Intercâmbio depois dos 50 anos: a experiência de Luiz Cláudio

Fazer um intercâmbio depois dos 50 anos pode significar voltar à sala de aula, dividir o quarto com desconhecidos e aprender a resolver problemas em outro idioma. Aos 56 anos, Luiz Cláudio dos Santos deixou a rotina de major aposentado da Polícia Militar de São Paulo para estudar inglês em Dublin.

No Bolder Podcast 339, Luiz fala sobre os seis meses de planejamento, a dificuldade com o inglês, a busca por trabalho, a convivência em casas compartilhadas e dois episódios que marcaram seus primeiros meses: um carro apreendido por falta de seguro e uma bicicleta pública furtada após ser presa incorretamente.

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Quem é Luiz Cláudio dos Santos?

Luiz nasceu em Itapetininga e cresceu entre cidades do interior paulista, incluindo Sarapuí, Sorocaba e Pilar do Sul. Entrou na Polícia Militar em 1988 como soldado de cavalaria, tornou-se cabo e depois cursou a Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Encerrou a carreira como major da reserva.

Além da formação policial, cursou magistério, direito e uma pós-graduação em direito público. Também trabalhou como corretor de imóveis e acumulou cursos relacionados a administração pública, licitação, auditoria e segurança.

Ele tem três filhos adultos e seis netos. A filha Bárbara, advogada em São Paulo, foi quem sugeriu a mudança: como o pai estava aposentado e sozinho, por que não aproveitar o momento para viajar e aprender outro idioma?

Por que fazer intercâmbio depois dos 50 anos?

Luiz se aposentou aos 49 anos e decidiu que não queria apenas esperar o tempo passar. A mudança para a Irlanda não nasceu de uma emergência financeira nem de uma tentativa de abandonar definitivamente o Brasil. Ele tinha renda de aposentadoria e queria usar a nova fase para estudar, viajar e construir memórias.

A frase repetida ao longo do episódio resume sua motivação: “Nunca é tarde para colecionar memórias.” Para Luiz, a idade traz uma vantagem importante: ele não se constrange em fazer perguntas, errar na frente da turma ou recomeçar do nível básico.

Como foi o planejamento para estudar na Irlanda

Luiz planejou a viagem durante aproximadamente seis meses. Pesquisou vídeos, acompanhou a cotação do euro e pediu três orçamentos antes de comprar o pacote de intercâmbio. Também avaliou outros destinos, como Austrália, Inglaterra, Espanha e Portugal, mas escolheu a Irlanda para estudar inglês e usar o país como ponto inicial para conhecer a Europa.

Entre as providências que tomou estavam seguro-saúde, seguros pessoais, cartões internacionais e uma procuração pública para a filha resolver questões no Brasil. Luiz também manteve bens e vínculos familiares no país, pois não tratava a viagem como uma ruptura definitiva.

A comprovação financeira mudou desde o episódio

No vídeo, gravado em 2024, Luiz menciona uma comprovação financeira próxima de €4.500. Esse valor não deve ser usado para planejar uma viagem atual. Desde 30 de junho de 2025, a regra oficial exige que estudantes que não precisam de visto demonstrem acesso a €833 por mês, totalizando €6.665 para uma permanência de oito meses. Para cursos que resultem em residência superior a oito meses, a referência é €10.000.

As regras dependem da duração do curso e da situação migratória. Consulte sempre a página atualizada da Immigration Service Delivery sobre finanças para estudantes.

Voltar a estudar inglês aos 56 anos

Quando participou do podcast, Luiz estava havia quase quatro meses na Irlanda e estudava no nível A1. Ainda teria cerca de dois meses de aula antes das férias e já pensava em renovar o curso.

A compreensão oral era a principal dificuldade. Ele percebeu rapidamente que o inglês ouvido nas ruas de Dublin era diferente daquele ao qual estava acostumado. Um exemplo simples ocorreu em um posto de combustível: usou uma expressão que conhecia, mas só recebeu atenção quando ouviu e repetiu o frequente “sorry” dos irlandeses.

Na sala de aula, Luiz preferia levantar a mão e admitir que não havia entendido. Alguns colegas brincavam, mas as perguntas acabavam ajudando quem também estava com dúvida. Ele associa essa disposição à maturidade: depois de uma carreira inteira e de criar três filhos, errar durante uma aula deixou de ser um problema.

Moradia compartilhada: de €800 a €590

A primeira acomodação custava aproximadamente €800 por mês. Luiz tinha um quarto individual pequeno, mas dividia a casa com cerca de 11 pessoas. A falta de respeito às regras de silêncio e limpeza provocou discussões, e ele decidiu sair.

Na segunda moradia, no centro de Dublin, passou a pagar cerca de €590. Em troca do valor menor e da localização conveniente, dividia o quarto com mais duas pessoas. Segundo Luiz, a diferença principal não era o tamanho, mas a convivência mais tranquila e respeitosa.

A localização permitia ir caminhando para a escola e acessar mercados, transporte e outros serviços do centro. Para ele, escolher bem as pessoas com quem se mora é uma parte decisiva do intercâmbio em qualquer idade.

A busca por trabalho e a barreira do idioma

Luiz chegou com um currículo extenso, mas ainda não havia conseguido emprego quando gravou o episódio. Já tinha trabalhado temporariamente como auxiliar de jardinagem e distribuía currículos, porém reconhecia que o inglês básico restringia suas possibilidades.

