Participar de uma missão de paz da ONU no Sudão do Sul exigiu que Marcel Sales Campelo reunisse experiência policial, domínio de idiomas e disposição para viver em um ambiente de conflito. Oficial da Polícia Militar do Tocantins, ele passou dois anos na Irlanda antes de se candidatar ao processo que o levou a trabalhar com a polícia das Nações Unidas.
No Bolder Podcast, Marcel explica a Bolder como funciona a seleção de policiais brasileiros, quais atividades eles desempenham, por que todos começam em patrulhamento e como conseguiu uma função de coordenação operacional. A conversa também traz situações vividas perto de Bentiu, onde a pobreza extrema e o deslocamento de famílias mudaram sua percepção sobre a missão.
Da Polícia Militar do Tocantins para a Irlanda
Marcel nasceu no Piauí e cresceu no Tocantins. A carreira militar já fazia parte da família: o avô foi tenente, o pai serviu como enfermeiro no Exército e outros parentes seguiram áreas semelhantes.
Ele prestou concurso em 2003 e passou três anos na Academia de Polícia Militar do Tocantins. Em 2017, já como major, decidiu fazer uma pausa e mudar-se para a Irlanda. O objetivo principal era melhorar o inglês, que havia se tornado uma barreira para certificações e projetos profissionais.
Na Irlanda, estudava pela manhã e trabalhava à noite em segurança privada. Passou por pubs, festas, hotéis e eventos. O contato constante com o público acelerou o aprendizado: precisava compreender situações tensas e comunicar limites com clareza.
Como um policial brasileiro entra em uma missão da ONU?
Ao retornar ao Brasil em 2019, Marcel começou a pesquisar a seleção. Policiais militares interessados se apresentam como voluntários e precisam cumprir exigências profissionais. As corporações encaminham nomes, e o Exército Brasileiro participa da avaliação em conjunto com a ONU.
Segundo Marcel, o processo inclui prova de idiomas e avaliações de aptidão. Os aprovados podem ser designados conforme as vagas das missões e a manifestação de interesse. Ele se voluntariou especificamente para o Sudão do Sul.
Durante a missão, Marcel continuou vinculado à Polícia Militar do Tocantins e colocado à disposição da ONU. Ele recebia o salário brasileiro e uma verba adicional da organização. Embora reconheça o incentivo financeiro, diz que as principais motivações eram a experiência profissional e a possibilidade de contribuir com uma operação internacional.
Qual é o trabalho da polícia da ONU no Sudão do Sul?
A polícia da ONU não substitui integralmente a polícia sul-sudanesa. Marcel explica que a atuação envolve monitoramento, orientação e apoio para desenvolver capacidade institucional. O objetivo é apresentar práticas de policiamento, direitos humanos, planejamento e procedimentos utilizados em outros países.
Quem chega normalmente começa no patrulhamento. As equipes observam áreas de responsabilidade, mantêm contato com comunidades e acompanham o trabalho local. Diferentemente de missões com mandato executivo, os policiais internacionais não assumem automaticamente todas as funções de prevenção e investigação.


Sem hierarquia automática entre as patentes
Uma particularidade descrita por Marcel é que a patente do país de origem não determina automaticamente a posição dentro da missão. Policiais de diferentes nações chegam como integrantes da mesma estrutura internacional e podem se candidatar às vagas internas.
Marcel buscou funções ligadas ao seu histórico de operações. No Brasil, havia trabalhado na rua, em central de atendimento e em planejamento operacional. Depois de candidaturas e entrevistas em inglês, passou a atuar como coordenador de operações, mantendo contato com dez unidades espalhadas pelo país.
Ele também comenta que mulheres realizam as mesmas funções operacionais e que a missão incentivava sua participação em posições de supervisão. A seleção interna considera competências, experiência e desempenho nas entrevistas.
O impacto da pobreza extrema em Bentiu
Depois do treinamento inicial, Marcel foi enviado para Bentiu, aproximadamente 700 quilômetros ao norte da capital. O deslocamento era feito em aeronaves da ONU porque estradas e alagamentos dificultavam a circulação.
