Designer na Irlanda: a carreira de Beatriz Busnello

Trabalhar como designer na Irlanda exigiu que Beatriz Busnello enfrentasse duas barreiras: a insegurança com o inglês e a dificuldade de apresentar um perfil multidisciplinar em um mercado que costuma contratar especialistas. Hoje, ela atua como multimedia designer, combinando design gráfico, animação, 3D, vídeo e produção visual de eventos.

No Bolder Podcast, Bia conta como saiu do mercado brasileiro, trabalhou em uma hamburgueria para destravar o idioma e voltou à profissão depois de sofrer um assalto. A maior parte da conversa mostra os bastidores de um projeto incomum: a experiência de Natal de um grande shopping de Dublin, pensada para incluir crianças neurodivergentes e famílias com necessidades específicas.

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Da sala de aula ao design profissional

Bia começou a carreira em Jundiaí, no interior de São Paulo. Trabalhava como professora em uma escola ligada a um diretor de arte de uma afiliada da Globo e ensinava cerca de 12 softwares. Parte dos exercícios desenvolvidos com os alunos tinha aplicação em trabalhos para televisão.

Depois de três anos ensinando, decidiu testar a profissão fora da sala de aula. Já dominava design gráfico, edição, animação e modelagem, mas queria criar projetos para clientes. A mudança para a Irlanda surgiu quando começou a namorar e descobriu que o cunhado já vivia no país.

Os primeiros trabalhos com brasileiros na Irlanda

Antes mesmo de embarcar, Bia entrou em contato com Marião e ofereceu ajuda para produzir capas de vídeos. Não cobrou pelo primeiro trabalho; queria abrir uma conversa quando chegasse. A iniciativa virou uma colaboração que durou aproximadamente um ano e meio e depois continuou em uma agência.

Também trabalhou com o Sampa Food e outros negócios da comunidade brasileira. Essas oportunidades garantiram renda e portfólio, mas mantinham Bia em português. Depois de cerca de dois anos no país, ela ainda tinha vergonha de falar inglês e ser ridicularizada pelo sotaque.

Mais tarde, percebeu que os colegas irlandeses não esperavam uma pronúncia perfeita. Em seu primeiro dia na agência atual, ouviu que não deveria se envergonhar: ela era a única pessoa da equipe que conseguia trabalhar em duas línguas.

Por que ela foi trabalhar em uma hamburgueria?

Durante a pandemia, Bia estudou e decidiu que precisava sair da zona de conforto. Cansada da rotina informal de atender negócios brasileiros, entrou em uma hamburgueria para ter contato direto com clientes e colegas que falavam inglês.

Começou na chapa, passou para o atendimento e, em quatro ou cinco meses, tornou-se assistente de gerente. As filas e os pedidos não deixavam tempo para revisar mentalmente cada frase. Foi assim que perdeu o medo de falar, ainda que o trabalho fosse pesado e terminasse tarde.

A progressão trouxe reuniões, planilhas e responsabilidades novas. Ao mesmo tempo, os horários dificultavam a vida familiar: o marido trabalhava pela manhã, Bia à noite e o filho, que havia chegado à Irlanda, passava pouco tempo com ela.

O assalto que mudou os planos

Em uma noite, o gerente pediu que Bia levasse o computador pessoal para um treinamento. Ao deixar o trabalho por volta das 23h30, percebeu um homem de capuz no ponto de ônibus. Quando passou por ele com a bicicleta, alguém puxou sua mochila.

A bicicleta caiu entre suas pernas, impedindo que simplesmente soltasse a bolsa. Um carro se aproximou e Bia pensou que receberia ajuda, mas dele saiu outro agressor. Ela foi atingida com spray de pimenta no rosto e recebeu um chute na costela. Os homens levaram a mochila com computador e documentos, mas deixaram celular, relógio, fones e bicicleta.

Uma motorista irlandesa parou e chamou a Garda. Segundo Bia, os policiais chegaram rapidamente e o investigador manteve contato nos dias seguintes. O restaurante também ofereceu apoio, repôs equipamentos, pagou táxi e concedeu alguns dias de afastamento.

