Tamires Couto compartilha um relato direto sobre maternidade, saúde mental e um relacionamento abusivo na Irlanda. No episódio 342 do Bolder Podcast, ela explica como perdeu gradualmente a própria identidade, procurou ajuda e reconstruiu a vida ao lado dos três filhos.
A história também passa pela criação do Volley Pan, grupo que transformou o vôlei em espaço de convivência para imigrantes. O esporte aparece no episódio não como uma solução mágica, mas como parte de uma rede de apoio construída depois de anos difíceis.
De Osasco à Irlanda: o começo da história de Tamires
Tamires nasceu em Osasco e passou parte da infância com os avós em Maracás, na Bahia. Aos 19 anos, teve a primeira filha, Yasmin. Ela já desejava morar fora e, como o projeto de ir para os Estados Unidos não cabia no orçamento, escolheu Dublin.
A mudança aconteceu cerca de 13 anos antes da gravação do episódio, quando aluguel e custo de vida eram bem diferentes. Yasmin tinha aproximadamente um ano e meio e permaneceu no Brasil. Nos primeiros meses, Tamires enfrentou a distância da filha e ainda precisou fazer uma cirurgia de apêndice sem dominar o inglês.
Durante oito anos, ela viajou regularmente para visitar Yasmin e tentou resolver as questões necessárias para trazê-la. Tamires reconhece que perdeu parte da infância da filha, mas conta que trabalhou para sustentar seus estudos no Brasil e construir condições para que as duas voltassem a morar juntas.
Maternidade na Irlanda e depressão pós-parto
Dois anos depois de chegar à Irlanda, Tamires engravidou de Sofia. O parto aconteceu no Rotunda Hospital e foi diferente da cesariana que ela havia vivido no Brasil. Após o nascimento, ela desenvolveu depressão pós-parto.
Tamires chegou a passar dez meses no Brasil tentando resolver a mudança de Yasmin, mas não conseguiu se readaptar. Voltou para a Irlanda com Sofia, retomou a faculdade e continuou trabalhando para reunir os filhos.
Mais tarde nasceu Oscar. Como o histórico de depressão pós-parto já estava registrado, profissionais de saúde acompanharam Tamires após o nascimento. Uma médica identificou que os sintomas haviam ultrapassado o chamado baby blues e a encaminhou para atendimento especializado.
Como Tamires percebeu o relacionamento abusivo
Segundo Tamires, o relacionamento durou quase cinco anos. Ela descreve um processo gradual: deixou de olhar para si, perdeu a vontade de sorrir e passou a usar toda a energia disponível apenas para cuidar dos filhos.
Embora estivesse em tratamento, ela demorou cerca de um ano para contar o que acontecia dentro de casa. O comportamento do companheiro alternava momentos positivos com violência e pressão psicológica, o que tornava mais difícil reconhecer e explicar a situação.
O ponto de ruptura veio depois de uma tentativa de suicídio. Tamires ficou internada por aproximadamente dois meses no St James’s Hospital. Durante uma saída temporária para ver os filhos, sofreu uma nova agressão e, ao voltar ao hospital, contou o que estava acontecendo.
A Garda colheu seu depoimento, e o médico condicionou a alta à saída do agressor da residência. Uma tia e uma prima vieram do Brasil para ajudá-la no retorno para casa. Tamires também recebeu apoio emergencial para alimentação e despesas enquanto reconstruía a rotina e se preparava para voltar ao trabalho.
Por que pedir ajuda pode demorar
O relato ajuda a entender por que a pergunta “por que não saiu antes?” é inadequada. Tamires fala de isolamento, dependência emocional, pressão financeira e da crença de que não conseguiria cuidar dos filhos sozinha. Ela própria demorou a aceitar que vivia uma relação abusiva.
Hoje, ela identifica como sinais importantes o afastamento dos amigos, as desculpas constantes para não sair, a perda de personalidade e o medo de conversar sobre o que acontece em casa. O conselho dela é procurar uma pessoa de confiança e ajuda profissional antes que a situação se agrave.
A reconstrução da vida com três filhos
Depois da separação, a recuperação aconteceu aos poucos. Tamires voltou a trabalhar, reuniu os filhos na Irlanda e organizou a rotina em torno da escola e das necessidades das crianças.
No momento da entrevista, ela atendia clientes de unhas e maquiagem em um pequeno estúdio nos fundos de casa, fazia trabalhos de limpeza e acompanhava uma cliente como cuidadora. Trabalhar perto de casa dava a flexibilidade necessária para levar e buscar os filhos.
Ela também passou a preservar momentos de lazer, amizades e atividades com as crianças. Para Tamires, o equilíbrio entre trabalho, família e vida pessoal é uma forma de não voltar ao isolamento que marcou os anos anteriores.
Como nasceu o Volley Pan na Irlanda
A ideia do Volley Pan começou a partir de uma recomendação da terapeuta: encontrar um esporte que ajudasse a controlar a ansiedade. Tamires não gostava de academia e começou a jogar vôlei aos sábados com um grupo indicado por um amigo.
Depois de um ano, quis treinar mais vezes e percebeu que faltavam quadras e grupos abertos a novos participantes. Passou quase quatro meses procurando um local, reuniu voluntários e convidou treinadores para criar sessões que ensinassem técnica, em vez de apenas organizar partidas.
Na época da gravação, o projeto tinha três meses, cerca de 325 pessoas no grupo de WhatsApp e aproximadamente 100 participantes que haviam jogado em um único mês. Havia treinos para iniciantes, equipes femininas e masculinas, sessões mistas e encontros recreativos.
Esporte como comunidade para imigrantes
O grupo rapidamente deixou de ser apenas uma quadra. Os participantes passaram a organizar passeios, encontros e atividades sociais. Tamires conta que recebeu mensagens de pessoas que encontraram no vôlei uma forma de reduzir o isolamento e retomar a convivência.
O Volley Pan também disputou amistosos e participou de um torneio com 14 equipes de diferentes nacionalidades. Três times do projeto chegaram às semifinais, e um terminou em segundo lugar. Para Tamires, o resultado confirmou que havia demanda por treinos organizados e por uma comunidade esportiva brasileira na Irlanda.
Onde procurar ajuda na Irlanda
Se você estiver em perigo imediato ou acreditar que pode machucar a si mesmo ou outra pessoa, ligue para 112 ou 999 ou procure o serviço de emergência mais próximo.
- Women’s Aid: apoio gratuito 24 horas para violência doméstica pelo telefone 1800 341 900.
- Samaritans Ireland: apoio emocional gratuito, dia e noite, pelo número 116 123.
- Your Mental Health: informações sobre serviços de saúde mental do HSE pelo 1800 111 888.
Esses canais não substituem uma avaliação médica ou jurídica individual, mas podem ser o primeiro contato para encontrar proteção e atendimento.
Uma história sobre pedir ajuda e reconstruir vínculos
A conversa de Bolder com Tamires reúne assuntos pesados sem reduzir a convidada ao período de violência. A maternidade, a carreira e o Volley Pan mostram o que veio depois: uma reconstrução baseada em apoio profissional, família, amizades e comunidade.
Assista ao episódio completo para conhecer o relato de Tamires Couto em suas próprias palavras.
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