Perto da base havia uma área com cerca de 130 mil pessoas deslocadas internamente, segundo os números citados por ele no episódio. Patrulhas acompanhavam a zona de proteção ao redor do local.
Marcel recorda especialmente um adolescente chamado James, de 13 ou 14 anos. Durante uma conversa, percebeu que a família não tinha comida. Ele e colegas entregaram água, cereal e chocolate. O gesto era pequeno diante do problema, mas tornou concreta uma realidade que até então aparecia apenas em relatórios.
Conflitos, deslocamentos e abastecimento
O Sudão do Sul tornou-se independente em 2011, mas continuou convivendo com disputas políticas, conflitos entre comunidades e instituições frágeis. Marcel relata que roubo de gado pode desencadear confrontos violentos entre grupos e que mecanismos tradicionais ainda convivem com o sistema formal de justiça.
O conflito iniciado no Sudão em 2023 também teve reflexos do outro lado da fronteira. Produtos e medicamentos que chegavam pelo norte ficaram mais caros ou escassos. Além disso, o fluxo de pessoas se inverteu: sul-sudaneses que viviam no Sudão e refugiados de outras origens começaram a atravessar para o Sudão do Sul.
Os números mencionados no podcast retratam aquele momento e não devem ser tratados como estatística atual. Situações de conflito mudam rapidamente; dados recentes devem ser verificados em fontes como a UNMISS e o ACNUR.
Rotina dentro da base da ONU
A missão não seguia uma semana convencional. Marcel explica que os integrantes trabalhavam de segunda a segunda e acumulavam dias de descanso conforme uma fórmula da organização. Para sair do país ou visitar a família, era necessário organizar períodos específicos.
No Sudão do Sul, o pessoal vivia em bases da ONU, diferentemente de operações onde é permitido morar na cidade. Isso cria segurança, mas também aumenta o isolamento. Conviver com as mesmas pessoas no trabalho e no alojamento exige preparação mental, rotina de exercícios e formas de manter contato com a família.
Inglês e francês fazem diferença na missão?
O inglês foi essencial em todas as etapas: prova, entrevistas, treinamentos, relatórios e coordenação com profissionais de várias nacionalidades. Marcel associa diretamente os dois anos vividos na Irlanda à capacidade de competir pelas vagas internas.
O francês também pode ampliar oportunidades porque muitas missões estão em países francófonos. No entanto, o idioma exigido depende do destino e da função. Mais do que decorar vocabulário, o candidato precisa demonstrar compreensão, clareza e capacidade de tomar decisões sob pressão.
Perguntas frequentes sobre missões de paz da ONU
Qualquer policial pode se candidatar?
Existem processos seletivos e requisitos definidos pelas instituições brasileiras e pela ONU. A experiência de Marcel descreve o caminho dele; regras, vagas e cronogramas devem ser confirmados com a corporação e os órgãos responsáveis.
O policial perde a patente durante a missão?
Não perde a patente no Brasil, mas ela não garante automaticamente autoridade sobre profissionais de outros países. As funções internas da missão têm estrutura própria e podem exigir candidatura e entrevista.
A ONU faz o policiamento no lugar do governo local?
Depende do mandato de cada operação. No caso relatado por Marcel, a polícia local mantinha a responsabilidade executiva, enquanto a UNPOL atuava com monitoramento, orientação e desenvolvimento de capacidade.
O que a experiência na Irlanda mudou
A passagem de Marcel pela Irlanda parecia, inicialmente, uma pausa para estudar inglês. Na prática, ela o preparou para lidar com público, trabalhar em outro idioma e transformar experiência policial brasileira em um perfil compreensível para uma organização internacional.
Na missão de paz da ONU no Sudão do Sul, essa preparação abriu caminho do patrulhamento à coordenação operacional. O episódio completo mostra como seleção, rotina e impacto humano se conectam em uma missão que exige muito mais do que formação militar.
