Advogada brasileira na Irlanda: carreira jurídica e imigração | Taise Azevedo

É possível trabalhar como advogada brasileira na Irlanda sem abandonar toda a experiência construída no Brasil? Neste episódio, Taise Azevedo volta ao Bolder Podcast para explicar como entrou no mercado jurídico irlandês, tornou-se solicitor e passou a atuar com imigração. A conversa também trata de Stamp 1G, permissões de trabalho, naturalização e mudanças trazidas pelo Employment Permits Act 2024.

O episódio foi gravado em 2024, justamente quando várias regras estavam mudando. Por isso, este artigo preserva a explicação dada por Taise e sinaliza o que já foi regulamentado ou atualizado pelos órgãos oficiais.

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Como Taise se tornou solicitor na Irlanda

Taise e sua sócia estiveram entre as primeiras brasileiras a concluir a transferência de qualificação e entrar no registro de solicitors irlandeses. Na época, o caminho usado por elas passava por Portugal: um acordo de reciprocidade permitia que advogados brasileiros se inscrevessem na Ordem dos Advogados portuguesa por via administrativa e, depois, fizessem o processo de transferência para a Irlanda.

Esse acordo entre Brasil e Portugal foi encerrado. Quem já havia obtido a inscrição preservou o direito adquirido, mas novos candidatos não podem repetir o mesmo procedimento simplificado. Taise deixa claro, porém, que o fechamento dessa rota não encerrou as possibilidades de carreira jurídica na Europa.

É preciso ser solicitor para trabalhar na área jurídica?

Não. Esse é um dos pontos mais úteis da conversa. Na Irlanda existem funções jurídicas que não exigem qualificação como solicitor, entre elas legal executive, legal secretary e posições em compliance, contratos, proteção de dados e privacidade.

Para Taise, muitos brasileiros se concentram cedo demais na equivalência do diploma e ignoram a experiência local. A recomendação dela é tentar primeiro uma vaga na área, entender o funcionamento do mercado e confirmar se aquela carreira realmente faz sentido. Em alguns escritórios, o próprio empregador pode apoiar o profissional nas provas e nos estudos posteriores.

O recomeço pode exigir um cargo abaixo do anterior

Ter sido advogado no Brasil não garante entrada imediata como solicitor na Irlanda. Taise alerta que a postura na entrevista faz diferença: o candidato precisa demonstrar disposição para aprender o sistema local e começar em uma função de apoio. Apresentar-se como alguém “qualificado demais” pode fazer o empregador temer que a pessoa abandone rapidamente a vaga.

Esse recomeço não apaga a experiência anterior. Conhecimento de processos, atendimento a clientes, pesquisa, contratos e organização de casos continua relevante, mas precisa ser traduzido para a realidade do escritório irlandês.

Qual é a nova rota para se qualificar como advogado?

Taise explica que a qualificação brasileira, sozinha, não permite acesso direto à prova de transferência irlandesa que ela realizou. Uma alternativa analisada no episódio é o Reino Unido, onde a autoridade reguladora aceita advogados de outras jurisdições em seu processo de qualificação.

A lógica é obter a qualificação britânica e, então, verificar a transferência para a Irlanda com base nas regras aplicáveis entre as duas jurisdições. Não é um atalho automático: envolve provas, custos, análise individual e requisitos que podem mudar. Antes de iniciar, o candidato deve confirmar a rota diretamente com a Solicitors Regulation Authority e a Law Society of Ireland.

Taise reforça que o sistema jurídico de Irlanda e Reino Unido compartilha a tradição de common law, o que torna parte do estudo aproveitável. Ainda assim, estar qualificado em um país europeu não autoriza automaticamente a prática em todos os demais.

Stamp 1G para cônjuges de trabalhadores

Uma das mudanças discutidas foi a concessão de Stamp 1G a cônjuges e parceiros elegíveis de titulares do General Employment Permit. Antes, muitos recebiam Stamp 3, que permitia residência, mas não trabalho. Com o Stamp 1G, a pessoa pode trabalhar sem obter uma permissão de trabalho separada.