Sua situação era diferente da de muitos colegas: a aposentadoria permitia manter-se sem depender imediatamente de um emprego. Mesmo assim, ele queria receber em euro para cobrir as despesas locais e aproveitar a experiência profissional.

Entre as áreas cogitadas estavam jardinagem, manutenção, mercado imobiliário e funções relacionadas à sua experiência administrativa. Luiz também falava em trazer para a Irlanda conhecimentos da empresa de automação industrial do filho.

O carro de €600 que acabou apreendido

Um dos maiores perrengues começou com a compra de um carro por €600. Luiz ainda pesquisava um seguro compatível com a habilitação internacional e decidiu usar o veículo durante uma mudança. Na Irlanda, entretanto, o seguro é obrigatório.

A Garda identificou o veículo e fez a apreensão. Como a transferência de propriedade ainda não havia sido concluída e o carro permaneceu retido, Luiz afirma que perdeu o veículo após o prazo de 21 dias. O prejuízo foi o valor da compra.

Depois, comprou outro carro, de 2014, mas encontrou um problema no motor e aguardava o conserto. Apesar de contar os episódios com humor, a experiência deixa um alerta claro: não use um veículo antes de concluir transferência, documentação e seguro.

A bicicleta pública também virou ocorrência

Luiz aderiu ao serviço Dublin Bikes, mas, em uma das primeiras utilizações, não encaixou corretamente o sistema de travamento ao entrar em um mercado. Quando voltou, a bicicleta havia desaparecido.

Ele registrou a ocorrência na Garda e entrou em contato com o serviço para explicar o caso. O episódio contrariou a sensação inicial de que pequenos furtos não aconteceriam em Dublin e reforçou outra lição básica: a cidade é segura em muitos aspectos, mas ainda exige atenção.

Educação, segurança e as opiniões de Luiz

Grande parte da conversa é dedicada às opiniões pessoais de Luiz sobre educação, disciplina, segurança pública e política brasileira. Ele relaciona sua trajetória na PM à defesa de escolas mais organizadas, professores valorizados e regras claras.

Ao comparar Brasil e Irlanda, Luiz elogia a cordialidade dos irlandeses, a sensação de segurança e o respeito no cotidiano. Ao mesmo tempo, aponta problemas locais, como pequenos furtos, uso de drogas e grupos de adolescentes que incomodam moradores. São percepções pessoais construídas em poucos meses de residência, e não um retrato estatístico dos dois países.

Bolder contrapõe alguns pontos durante o episódio, especialmente sobre limites da atuação policial e o risco de tratar opiniões políticas como solução única. Esse contraste deixa a conversa menos linear e mostra como a experiência migratória também confronta certezas trazidas do Brasil.

De onde veio o apelido “Gibson”?

O nome usado por Luiz nas redes sociais nasceu em 2004, quando ele conheceu o cantor Latino durante um evento em Mairinque. Segundo o relato, o cantor brincou que o então tenente lembrava o ator Mel Gibson. O apelido circulou entre os policiais e voltou anos depois, quando Luiz precisou escolher um nome profissional para trabalhar como corretor de imóveis.

Na Irlanda, passou a se apresentar como “Luiz Gibson na Irlanda”, misturando o apelido antigo com a nova fase de intercambista.

Quais eram os planos após o intercâmbio?

Luiz não tratava o curso como uma viagem isolada. Sua intenção era permanecer na Irlanda ou em outros países europeus por até seis anos. Queria consolidar o inglês, recuperar o francês e o espanhol e depois estudar italiano e alemão.

Também cogitava uma pós-graduação ou doutorado em áreas como história ou sociologia, além de estudar comércio eletrônico. Entre os destinos que desejava conhecer estavam Irlanda do Norte, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Grécia, Alemanha e Luxemburgo.

O Brasil continuava fazendo parte do plano. Durante as férias escolares, ele pretendia visitar a mãe, os filhos e conhecer a neta que havia acabado de nascer.

Vale a pena fazer intercâmbio depois dos 50?

Para Luiz, vale. Mas seu relato também mostra condições que facilitaram a decisão: aposentadoria, renda própria, filhos adultos e tempo para planejar. Nem todo estudante mais velho terá a mesma rede de segurança, por isso é importante calcular moradia, seguro, curso, transporte e reserva financeira sem depender de conseguir trabalho imediatamente.

  • Pesquise mais de uma escola ou agência: Luiz comparou três propostas antes de comprar.
  • Prepare documentos e responsabilidades no Brasil: ele deixou uma procuração pública com a filha.
  • Tenha seguro e reserva: não dependa do primeiro emprego para pagar as despesas básicas.
  • Aceite começar do básico: experiência profissional não substitui a comunicação em inglês.
  • Escolha a moradia pela convivência, não apenas pelo preço: uma casa inadequada pode comprometer toda a experiência.
  • Não improvise com documentação: carro, seguro e registro precisam estar resolvidos antes de dirigir.

O intercâmbio de Luiz está longe de ser perfeito: houve conflito em casa, dificuldade com inglês, emprego que ainda não apareceu e prejuízos evitáveis. Ainda assim, ele fala da experiência com entusiasmo. O objetivo não era provar que a idade não existe, mas mostrar que ela não precisa encerrar a possibilidade de aprender, viajar e começar uma rotina diferente.

Assista ao episódio completo para conhecer a história do major aposentado que voltou à sala de aula aos 56 anos e decidiu transformar a aposentadoria em uma nova etapa.