

Ela conseguiu alugar o lugar e passou a pagar pouco mais de €900, mesmo após um reajuste de 2% citado na conversa. Em outro vídeo do Bolder, Carlla mostrou o espaço onde vive; o conteúdo alcançou centenas de milhares de visualizações.

Mais do que o tamanho do apartamento, a conquista representa ter endereço, privacidade e previsibilidade depois de anos adaptando a vida às vagas de outras pessoas.

Valeu a pena permanecer na Irlanda?

Apesar de tudo, Carlla diz que nunca se arrependeu de ter mudado. Ela destaca o clima, a arquitetura, a segurança e a qualidade de vida que encontrou em Dublin. Também reconhece que sua fé e o exemplo da mãe foram fundamentais para continuar.

Sua mãe criou seis filhos e trabalhou até uma idade avançada. Para Carlla, essa referência familiar ajudou a manter a gratidão e a disposição de seguir em frente mesmo quando a situação parecia sem saída.

Ela não tem um plano imediato de deixar a Irlanda. Depois de 12 anos, a permanência não é apresentada como uma decisão baseada apenas em dinheiro, mas como resultado de vínculos, autonomia e da vida que conseguiu construir.

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Uma história real sobre moradia na Irlanda

A trajetória de Carlla Candido mostra que a crise de moradia não se resume ao preço anunciado em sites de aluguel. Ela afeta descanso, trabalho, saúde emocional e a capacidade de planejar o futuro.

No episódio completo, Bolder e Carlla conversam sobre trabalho, Airbnb, cidadania italiana, fé e os detalhes dos 12 anos vividos no país. Assista ao vídeo para conhecer a história com a voz de quem atravessou cada uma dessas fases.

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