Para a professora de inglês irlandesa Aisling Kennedy, morar na Irlanda não garante que um brasileiro aprenderá inglês. É possível estudar, trabalhar, dividir casa e até frequentar restaurantes sem sair do português, especialmente em Dublin, onde a comunidade brasileira está presente em praticamente todos os setores.
No Bolder Podcast, Aisling conversa em português com Fillipe sobre sotaque irlandês, medo de errar, inglês escolar e integração. Ela também conta como aprendeu português, por que deixou a Irlanda para viver na Espanha e como usa a própria insegurança com outro idioma para compreender seus alunos brasileiros.
Uma irlandesa que ensina inglês para brasileiros
Aisling dá aulas de inglês principalmente para brasileiros que vivem na Irlanda. Na época da entrevista, praticamente todos os alunos eram brasileiros, embora ela já tivesse trabalhado também com estudantes espanhóis.
A situação parece contraditória: por que alguém se muda para um país de língua inglesa e ainda procura aulas particulares? A resposta está na diferença entre estar exposto ao idioma e realmente usá-lo. Muitos alunos estudam em uma escola, mas convivem com brasileiros em casa e no trabalho.
Uma estudante chegou a receber de Aisling a tarefa de pedir uma refeição em inglês. Quando foi ao restaurante, o garçom percebeu que ela era brasileira e começou a conversar em português. O episódio resume como pode ser difícil criar situações reais de prática em Dublin.
O inglês da escola não é o inglês da rua
A escola oferece estrutura, gramática e vocabulário, mas a conversa cotidiana traz velocidade, sotaques, redução de sons, expressões locais e phrasal verbs. Uma pessoa pode concluir níveis intermediários sem compreender um motorista de ônibus ou uma conversa rápida entre colegas.
Na Irlanda, a dificuldade aumenta porque os sotaques mudam em distâncias pequenas. O inglês falado no norte e no sul de Dublin já apresenta diferenças, e outras regiões têm pronúncias próprias. Até Aisling, que nasceu em Dublin, encontra pessoas que precisa se esforçar para entender.
Isso não significa que o aluno “não sabe inglês”. Significa que compreensão oral exige contato variado. Filmes, aulas e aplicativos ajudam, mas não substituem a experiência de conversar com pessoas reais em diferentes contextos.
Como Aisling começou a aprender português?
O interesse por idiomas começou na escola secundária. Aisling escolheu espanhol entre as línguas oferecidas e teve uma professora apaixonada pela Espanha. O entusiasmo da educadora fez com que a matéria se tornasse mais do que uma obrigação escolar.
Na universidade, estudou Administração com Espanhol e passou um ano no País Basco. Queria fazer a experiência na Argentina, mas não teve coragem de viajar sozinha para tão longe quando os colegas preferiam destinos europeus.
O português entrou em sua vida por meio dos brasileiros na Irlanda. Quanto mais ouvia, mais compreendia, embora falasse bastante “portunhol” no começo. Depois, o relacionamento com um mineiro acrescentou expressões regionais ao vocabulário — inclusive o famoso “trem”, que inicialmente ela interpretou como veículo.
Aprender repetindo antes de entender a gramática
Aisling nunca fez um curso formal de português. Ela se descreve como um “papagaio”: escuta uma frase, guarda a estrutura e a repete quando aparece a oportunidade adequada. Assim, aprendeu construções completas antes de saber explicar cada conjugação.
Essa estratégia funciona bem na comunicação oral, mas cria limitações na escrita e em situações profissionais. Para mensagens mais formais, ela recorre ao corretor do celular ou pede ajuda. Também mistura espanhol e português, especialmente quando uma palavra parece existir nos dois idiomas.
A própria experiência reforça uma ideia central do episódio: falar imperfeitamente é parte do processo. Esperar domínio completo da gramática antes da primeira conversa apenas prolonga o bloqueio.
Por que falantes nativos de inglês estudam menos idiomas?
Aisling considera que quem nasce falando inglês tem uma desvantagem disfarçada. O idioma é usado internacionalmente, então irlandeses, britânicos e norte-americanos conseguem viajar sem desenvolver outra língua. Isso reduz a pressão prática para estudar.
Já um brasileiro que pretende circular pelo mundo percebe rapidamente a utilidade do inglês. Em muitos países, não encontrará alguém que fale português. Essa necessidade estimula o aprendizado, ainda que também gere ansiedade e comparações injustas.
Por isso, Aisling pede que brasileiros parem de se desculpar pelo próprio inglês. A pessoa está construindo comunicação em uma segunda língua, enquanto muitos nativos nunca enfrentaram esse desafio.
A relação dos irlandeses com a língua irlandesa
Fillipe pergunta também sobre o irlandês, ou Gaeilge. Aisling estudou a língua na escola, mas não a levou tão a sério porque acreditava que deixaria de usá-la depois da formação. Ela lembra que o idioma continua presente em placas, rádio, televisão, comunidades de língua irlandesa e determinadas funções públicas.
Hoje, gostaria de lembrar mais do que aprendeu. A conversa mostra como uma língua pode fazer parte da identidade nacional sem ocupar a rotina da maioria das pessoas — e como a falta de uso também enfraquece o que foi estudado por anos.
Da pandemia à viagem de motorhome
Aisling voltou de uma viagem à Austrália no início de março de 2020. Pretendia organizar a vida e retornar, mas as fronteiras fecharam pouco depois. Passou quase dois anos na casa dos pais, trabalhando remotamente e esperando a situação mudar.
