Tatuadora brasileira na Irlanda: a trajetória de Jéssica Rodrigues

Ser tatuadora brasileira na Irlanda permitiu que Jéssica Rodrigues transformasse uma carreira que já era itinerante no Brasil em um trabalho estável em Dublin. Nascida em Amargosa, na Bahia, ela chegou ao país em abril de 2017 como intercambista e já encontrou clientes que acompanhavam seus desenhos pela internet.

Na conversa com Bolder, Jéssica explica como Psicologia, Artes Visuais e anos de desenho influenciaram sua forma de criar tatuagens. Ela também fala sobre o começo improvisado na profissão, as viagens para atender grupos em diferentes cidades, o desafio do inglês e a importância de respeitar o ritmo do cliente e do próprio artista.

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Da Psicologia ao trabalho com tatuagem

Jéssica desenha desde criança, mas chegou à vida adulta cansada de repetir o que já fazia havia tantos anos. Durante a faculdade de Psicologia, passou a tocar violão, dançar e experimentar outras atividades. O desenho reapareceu durante uma aula de Neuropsicologia, quando ela desenhou um cérebro e surpreendeu colegas que nem sabiam que ela tinha aquela habilidade.

Foi também na Psicologia que começou a estudar criatividade. Até então, seu grande objetivo era dominar o realismo e produzir um desenho que parecesse uma fotografia. Quando finalmente conseguiu, percebeu que a conquista não lhe trouxe a satisfação esperada. Decidiu, então, abandonar a simples reprodução e aprender a criar imagens próprias.

Os primeiros trabalhos autorais não saíam como ela queria, mas Jéssica adotou uma lógica que levaria para a carreira: o desenho podia não estar perfeito naquele dia, desde que o próximo fosse melhor. Ela produziu milhares de imagens, testou diferentes estilos e se interessou especialmente pela criação de personagens.

Durante uma greve da faculdade, em 2012, criou o blog Nome Para Fracos para publicar desenhos, projetos manuais e tutoriais. Leitores começaram a pedir banners e ilustrações. A ideia de tatuar surgiu desse contato com pessoas que já admiravam sua linguagem visual.

A primeira tatuagem foi um sistema solar feito à mão livre

Jéssica tentou comprar uma máquina de tatuagem ainda em 2012, mas sofreu um golpe e o equipamento nunca chegou. Somente em 2014 conseguiu reunir o material necessário. O primeiro voluntário foi o homem que havia conhecido naquele mesmo ano e que mais tarde se tornaria seu marido.

O projeto escolhido não era pequeno: um sistema solar ocupando boa parte do braço. Como faltava o produto usado para transferir o estêncil e ela ainda não conhecia uma alternativa, desenhou tudo diretamente na pele. Foram aproximadamente três horas de desenho e outras quatro de tatuagem.

Antes de começar, Jéssica havia estudado por vídeos temas como assepsia, biossegurança e aplicação. Ainda assim, reconhece que era uma estreia ousada. Depois de algumas experiências, fez uma pausa e passou a tatuar profissionalmente de forma contínua em 2015.

Como Jéssica se tornou uma tatuadora viajante no Brasil

Morando no interior da Bahia, Jéssica divulgava seus desenhos em grupos do Facebook frequentados principalmente por mulheres interessadas em tatuagem. Os comentários seguiam um padrão: muitas gostavam do trabalho, mas lamentavam que ela não estivesse em suas cidades. A resposta de Jéssica foi começar a viajar.

Belo Horizonte foi o primeiro destino, ainda em 2015. Ela anunciava a viagem com antecedência, fechava a agenda cerca de um mês antes e chegava ao local apenas para executar os trabalhos. Na maioria das vezes, atendia em estúdios reservados; em outras, um grupo de amigos organizava um dia inteiro de sessões em uma casa.

A rotina era intensa. Em algumas viagens, chegou a fazer 50 tatuagens em dez dias. A meta era concentrar naquele período a renda equivalente ao mês, deixando o restante do tempo para criar desenhos e preparar a próxima agenda.

Uma dessas viagens aconteceu em Caravelas, na Bahia, para tatuar cerca de dez pessoas ligadas ao Instituto Baleia Jubarte. Quase todo o grupo escolheu baleias, cada uma em uma posição diferente. A experiência resume o que atraía Jéssica nesse formato: conhecer histórias e transformar vínculos específicos em imagens.

Por que Jéssica Rodrigues escolheu a Irlanda?

A Irlanda entrou nos planos durante uma viagem a Recife e Olinda. Uma cliente havia feito intercâmbio no país, falava com entusiasmo da experiência e queria tatuar com Jéssica um desenho que já admirava. Depois da conversa, Jéssica e o marido começaram a considerar seriamente a mudança.

Em abril de 2017, os dois chegaram como estudantes. O portfólio publicado na internet reduziu uma das maiores incertezas da imigração: Jéssica já tinha aproximadamente três clientes agendados antes de desembarcar. Na semana seguinte à chegada, mesmo sem uma moradia definitiva, atendeu uma irlandesa que acompanhava seu trabalho.

A primeira cliente queria uma criação original e precisava explicar a ideia em inglês. Jéssica chegou com nível intermediário e descobriu, na prática, que conseguia manter conversas melhores do que imaginava. O trabalho deu certo, a cliente voltou outras cinco ou seis vezes e a agenda cresceu a partir das pessoas que já a seguiam.

O inglês faz diferença para trabalhar como tatuador na Irlanda

A comunicação não se resume a perguntar qual desenho o cliente quer. É necessário discutir tamanho, posição, referências e alterações, além de acompanhar como a pessoa está se sentindo durante a sessão. Nos primeiros meses, o inglês de Jéssica oscilava.

