Engenheiro BIM na Irlanda: de intercambista ao Critical Skills | Stenio Araújo

Stenio Araújo chegou como intercambista e se tornou engenheiro BIM na Irlanda, mas sua trajetória passou longe de uma transição direta. Sem conseguir se comunicar em inglês, ele trabalhou em agência de intercâmbio, restaurante, eventos e limpeza de parques antes de transformar a experiência que havia construído no Brasil em uma carreira na construção digital.

No Bolder Podcast, Stenio explica como entrou no setor de construção a seco, por que escolheu BIM, o que o impedia de conseguir entrevistas e como um currículo reposicionado gerou três propostas de emprego em uma semana. Ele também fala sobre formação, networking, Critical Skills e os caminhos para brasileiros que desejam trabalhar com engenharia e construção na Irlanda.

Publicidade

Do restaurante da família à construção a seco

Nascido em Maringá e criado em Curitiba, Stenio começou a trabalhar cedo. A mãe administrava lanchonetes e restaurantes, e ele ajudava em praticamente todas as etapas: fazia compras, preparava o espaço, trabalhava na chapa e atendia clientes. Quando o negócio enfrentou uma crise, ele entrou formalmente no mercado de trabalho aos 16 anos para ajudar nas despesas de casa.

Depois de trabalhar como entregador de móveis e passar pelo Senac, recebeu do padrasto um convite para conhecer o setor de construção a seco. Começou no caixa de uma distribuidora, estudando catálogos e materiais, e rapidamente passou a atender construtoras e preparar orçamentos de drywall.

O contato com profissionais brasileiros que haviam trabalhado na Bélgica e na França mostrou a ele um nível diferente de técnica, ferramentas e organização. Stenio abriu uma empresa para conectar fornecedores, equipes de montagem e construtoras. Mais tarde, tornou-se consultor técnico de uma fabricante do setor e ampliou sua atuação no Paraná e em Santa Catarina.

A formação que apresentou o BIM

Para compreender melhor leitura de projetos, gestão e os termos técnicos usados por arquitetos e engenheiros, Stenio cursou Tecnologia em Gestão e Controle de Obras. Ele ressalta no episódio que o tecnólogo é uma graduação de nível superior, diferente de um curso técnico de ensino médio.

Foi durante a faculdade que ele reconheceu em BIM uma área que combinava com sua experiência. Stenio já compatibilizava projetos e propunha soluções em drywall e light steel frame, mas ainda não trabalhava dentro da metodologia BIM.

O que faz um profissional BIM?

BIM é a sigla para Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção. O trabalho não se resume a produzir um desenho tridimensional. A metodologia conecta modelos, dados, disciplinas, custos, planejamento e decisões ao longo de um projeto.

Na prática, profissionais BIM podem atuar com modelagem, compatibilização, coordenação, gestão de informações e integração entre equipes. Stenio observa que quem já domina a modelagem precisa continuar evoluindo para áreas como dados, coordenação e gerenciamento, especialmente em mercados maduros.

Ele também chama atenção para a divisão internacional do trabalho. Empresas de países como Irlanda, Holanda, Noruega e Suécia concentram atividades de coordenação e gerenciamento, enquanto parte da modelagem pode ser contratada em mercados com mão de obra mais barata. Por isso, entender processos e comunicação pode ser tão importante quanto dominar um software.

A chegada à Irlanda sem falar inglês

Professores incentivaram Stenio a buscar experiência internacional. Ele pesquisou Londres e Austrália, mas escolheu a Irlanda por ser a alternativa financeiramente mais acessível naquele momento. Organizou o intercâmbio em 2018 e desembarcou em fevereiro de 2019.

Apesar da bagagem profissional, ele conta que praticamente não falava inglês. Brinca que seu vocabulário se limitava a “drywall” e “light steel frame”. A primeira oportunidade surgiu de uma iniciativa simples: ao chegar, montou um roteiro por Dublin e convidou outros estudantes para acompanhá-lo. A atividade chamou a atenção da agência, que o contratou para apoiar novos intercambistas.

O golpe da agência e os trabalhos fora da área

A agência encerrou as atividades deixando estudantes e funcionários sem o que haviam pago ou recebido. Stenio perdeu renda e moradia no mesmo período, mas continuou tentando apoiar os alunos que estavam chegando. Com a indicação de amigos, passou a trabalhar como kitchen porter em um restaurante tailandês.

Ele também trabalhou na limpeza de eventos, recolheu lixo em parques e ajudou a preparar o gramado do Croke Park. Anos depois, já empregado em sua área, voltou ao mesmo estádio para apresentar um projeto a representantes do Japão, Qatar, Escócia e Londres. A comparação ilustra o tamanho da mudança, mas Stenio não romantiza o período: houve dias de falta de dinheiro e insegurança real.