Nesse período, conheceu o namorado brasileiro, que tinha o projeto de transformar uma van em motorhome. Os dois compraram o veículo, construíram a pequena casa sobre rodas e deixaram a Irlanda em dezembro, procurando o clima mais quente do sul europeu.
Viajaram pela França e pela Espanha e acabaram se estabelecendo em território espanhol. A van continuou com o casal para viagens de fim de semana, enquanto a residência fixa trouxe uma rotina mais estável.
Por que tantos irlandeses deixam a Irlanda?
Aisling lembra que, durante parte dos seus 20 anos, grande parte dos amigos vivia fora: Austrália, Canadá, Estados Unidos e outros destinos. Alguns começaram a retornar ao ter filhos e desejar proximidade com a família.
A Austrália atrai pelo inglês, clima e remuneração, mas fica distante da Irlanda. Já a Espanha permite viagens rápidas e relativamente baratas para visitar parentes. A escolha de Aisling combina o desejo de morar fora com a possibilidade de voltar com frequência.
O que uma irlandesa achou do Brasil?
Aisling visitou Minas Gerais, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e praias de São Paulo. Cabo Frio ficou entre os lugares preferidos pela beleza do mar e pela energia das pessoas. Ela relata conversas espontâneas com desconhecidos e uma sensação de acolhimento semelhante à que brasileiros atribuem aos irlandeses.
A culinária também ganhou destaque. Aisling gostou de parmegiana, churrasco, salgados, doces e da tendência brasileira de adicionar ingredientes a pratos estrangeiros. O sushi com muito cream cheese dividiu opiniões, assim como as pizzas carregadas de cobertura.
Ela considera a possibilidade de passar temporadas no Brasil durante o inverno europeu, mas valoriza a liberdade de caminhar sozinha e a sensação de segurança que encontra na Europa. Reconhece, porém, que sua impressão sobre insegurança brasileira também foi influenciada pelos relatos que ouviu.
Como vencer a vergonha de falar inglês?
Aisling entende o bloqueio porque viveu algo parecido em português. No começo, ficava desconfortável quando alguém anunciava ao grupo que ela entendia a língua. Todos olhavam e esperavam que falasse, aumentando a pressão.
Gravar vídeos na rua foi uma forma de enfrentar essa timidez. A proposta de abordar brasileiros e testar palavras em inglês desafiava tanto os participantes quanto a professora. O primeiro vídeo foi gravado com nervosismo, pausas e dificuldade para organizar as frases em português.
- Faça perguntas simples no trabalho e continue a conversa.
- Comente sobre o tempo, assunto comum na Irlanda.
- Troque mensagens por ligações quando for possível.
- Assista a conteúdos com áudio e legenda em inglês.
- Não compare o início da sua jornada com alguém que vive no país há dez anos.
- Busque situações em que o português não seja uma opção.
- Aceite que alguns erros continuarão acontecendo.
Erros comuns de brasileiros em inglês
Muitos erros surgem da tradução literal. Em português, dizemos que “tem um copo na mesa”; em inglês, a construção natural usa there is. Para falar a idade, brasileiros tentam reproduzir o verbo “ter”, enquanto o inglês utiliza o verbo to be.
Aisling também observa que o ensino brasileiro costuma dedicar muito tempo ao verbo to be e à gramática, mas nem sempre cria espaço para conversação. O aluno reconhece regras no exercício e trava quando alguém formula a mesma ideia com sotaque, gíria ou velocidade natural.
Inglês irlandês e inglês americano
As diferenças aparecem na pronúncia e no vocabulário. O inglês americano frequentemente transforma o som de “t” em palavras como water, enquanto Aisling pronuncia o som com mais clareza. Na Irlanda, footpath é uma palavra comum para calçada; nos Estados Unidos, o habitual é sidewalk.
Brasileiros costumam considerar o sotaque americano mais fácil porque cresceram expostos a filmes, séries e músicas dos Estados Unidos. Isso não torna uma variante mais correta. Familiaridade é o que facilita a compreensão.
O ideal para quem vive na Irlanda é incluir vozes irlandesas na rotina. Uma professora local consegue explicar expressões e sons da região, mas nem mesmo um nativo conhece todas as gírias usadas nos diferentes países de língua inglesa.
Como fazer amizade e praticar inglês na Irlanda?
A recomendação de Aisling é procurar grupos baseados em interesses, não apenas encontros genéricos para “praticar inglês”. Há comunidades de corrida, ciclismo, natação, café, videogame e inúmeros hobbies. Sites de eventos e redes sociais ajudam a localizar essas atividades.
Ter um interesse compartilhado resolve o primeiro problema da conversa: já existe um assunto. Também reduz a solidão de quem trabalha em horários diferentes dos amigos e oferece contato com pessoas de várias nacionalidades.
Aprender inglês é construir uma vida mais independente
O inglês não serve apenas para conseguir um emprego melhor. Ele permite conversar com o vizinho, entender um contrato, explicar um problema, fazer amizades e defender os próprios direitos. Para quem deseja chamar a Irlanda de casa, essa autonomia faz parte da integração.
A conversa com Aisling mostra que o medo não desaparece antes da prática; ele diminui por causa dela. Assista ao episódio completo para acompanhar as diferenças de sotaque, os exemplos de tradução e a trajetória da professora entre Irlanda, Brasil e Espanha.
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