Criar um podcast na Irlanda envolve muito mais do que colocar dois microfones sobre a mesa. Thales Andrade, apresentador do Talkeando Podcast, conversa com Bolder sobre os bastidores de um projeto que começou em casa, ganhou equipe e passou a operar em um estúdio próprio no centro de Dublin.
O episódio aborda custos, patrocinadores, escolha de convidados, gravações em viagem e a dificuldade de conciliar o canal com um emprego regular. Thales também fala sobre a própria trajetória migratória, a mudança de permissão de trabalho e por que a cidadania irlandesa representa, para ele, uma conquista maior do que casa ou dinheiro.
O Talkeando nasceu como conteúdo e virou negócio
Na época da conversa, Thales estava há cerca de quatro anos produzindo o Talkeando. O canal havia ultrapassado 3.600 inscritos no YouTube e acumulava centenas de entrevistas. Esse histórico mudou sua vida não apenas pela audiência, mas pelas pessoas que conheceu e pelas oportunidades que surgiram a partir das conversas.
Ele destaca que a gravação é apenas a parte visível. Há agenda, pesquisa, produção, edição, divulgação, relacionamento com patrocinadores, controle de custos e coordenação da equipe. Comprar câmeras e microfones não resolve o ponto mais difícil: transformar o conteúdo em uma operação financeiramente viável.
Como manter um podcast financeiramente viável
Thales trata o podcast como uma empresa. Equipamentos, aluguel, produção e pessoas geram despesas, enquanto a receita pode vir de patrocínio, apoio do público e serviços ligados ao estúdio. Quando um patrocinador encerra o contrato, a perda não é apenas emocional: ela afeta diretamente o planejamento da operação.
O projeto também precisa evitar dependência excessiva de uma única marca. Na conversa, Bolder e Thales comentam como patrocinadores observam outros canais e como a existência de mais produtores pode fortalecer o mercado, em vez de criar uma rivalidade automática entre podcasts brasileiros na Irlanda.
Podcast não é hobby quando existe folha de pagamento
Ao incorporar profissionais de audiovisual e marketing, Thales precisou aprender a liderar, distribuir responsabilidades e criar uma cultura de trabalho. Mesmo quando o retorno não é imediatamente financeiro, ele procura oferecer experiência, portfólio e networking para quem participa da equipe.
A meta é reinvestir o que entra no próprio projeto. Isso explica por que propostas vagas de “parceria” nem sempre são possíveis: produção, operação e tempo têm custo. Para Thales, uma boa ideia ainda precisa de orçamento e de uma divisão clara de responsabilidades.
Do estúdio em casa a uma sala no centro de Dublin
Durante aproximadamente três anos, o Talkeando foi gravado dentro de casa. Esse formato serviu para validar a ideia e reduzir o investimento inicial, mas começou a limitar o crescimento. Thales dividia o imóvel com outras pessoas, precisava adaptar a rotina doméstica e convivia com a possibilidade de o proprietário pedir a casa.
O projeto já recebia convidados, reuniões e sugestões de novos quadros. Em determinado ponto, a dinâmica deixou de caber em uma sala compartilhada. Barulho, conta de energia, circulação dos moradores e falta de privacidade mostraram que era hora de separar casa e trabalho.
Em novembro, a equipe alugou uma sala no centro de Dublin. A localização facilita a chegada dos convidados e permite que cada gravação termine sem transformar a casa de ninguém em espaço de produção. O ambiente também passou a transmitir mais profissionalismo.
Aluguel do estúdio ajuda a pagar a estrutura
Como os episódios regulares eram gravados às terças e quintas, o estúdio ficava disponível em outros horários. A equipe começou a alugá-lo para podcasts, cursos e produções audiovisuais, com equipamentos e operador incluídos. A renda ajuda a sustentar a estrutura e financiar o crescimento do Talkeando.
Thales deixa clara a diferença entre emprestar uma sala e oferecer um serviço profissional. Quem chega com o próprio convidado encontra iluminação, câmeras, áudio e suporte técnico prontos, reduzindo a barreira para gravar um programa com qualidade.
