Ser dono de pub na Irlanda exige muito mais do que encontrar um imóvel e fazer um investimento. Victor Zoffoli descobriu isso depois de alugar e reformar um pub, passar por investigação de antecedentes, comparecer à corte várias vezes e aguardar meses até receber a licença para vender bebidas.
No Bolder Podcast, Victor conta como saiu do delivery, trabalhou como segurança, entrou no mercado imobiliário e construiu uma série de negócios antes de assumir o Hill 16 Pub. O episódio também mostra os riscos de crescer rapidamente e a importância de aprender a delegar.
De estudante e entregador a empreendedor na Irlanda
Victor chegou à Irlanda em 2016, pouco depois de terminar o ensino médio. Veio inicialmente como estudante e posteriormente obteve a cidadania italiana por meio da família.
No Brasil, trabalhava em uma imobiliária ligada à família da esposa e já se interessava por negócios. Ele também se inspirava no avô, que emigrou da Itália para o Brasil aos 18 anos, começou lavando pratos e mais tarde se tornou empresário.
Na Irlanda, seu primeiro trabalho foi fazendo delivery de moto. Na primeira semana, bateu em uma BMW, estava sem os documentos no bolso e não conseguia explicar a situação em inglês. A Garda o levou à delegacia até que sua esposa chegasse com a documentação.
Victor permaneceu aproximadamente quatro anos no delivery. Paralelamente, comprava motos usadas, organizava os reparos e as revendia, principalmente para outros brasileiros. Essa foi uma das primeiras formas de transformar oportunidades pequenas em renda adicional.
O período trabalhando como segurança
Depois do delivery, Victor trabalhou como segurança em casas noturnas. Ele relata conflitos frequentes com clientes alcoolizados e reconhece que aquela rotina não combinava com o tipo de vida que queria construir.
Por isso, mudou para segurança de escritório e também trabalhou em uma acomodação. Os turnos noturnos eram longos, mas davam espaço para pensar nos próximos negócios e planejar os passos seguintes.
Victor afirma que a experiência como funcionário influenciou a forma como passou a administrar equipes. Ele queria tratar as pessoas de modo diferente de alguns patrões que encontrou e enxergar funcionários e proprietários como partes igualmente importantes do negócio.
A imobiliária abriu a primeira porta empresarial
Uma oportunidade em uma imobiliária irlandesa mudou o rumo da trajetória. A proprietária, que Victor descreve como uma mãe na Irlanda, confiou em seu trabalho e o apresentou a senhorios e proprietários de imóveis comerciais.
Enquanto trabalhava na imobiliária, ele abriu uma empresa paralela de manutenção e gerenciamento de casas. Fazia serviços como pintura e drywall, acompanhava imóveis e aproveitava os contatos criados no setor.
A confiança foi crescendo. Victor lembra de receber a chave de uma casa avaliada em cerca de €2,5 milhões para realizar uma visita mesmo sem ter conhecido pessoalmente o proprietário. Para ele, cumprir o que havia combinado criou referências que depois abriram outras portas.
Barbearia, estúdio de tatuagem e diversificação
Ao identificar pontos comerciais disponíveis, Victor começou a criar outros negócios. Um deles foi uma barbearia; outro, um estúdio de tatuagem baseado no aluguel de espaços para profissionais.
Em vez de depender de uma única operação, ele preferia obter uma parcela menor de diferentes atividades. No episódio, diz que tinha sete empreendimentos e caminhava para o oitavo.
Essa diversificação também aumentou a necessidade de gestão. Victor percebeu que não conseguia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e passou a contar com uma pessoa de confiança em cada operação.
Aprender a delegar foi difícil. Ele estava acostumado a resolver tudo sozinho, mas chegou a trabalhar sete dias por semana e passar o dia sem comer enquanto já tinha equipes capazes de assumir parte das tarefas.
Como surgiu a oportunidade do Hill 16 Pub
O Hill 16 já funcionava antes da pandemia e permaneceu fechado durante aquele período. Quando uma proprietária com quem Victor já trabalhava adquiriu o estabelecimento, ela o convidou para avaliar a possibilidade de assumir a operação.
