Por que uma irlandesa trocou a Irlanda pelo Brasil? A história da Teacher Bló

Por que uma irlandesa trocou a Irlanda pelo Brasil? Para a Teacher Bló, a resposta começa no clima, passa pela liberdade de trabalhar remotamente e termina em Garopaba, no litoral de Santa Catarina. O Brasil não era necessariamente o plano definitivo, mas uma viagem de três meses virou mudança quando ela e o marido perceberam que haviam encontrado a qualidade de vida que procuravam.

No vídeo, Bolder caminha com Bló pelo centro de Dublin enquanto ela compara os dois países. A conversa passa por infância na Irlanda, crise de moradia, transporte, trabalho, diferenças culturais e a importância do inglês para brasileiros que querem construir uma vida independente no exterior.

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Quem é a Teacher Bló?

Bló é irlandesa e cresceu em Rathfarnham, na região de Dublin 16. Estudou em escola particular, cursou a universidade na Dublin City University e trabalhou desde jovem.

Antes de se formar, passou por supermercados como Tesco e Superquinn, trabalhando no deli e preparando sanduíches. Depois da universidade, conseguiu rapidamente um emprego de atendimento ao cliente em inglês e espanhol, lidando com reclamações de pessoas que alugavam carros em diferentes países.

Ela descreve a própria vida na Irlanda como boa. Encontrava trabalho com facilidade e tinha acesso a estudo e oportunidades. A decisão de sair não nasceu de uma rejeição ao país, mas da certeza, presente desde a infância, de que queria experimentar uma vida em outro lugar.

O clima da Irlanda foi o principal motivo da mudança

Bló guarda memórias de ir à escola com os pés e as meias molhados. Chegou a carregar um par extra na bolsa porque nunca sabia quando a chuva a pegaria no caminho.

Nas férias de infância, visitava países como a Espanha e não entendia por que precisava voltar ao frio e aos dias cinzentos. Para ela, o clima influencia diretamente a disposição, a vontade de sair de casa e o bem-estar mental.

Durante as visitas à família, alguns dias de sol fazem Bló imaginar como seria morar novamente na Irlanda. Quando a chuva e o vento retornam, ela se lembra rapidamente do que a levou embora. Gostar de Dublin e querer viver sob aquele clima diariamente são questões diferentes.

Antes do Brasil vieram Chile e Portugal

Bló e o marido procuravam um lugar com boa qualidade de vida e liberdade para praticar esportes. O casal passou primeiro pelo Chile, mas considerou o país distante demais. Depois, viveu em Faro, Portugal, onde teve uma experiência positiva, embora não sentisse que havia encontrado o lugar definitivo.

A viagem ao Brasil deveria durar três meses. No primeiro mês, os dois já conversavam sobre ficar. Garopaba reunia praia, natureza, esporte e uma população formada por pessoas de diferentes regiões.

Essa diversidade foi importante para Bló. Em algumas cidades pequenas, uma estrangeira pode chamar atenção o tempo inteiro. Em Garopaba, a presença de paulistas, gaúchos, atletas e moradores vindos de outros lugares tornou a adaptação mais natural.

Por que Garopaba ofereceu uma vida melhor?

O casal conseguiu alugar uma casa de dois quartos a cerca de dez minutos de caminhada da praia. Para Bló, ter o mesmo espaço em Dublin seria praticamente impossível dentro do orçamento.

A cidade também oferece surf, atividades físicas e contato com a natureza. Serviços de maior porte, como shopping e determinados hospitais, exigem deslocamento, mas ela afirma ter acesso a atendimento de qualidade a aproximadamente uma hora de distância.

Há um elemento decisivo: Bló e o marido trabalham integralmente pela internet. Juntos, mantêm uma escola de inglês voltada principalmente a brasileiros que vivem na Irlanda. Como a renda não depende do mercado de trabalho local, o casal pôde escolher a cidade pelo estilo de vida.

Não é uma comparação simples entre Brasil e Irlanda

Bló evita dizer que um país é universalmente melhor. A experiência depende da cidade, do salário, da moradia, das relações pessoais e daquilo que cada pessoa procura.

Um brasileiro que sai de uma situação difícil, consegue um bom emprego e encontra estabilidade na Irlanda pode melhorar radicalmente de vida. Da mesma forma, um casal com renda remota pode encontrar no litoral brasileiro uma casa maior, sol e praia por um custo inviável em Dublin.

A comparação honesta não é Irlanda contra Brasil inteiro. É a vida concreta que cada pessoa consegue construir em um endereço específico.

Dublin mudou desde que Bló foi embora?

Durante a caminhada, Bló e Bolder passam por St Stephen’s Green, Grafton Street e a estátua de Molly Malone. Esses locais ajudam a recuperar memórias da infância e do início da vida profissional.