É preciso equipamento caro para começar um podcast?
A experiência de Thales indica que não. Ele começou usando iPhone e ainda recorre a equipamentos compactos quando grava fora do estúdio. Em viagens ao Brasil e a Portugal, percebeu que câmeras, tripés e cabos aumentavam o volume da bagagem e chamavam atenção nos aeroportos.
Depois, simplificou o conjunto: celulares, microfones de lapela, uma pequena luz e, quando necessário, uma câmera. Na Polônia, gravou uma entrevista com Carol Capel usando uma estrutura reduzida. A lição é prática: uma solução leve que permite gravar pode valer mais do que esperar o equipamento ideal.
Como escolher convidados para um podcast
Thales usa uma espécie de “teste de afinidade” antes de convidar alguém. Como o programa começou dentro de casa, confiança e educação sempre foram essenciais. Ele também aprendeu a reconhecer quando uma pessoa procura apenas divulgação, embora isso não seja automaticamente um problema.
Para ele, a história precisa continuar no centro da entrevista. Um empreendedor pode falar da empresa, desde que exista uma trajetória capaz de sustentar a conversa. A maneira de abordar o canal também conta: mensagens que apresentam quem é a pessoa e por que o tema interessa funcionam melhor do que pedidos de consultoria ou convites feitos sem contexto.
O convidado que responde pouco é o maior desafio
Uma entrevista pode travar quando todas as respostas terminam em poucas palavras. Thales tenta criar um ambiente descontraído antes da gravação e deixa a conversa livre, mas o apresentador ainda precisa ouvir, formular a próxima pergunta e reagir quando surge um silêncio inesperado.
Os bastidores também exigem concentração. Uma notícia pessoal difícil ou o cancelamento de um patrocínio pode chegar minutos antes do programa. O convidado não tem relação com o problema, então o apresentador precisa reorganizar a cabeça e conduzir o episódio.
Conciliar podcast e emprego é como ter dois trabalhos
Thales não descreve o Talkeando como um passatempo. Ele mantém outro emprego e organiza as gravações depois do expediente. Em dias de episódio, vai ao estúdio, grava, conversa com a equipe e ainda enfrenta o deslocamento até casa. Naquele período, estimava dormir em torno de seis horas por noite.
As quartas e sextas de trabalho remoto ajudavam a compensar as noites de terça e quinta. Mesmo assim, academia, tarefas de casa, relacionamento e descanso competiam pelo mesmo tempo. Essa carga explica por que muitos podcasts começam e desaparecem: constância depende de organização e de aceitar que a produção continuará depois que os microfones forem desligados.
Stamp 4 e o objetivo da cidadania irlandesa
Na parte pessoal da conversa, Thales comenta que estava perto de completar sete anos na Irlanda e fazia a transição do Stamp 1 para o Stamp 4. Essa mudança reduziria a dependência de um empregador específico. A cidadania irlandesa ainda aparecia como o passo seguinte e como o “topo” de sua trajetória migratória.
Para ele, uma casa pode ser vendida, perdida ou destruída, e o dinheiro pode ir embora. Já a cidadania cria um direito duradouro para sua vida e para a geração seguinte. A compra da casa, realizada com grande apoio de sua companheira Laí, trouxe conforto e estabilidade; ainda assim, ele coloca o pertencimento legal ao país em outra categoria.
Ser podcaster na Irlanda vale a pena?
O Talkeando abriu portas, ampliou a rede de contatos de Thales e registrou histórias da imigração brasileira. Também exigiu investimento, noites curtas, negociação comercial e decisões difíceis sobre convidados e equipe. O retorno não se resume a visualizações: existe valor no portfólio, nas relações criadas e na memória que os episódios deixam.
O episódio com Bolder mostra como um podcast na Irlanda pode crescer de uma gravação doméstica para um pequeno negócio audiovisual. A mudança aconteceu em etapas: começar com o que havia disponível, validar a audiência, montar uma equipe, separar o estúdio da casa e criar novas fontes de receita. Assista à conversa completa para conhecer os perrengues de viagem, as histórias de convidados e as reflexões de Thales sobre viver fora do Brasil.
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