Um cliente irlandês que continua tatuando com ela recorda que, em uma das primeiras sessões, tentou explicar que sentia muita dor e queria saber quanto tempo faltava. Jéssica não entendeu e respondeu apenas com um sorriso. O episódio terminou bem, mas se tornou uma lembrança clara da importância do idioma para a segurança e o conforto do atendimento.

A cocriação transforma histórias em tatuagens autorais

O trabalho de Jéssica começa com uma conversa. O cliente não precisa chegar com uma imagem pronta: pode falar sobre uma fase da vida, uma lembrança ou elementos que aparentemente não têm conexão. Enquanto escuta, ela pesquisa referências e organiza mentalmente imagens capazes de traduzir aquela narrativa.

Jéssica considera esse processo uma cocriação. A pessoa participa da construção do significado, enquanto a tatuadora assume as decisões técnicas e estéticas. O objetivo é evitar soluções automáticas — como usar sempre uma pomba para representar paz — e chegar a algo menos previsível, mas que continue fazendo sentido para quem vai carregar o desenho.

A formação em Psicologia aparece nessa escuta. Jéssica ressalta que tatuagem não é terapia, mas pode ser terapêutica. Algumas pessoas procuram o desenho para marcar o encerramento de um ciclo; outras querem registrar o início de uma nova fase. Durante esse processo, clientes compartilham histórias que poucas pessoas conhecem.

Memórias do Brasil ganham espaço na pele

Atender imigrantes produz pedidos diferentes dos que Jéssica recebia no Brasil. A distância aumenta o desejo de registrar símbolos muito específicos da cidade ou da região de origem. Ela já tatuou o ET de Varginha abduzindo uma pessoa e até a caixa-d’água de Feira de Santana.

Esses desenhos podem parecer curiosos para quem vê de fora, mas carregam identificação imediata para quem conhece o lugar. A tatuagem funciona como memória visual e cria uma ligação com a cidade deixada para trás.

Uma tatuagem por dia e uma rotina pensada para evitar o burnout

Em Dublin, Jéssica abandonou o ritmo de dezenas de sessões concentradas em poucos dias. Ela costuma fazer uma tatuagem por dia, o que permite dedicar atenção integral à criação, à conversa e à execução. Quando o trabalho termina, muitas vezes continua conversando com o cliente.

A escolha também está ligada ao fato de estar no espectro autista. Jéssica explica que as interações podem ser ótimas e, ao mesmo tempo, provocar um cansaço social intenso. Para permanecer presente durante uma sessão de cinco horas, precisa preparar-se e reservar tempo de recuperação.

Por isso, viagens profissionais pela Europa deixaram de ser prioridade. Um estúdio com várias pessoas, clientes diferentes no mesmo dia e deslocamentos sucessivos exigiria um período longo antes e depois para que ela recuperasse a energia. Copiar o ritmo de outros profissionais, em vez de adaptar a agenda ao próprio funcionamento, levaria ao burnout.

Tatuagem dói? Quando é melhor dividir a sessão?

A percepção de dor varia de pessoa para pessoa e também depende da região do corpo. Como o estilo de Jéssica não costuma exigir áreas muito preenchidas, boa parte dos trabalhos é concluída sem sessões excessivamente longas. Quando estima duração superior a aproximadamente três horas e meia, ela prefere dividir o projeto.

Respirar normalmente e avisar quando a dor estiver intensa são orientações básicas. Em áreas como o pescoço, a dificuldade pode aumentar porque o cliente precisa ficar imóvel e tem menos maneiras de se distrair. Conversar ou assistir a algo durante trabalhos em braços e pernas ajuda algumas pessoas a tirar o foco da sensação.

Como escolher um tatuador e participar do desenho

Jéssica defende que o cliente não deve fazer uma tatuagem enquanto ainda estiver desconfortável com o desenho. Se a proposta não chegou ao resultado esperado, é melhor remarcar, revisar ou procurar outro profissional. A experiência técnica do tatuador importa, mas não elimina o direito de quem vai carregar a obra de pedir alterações ou desistir.

Ela conta o caso de uma cliente que queria acrescentar nariz e boca a uma figura. O tatuador anterior insistiu que o detalhe ficaria ruim, e a mulher saiu da sessão sentindo que sua opinião não tinha importância. Jéssica refez a proposta incluindo o elemento solicitado. Para ela, o profissional pode explicar limitações técnicas e até recusar um trabalho, mas não deve diminuir o cliente nem executar algo de má vontade.

A vida construída como tatuadora brasileira na Irlanda

Na época da entrevista, Jéssica vivia havia seis anos na Irlanda e tinha construído no país a maior parte de sua experiência profissional. Tatuagem foi o primeiro e único trabalho do qual dependeu de fato para viver. O que começou com desenhos publicados em um blog tornou-se uma carreira capaz de atravessar cidades e países.

Ela e o marido também haviam acabado de comprar uma casa e planejavam permanecer na Irlanda por mais oito a dez anos. No longo prazo, imaginavam um retorno à Bahia para morar no Vale do Capão, na Chapada Diamantina.

A trajetória de Jéssica Rodrigues mostra que trabalhar com tatuagem na Irlanda envolve muito mais do que domínio da máquina. Portfólio, idioma, escuta, respeito aos limites e uma rotina sustentável foram decisivos para que ela transformasse clientes conquistados pela internet em uma carreira sólida. Assista ao episódio completo no topo da página para acompanhar toda a conversa com Bolder.


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