Pandemia, retorno ao Brasil e nova tentativa

Quando a pandemia interrompeu eventos e reduziu as horas de trabalho, Stenio decidiu voltar ao Brasil para ficar perto do filho. Em Rondônia, retomou a graduação em Engenharia Civil e administrou a conveniência do posto de combustível do pai. Foi nesse período que conheceu Clarissa, com quem se casou.

O casal planejou retornar à Europa por meio de um processo de cidadania italiana de Clarissa. Eles venderam um carro, pagaram documentos e contrataram uma assessoria indicada por conhecidos. Segundo o relato, a documentação não foi analisada corretamente e, depois de meses de espera, descobriram que o processo não poderia seguir como prometido.

Stenio já estava novamente na Irlanda como visitante, enquanto Clarissa aguardava na Itália. Com o plano frustrado e o prazo migratório avançando, ele precisava decidir entre comprar outro curso ou encontrar uma oportunidade profissional que justificasse sua permanência.

O currículo que destravou a carreira BIM na Irlanda

Stenio sabia que tinha experiência, mas seu currículo tentava comunicar competências demais. Ele se candidatava a posições diferentes, e os recrutadores não conseguiam identificar com clareza qual problema ele resolvia. Uma consultoria de carreira apontou que o perfil dele deveria ser apresentado especificamente como BIM.

A mudança foi rápida. Stenio relata que, uma semana após reformular o currículo e ajustar o foco das candidaturas, recebeu três propostas. Aceitou a vaga na empresa em que continuava trabalhando na data da entrevista, e a companhia apoiou o processo do seu Critical Skills Employment Permit.

Com a nova situação migratória, Clarissa pôde se juntar a ele como dependente, e o filho Lucas também se mudou para a Irlanda. O menino chegou com alguma base de inglês adquirida em uma escola bilíngue no Brasil e passou a estudar e jogar futebol em Dublin.

É preciso ser engenheiro formado para trabalhar com BIM?

A experiência de Stenio contesta uma ideia comum. Na época do episódio, ele havia concluído as disciplinas de Engenharia Civil, mas ainda não possuía o diploma porque faltavam horas de estágio no Brasil. Mesmo assim, já atuava na área e era reconhecido no mercado irlandês por sua formação tecnológica, conhecimento técnico e experiência prática.

Isso não significa que qualquer pessoa será contratada sem qualificação. O argumento dele é outro: o título, sozinho, não substitui a capacidade de demonstrar o que se sabe fazer. Técnicos, tecnólogos, arquitetos e engenheiros podem encontrar caminhos diferentes dentro da construção, desde que apresentem competências compatíveis com a vaga.

Como entrar no mercado de engenharia na Irlanda

Ao longo da conversa, Stenio aponta erros e decisões que podem acelerar a entrada no setor:

  • Não envie o mesmo currículo para todas as vagas: destaque experiências e resultados que correspondam à descrição de cada posição.
  • Defina seu posicionamento: um currículo cheio de atividades desconectadas pode esconder sua especialidade em vez de valorizá-la.
  • Mostre experiência prática: portfólio, projetos e domínio dos processos ajudam o recrutador a visualizar sua contribuição.
  • Aprenda o inglês da profissão: além do idioma cotidiano, é necessário entender nomenclaturas, normas e comunicação de projeto.
  • Construa networking antes de precisar de uma vaga: indicações ajudaram Stenio tanto nos trabalhos temporários quanto na carreira técnica.
  • Considere formação local: para quem já consegue acompanhar aulas em inglês, uma graduação ou especialização pode aproximar o estudante diretamente do vocabulário e das empresas da área.

Engenharia no Boteco e comunidade BIM

Depois de consolidar a própria carreira, Stenio passou a criar espaços de conexão. O Engenharia no Boteco reuniu mais de 120 profissionais, recrutadores e empresas em um ambiente informal. Segundo ele, participantes conseguiram oportunidades a partir das conversas iniciadas no evento.

Ele também participa da BIM Smart, iniciativa voltada a encontros e troca de conhecimento entre pessoas experientes e iniciantes. O objetivo é aproximar profissionais da metodologia BIM, produzir conteúdo e fortalecer uma comunidade que acompanha a digitalização do setor.

Da sobrevivência ao trabalho especializado

A trajetória de Stenio não é uma fórmula rápida para se tornar engenheiro BIM na Irlanda. Ela mostra, porém, uma sequência concreta: conhecimento adquirido no Brasil, disposição para recomeçar, inglês desenvolvido na prática, ajuda de uma rede de contatos e um posicionamento profissional finalmente coerente com a experiência.

O episódio completo aprofunda os bastidores dessa mudança, a construção a seco, as oportunidades em BIM e as escolhas que fizeram a carreira sair do lugar. Assista ao vídeo para ouvir os exemplos de Stenio e entender por que ele considera clareza profissional e networking tão importantes quanto o diploma.