A mudança não eliminou os requisitos da reunificação familiar. O comunicado oficial explica que a pessoa precisa ter solicitado e recebido a reunificação de acordo com a política para famílias de cidadãos de fora do Espaço Econômico Europeu. A orientação atual está na página da imigração sobre Stamp 1G para cônjuges e parceiros elegíveis.

No caso de titulares do General Employment Permit, Taise destaca no vídeo a espera de 12 meses para patrocinar a reunificação, enquanto famílias de titulares do Critical Skills Employment Permit seguem condições diferentes. Situações em que o parceiro já está na Irlanda com outro tipo de permissão exigem análise própria; não se deve presumir que a troca será automática.

O que mudou com o Employment Permits Act 2024?

Quando o episódio foi gravado, parte da regulamentação ainda era aguardada. A lei entrou em vigor em 2 de setembro de 2024 e reorganizou diferentes aspectos das permissões de trabalho. Taise destaca a criação da base legal para o permit sazonal, mudanças no teste do mercado de trabalho e maior flexibilidade para trocar de empregador.

Troca de empregador depois de nove meses

Essa mudança já está operacional. Titulares de General Employment Permit e Critical Skills Employment Permit podem solicitar a troca após nove meses no primeiro emprego autorizado no Estado, sem iniciar necessariamente uma permissão inteiramente nova. A movimentação precisa permanecer dentro da ocupação ou classificação permitida, e o trabalhador não pode começar no novo empregador antes de receber o documento atualizado.

Desde abril de 2025, os pedidos são feitos pelo sistema Employment Permits Online. As condições completas estão na página oficial Changing employer. Demissão, redundância ou mudança substancial na relação de trabalho podem produzir exceções, mas cada caso precisa ser documentado.

Cidadania irlandesa por naturalização

Taise e Bolder também comparam o antigo pedido em papel com o processo digital. Atualmente, a naturalização pode ser solicitada online. Para a maioria dos adultos que aplica com base em residência, a regra geral exige cinco anos de residência legal computável: um ano contínuo imediatamente antes do pedido e outros quatro anos dentro dos oito anos anteriores.

A página oficial sobre cidadania por naturalização informa ainda a necessidade de comprovar identidade, residência, boa conduta e intenção de continuar residindo na Irlanda. O pedido tem taxa inicial de €175; outros custos podem surgir se a naturalização for aprovada.

Passaporte irlandês naturalizado vale menos?

Não. Taise desmente a ideia, difundida em grupos de redes sociais, de que cidadãos naturalizados teriam menos direitos para viver e trabalhar no Reino Unido. Para fins da Common Travel Area, a forma pela qual a cidadania irlandesa foi adquirida não cria uma categoria inferior de passaporte.

Existe, porém, uma obrigação específica para quem obteve cidadania por naturalização e passa sete anos consecutivos residindo fora da Irlanda: declarar anualmente a intenção de conservar a cidadania. É um detalhe diferente de dizer que o passaporte “vence” ou deixa de ter validade automaticamente.

Imigração não deve ser decidida por comentários de internet

Ao responder perguntas do público, Taise insiste que pequenas diferenças mudam completamente uma orientação: tipo de permit, origem do Stamp 4, situação do cônjuge, tempo de residência, nacionalidade dos filhos e histórico de registros. Duas pessoas com cartões parecidos podem ter direitos diferentes.

Ela também fala sobre clientes que omitem informações por medo. A relação entre advogado e cliente depende de relato completo e verdadeiro; sem conhecer o histórico, o profissional não consegue avaliar riscos nem identificar uma solução possível. Quando a dúvida envolve permanência, família ou trabalho, a fonte primária deve ser o órgão oficial e, quando necessário, um profissional habilitado.

O que aprender com a trajetória de Taise

A história de Taise mostra que recomeçar na Irlanda não significa jogar fora a carreira brasileira. O caminho pode começar em uma função de apoio, passar por experiência local e só depois chegar à qualificação profissional. Ao mesmo tempo, regras de imigração mudam e não devem ser tratadas como promessas permanentes.

Assista ao episódio completo para acompanhar os exemplos, as perguntas do público e a explicação de Taise sobre o mercado jurídico. Para decisões pessoais, confirme sempre as exigências atuais com os órgãos responsáveis.