Fisicamente, ela ficou com hematomas e irritação causada pelo spray. Emocionalmente, não queria voltar ao trabalho. O marido a incentivou a não deixar o medo determinar o próximo passo. Bia decidiu usar aquele momento para retomar o design.

Como adaptar um currículo de design para a Irlanda?

No Brasil, Bia estava acostumada a currículos coloridos e muito visuais. Montou uma versão em amarelo e roxo, com indicadores gráficos de domínio dos programas, e enviou aproximadamente 100 candidaturas sem resultado.

O amigo Bruno Pinheiro analisou o documento e explicou que aquele formato não funcionava bem no mercado local. Depois da mudança, as entrevistas começaram. Uma delas foi para edição de vídeo em uma emissora, mas a velocidade e o vocabulário da conversa deixaram claro que o inglês técnico ainda precisava melhorar.

  • Adapte o currículo ao mercado local, não apenas traduza a versão brasileira.
  • Mantenha um portfólio com trabalhos completos e fáceis de entender.
  • Liste ferramentas que realmente consegue usar.
  • Prepare-se para explicar decisões de projeto em inglês.
  • Participe de meetups e converse com profissionais da área.
  • Observe se a vaga busca um generalista ou um especialista.

Generalista ou especialista?

Bia domina 17 softwares e consegue participar de várias etapas: identidade visual, vídeo, animação, personagens e 3D. Esse perfil multidisciplinar foi importante na empresa atual. Porém, em uma entrevista para um estúdio de animação, ouviu que precisava se especializar.

No 3D, por exemplo, uma empresa pode contratar profissionais diferentes para modelagem, textura, iluminação e movimento. Saber um pouco de tudo abre certas vagas, mas pode dificultar o acesso a equipes grandes que procuram domínio profundo de uma etapa. A estratégia depende do tipo de empresa desejado.

A contratação em uma agência de mídia e eventos

Depois de várias tentativas, Bia recebeu uma mensagem pelo LinkedIn em um domingo e suspeitou que fosse golpe. Na segunda-feira, o recrutador telefonou e marcou uma entrevista presencial. A empresa trabalhava com telas, mapas interativos de shopping, quiosques digitais e campanhas visuais.

O inglês e os diferentes sotaques ainda causavam insegurança, mas a variedade de competências chamou atenção. A agência começava a ampliar sua atuação em eventos e precisava de alguém capaz de transformar uma ideia em visual, animação, personagens e materiais de comunicação.

Três dias para criar a casa do Papai Noel

Um dos primeiros grandes testes foi desenvolver, em três dias, a proposta estética da experiência de Natal do Blanchardstown Centre. Bia criou a maquete em 3D, trabalhou fachadas, janelas, interiores e materiais e apresentou o conceito ao cliente.

O projeto exigia detalhes que não aparecem numa imagem bonita. A neve artificial, por exemplo, precisava ser segura caso uma criança a colocasse na boca. Móveis não poderiam ter quinas perigosas. Personagens de pelúcia precisavam passar por certificações adequadas e suportar o uso infantil.

Bia também criou mascotes em 3D, como um pequeno Papai Noel e uma rena, que depois foram produzidos em grande escala. Escreveu e ilustrou uma história na qual uma menina ajuda a rena a salvar o Natal. No ciclo seguinte, o projeto ganharia um boneco de neve e novos elementos.

De fotógrafa a responsável pela experiência

No primeiro ano, Bia atuou principalmente como fotógrafa e percebeu falhas. O atendimento priorizava velocidade, e algumas famílias tinham pouco tempo com o Papai Noel. Havia reclamações sobre atores pouco acolhedores, barbas, fotos e sensação de pressa.

No ano seguinte, o chefe entregou a operação a Bia: se desse errado, a responsabilidade seria dela. Ela revisou a jornada desde a fila até a saída, treinou a equipe, selecionou os Papais Noéis e criou atividades para ocupar as crianças sem transformar o encontro em uma linha de produção.