Ele estava no Brasil quando recebeu a ligação. Ao voltar para a Irlanda, gostou da estrutura e iniciou a negociação, mas logo descobriu problemas que não eram visíveis na primeira visita.
Encanamento, gás, eletricidade, esgoto, câmeras e outros sistemas precisavam de trabalho. Victor refez o chão, instalou uma cozinha nova e comprou equipamentos.
A reforma das linhas de cerveja
Um dos investimentos que Victor mais destaca foi a renovação das linhas de cerveja. Torneiras, tubulações, gás e equipamentos antigos afetavam diretamente a qualidade do produto servido.
Ele conta que algumas peças tinham aproximadamente 15 anos e estavam em condições ruins. A limpeza e a substituição do sistema passaram a ser uma prioridade para servir Heineken, Guinness e outras cervejas com mais qualidade.
A operação também revelou problemas gradualmente. Em um dia de casa cheia, por exemplo, a bomba d’água não suportou a demanda e precisou ser trocada.
Como funciona a licença de um pub na Irlanda?
Victor imaginava que a licença seria apenas uma taxa administrativa. Depois de investir na reforma, descobriu que a autorização dependia da corte e da avaliação da Garda.
O processo envolveu verificação de antecedentes na Irlanda e em outros países onde ele havia vivido, reuniões com advogados e promotor, entrevista com um superintendente e várias idas à corte.
A primeira audiência não resolveu a situação. A responsável pela área disse que ainda não o conhecia e precisava investigar seu histórico. O caso voltou à corte em intervalos de aproximadamente 15 dias, enquanto o pub reformado permanecia sem poder abrir.
Victor relata que sua nacionalidade, idade, tatuagens e falta de experiência anterior administrando pubs foram tratadas como obstáculos. Na corte, ele via principalmente irlandeses mais velhos, muitos com décadas no setor.
Depois da investigação, recebeu a confirmação de que a licença seria aprovada. Compareceu novamente à corte, assumiu formalmente o compromisso de respeitar as regras — incluindo não vender bebidas a menores — e abriu o pub no dia seguinte.
Quanto custa manter um pub?
Sem apresentar o negócio como uma fórmula simples, Victor destaca que o risco financeiro é muito maior do que em operações menores. No episódio, estima que apenas o seguro anual do pub custava cerca de €15 mil.
Também existem despesas com equipe, manutenção, estoque, equipamentos e conformidade legal. Uma falha que seria pequena em uma barbearia pode gerar um prejuízo muito maior em um estabelecimento desse porte.
Na época da entrevista, Victor dizia empregar diretamente e indiretamente pessoas de várias nacionalidades. O pub contava com cerca de 25 trabalhadores, enquanto a barbearia operava com profissionais que administravam a própria clientela.
Empreender exige referências e pessoas de confiança
A principal lição prática do relato não é simplesmente “abrir vários negócios”. Victor atribui seu crescimento à confiança construída com proprietários, ao histórico de cumprir acordos e às referências fornecidas por operações anteriores.
Para conseguir o pub, foram solicitadas referências da barbearia, do estúdio de tatuagem e da imobiliária. Cada negócio bem administrado ajudava a provar que ele conseguiria assumir uma responsabilidade maior.
Ao mesmo tempo, Victor reconhece que trabalhar 70 ou 80 horas por semana teve um preço. A esposa participou da construção financeira da família e chegou a sustentar a casa quando ele quebrou a clavícula.
A história do dono de pub na Irlanda
Victor Zoffoli não chegou à Irlanda planejando administrar um pub. O caminho passou por delivery, revenda de motos, segurança, imóveis, manutenção, barbearia e tatuagem antes de chegar ao Hill 16.
No episódio completo, Bolder explora os detalhes da licença, da reforma e da criação dos outros empreendimentos. É uma conversa que mostra oportunidades reais, mas também deixa claro que abrir um pub na Irlanda envolve capital, reputação, conhecimento legal e capacidade de administrar pessoas.
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