Um Natal pensado para crianças neurodivergentes

A principal mudança foi abrir horários dedicados a crianças neurodivergentes e pessoas com outras necessidades. Às segundas e terças, luzes e música eram reduzidas, a agenda tinha mais espaço e Papais Noéis com treinamento específico assumiam o atendimento.

Uma criança podia passar 20 minutos preparando “comida de rena” antes de entrar. Para ajudar nas fotografias, a equipe perguntava aos responsáveis qual era o hiperfoco da criança e usava um desenho ou objeto conhecido perto da câmera. Uma família disse que aquela havia sido a primeira foto em que o filho olhou diretamente para a lente.

A procura cresceu por indicação. Escolas passaram a levar turmas, e o evento recebeu pessoas com deficiência visual, crianças que usavam língua de sinais, pacientes recém-saídos do hospital e moradores de instituições para idosos.

Cuidados que vão além da decoração

Os atores recebiam orientação sobre contato físico, consentimento dos responsáveis e proteção infantil. A criança não sentava diretamente no colo; a posição era ajustada para a foto, e um elfo permanecia presente. A equipe também precisava saber o que não dizer em situações delicadas.

Bia lembra de uma menina com doença terminal que visitou o evento entre períodos no hospital. Depois que a família saiu, o Papai Noel precisou de alguns minutos para se recompor. A operação foi pausada sem expor o motivo, e as famílias na fila receberam explicações e vouchers.

Para Bia, essa experiência resume a função do projeto: não é apenas vender foto ou distribuir um brinde, mas criar uma memória respeitosa para cada família.

A participação dos brasileiros no evento

Bia defendeu que a campanha incluísse criadores de conteúdo em outros idiomas. Escolheu Ana Nigro para o primeiro teste em português. Segundo ela, mais de uma centena de famílias chegaram ao evento a partir daquela divulgação. O resultado abriu espaço para influenciadores poloneses, romenos e de outras comunidades.

Em uma edição, aproximadamente 70% da equipe era brasileira. O shopping terminou a temporada sem reclamações, e os responsáveis elogiaram a iniciativa e a disposição do grupo. Para Bia, fazer um bom trabalho também modifica a percepção sobre profissionais brasileiros no país.

Maternidade, distância e adaptação do filho

Bia engravidou aos 17 anos e teve o filho, Gu, aos 18. Os pais ajudaram para que ela concluísse os estudos e construísse uma carreira. Quando se mudou para a Irlanda, Gu permaneceu no Brasil por cerca de um ano e meio, período que coincidiu com a pandemia.

A distância significou acompanhar aniversário, escola e mudanças pela tela. Depois que a cidadania italiana foi concluída, Gu também recebeu a documentação e pôde morar com a mãe. Chegou entre 11 e 12 anos e enfrentou, ao mesmo tempo, uma nova casa, uma escola em inglês e a convivência diária com o padrasto.

A escola ofereceu apoio adicional de idioma, e a adaptação foi rápida. No primeiro ano, Gu recebeu um reconhecimento em Matemática. Mais tarde passou a estudar francês e irlandês, interessou-se por japonês e começou a considerar uma carreira em artes, cinema, design ou animação.

Durante o Natal, ele também trabalha como elfo. Para Bia, ver o filho participar de um projeto que une desenho, tecnologia e atendimento às crianças aproxima família e carreira.

O que a trajetória de Beatriz ensina?

A história de Bia não segue uma linha reta. Ela começou na área, afastou-se, trabalhou em atendimento, viveu uma situação de violência e voltou com outra perspectiva. O emprego atual surgiu quando currículo, portfólio, inglês e capacidade multidisciplinar finalmente se encontraram.

O projeto de Natal mostra ainda que design não termina na tela. Uma decisão visual interfere em segurança, acessibilidade, operação, treinamento, custo e memória afetiva. Assista ao episódio completo para conhecer os bastidores e os relatos de Bia diretamente no Bolder Podcast.