Bló começou a frequentar mais o centro por volta dos 16 anos, quando trabalhou numa loja de calçados em Grafton Street. Antes disso, encontrava praticamente tudo de que precisava na região de Dublin 16. Ela observa que muitos irlandeses dos bairros mais afastados também não têm o hábito de ir sempre ao centro.

Na volta, percebeu uma cidade mais tecnológica. Pagamentos por cartão, bicicletas compartilhadas e novas integrações do Luas mudaram a rotina. Ao mesmo tempo, ainda existem procedimentos dependentes de cartas e papelada, especialmente em bancos e serviços públicos.

Ela também viu lojas vazias em Grafton Street, algo incomum em suas lembranças anteriores à pandemia. Outra preocupação é a presença de pessoas sem moradia e de barracas próximas ao canal, reflexo de uma crise que atinge inclusive quem trabalha e tenta alugar uma casa.

A crise de moradia na Irlanda não começou agora

Sair da casa da mãe foi a principal dificuldade de Bló quando ainda vivia em Dublin. Mesmo há dez ou onze anos, encontrar um lugar que pudesse pagar sozinha ou dividir com poucas pessoas já era complicado.

Hoje, ela considera a ideia de retornar ainda mais difícil por causa dos preços. Dividir imóvel deixou de ser uma fase restrita a estudantes. Irlandeses adultos, casais e profissionais com mais de 30 anos também recorrem a casas compartilhadas.

Esse contraste pesa na escolha pelo Brasil. Em Garopaba, Bló e o marido conseguiram espaço, proximidade da praia e privacidade. Em Dublin, provavelmente gastariam muito mais para ter menos.

O que brasileiros reclamam sobre a Irlanda?

Por trabalhar com alunos brasileiros, Bló acompanha as dificuldades de quem vive no país. As reclamações mais frequentes são:

  • o sotaque irlandês, difícil para quem estudou apenas com material americano;
  • a busca por acomodação e os aluguéis altos;
  • o clima frio, úmido e imprevisível;
  • problemas com grupos de jovens no centro e no transporte público.

A lista, porém, não representa a experiência completa. A maioria dos alunos de Bló gostava de viver na Irlanda, havia criado uma comunidade e enxergava possibilidades de crescimento.

Famílias elogiavam a educação dos filhos, enquanto profissionais valorizavam a chance de encontrar outro emprego depois de uma demissão. Muitos começavam em funções fora da área e, com mais inglês e experiência local, conseguiam avançar para posições mais bem remuneradas.

É possível morar na Irlanda sem falar inglês?

É possível sobreviver, mas Bló faz uma distinção importante: sobreviver não é o mesmo que construir uma vida plena. A comunidade brasileira é grande o suficiente para que alguém trabalhe, compre, alugue e resolva parte da rotina em português.

Ela conhece alunos que chegaram à escola depois de mais de 15 anos na Irlanda sem conseguir se comunicar em inglês. Essas pessoas se viravam, mas continuavam dependentes de tradutores ou conhecidos para ir ao médico, conversar com professores, lidar com documentos e resolver problemas no trabalho.

A falta do idioma também restringe empregos. Em determinados frigoríficos, por exemplo, há equipes em que quase todos falam português. Isso funciona enquanto a pessoa permanece naquela função. Se houver um problema físico, uma demissão ou vontade de mudar de área, as opções diminuem.

Até a percepção cultural fica limitada. Alguns alunos dizem que irlandeses são grossos apenas pela expressão facial, sem entender o que foi dito. Para Bló, aprender o idioma permite substituir suposições por conversas reais.

O sotaque irlandês precisa ser treinado

Saber inglês com pronúncia americana não garante que o recém-chegado compreenderá as ruas de Dublin. Ritmo, vocabulário e sotaques variam entre regiões da Irlanda.

A recomendação de Bló é sair de casa e falar com pessoas locais. Filmes e cursos ajudam, mas a fala cotidiana não segue o mesmo padrão. É necessário errar, pedir repetição e passar pela fase em que as palavras faltam.

Todos que alcançaram fluência começaram sem conseguir formar frases com facilidade. A vergonha não desaparece antes da prática; ela diminui justamente porque a pessoa pratica.

O que brasileiros e irlandeses podem aprender uns com os outros?

Bló percebe os irlandeses como mais diretos. Se não querem algo, tendem a dizer “não”. No Brasil, ela precisou aprender a suavizar respostas para não parecer rude.

O outro lado dessa delicadeza é a falta de compromisso de certas frases. Quando um brasileiro diz “vamos marcar um churrasco”, pode estar apenas demonstrando simpatia, sem data definida. Para uma irlandesa, a frase parece um convite que realmente será organizado.

Os brasileiros, por sua vez, mostram criatividade diante de problemas. Quando falta uma ferramenta ou o planejamento falha, procuram outra forma de concluir o serviço. Bló observa que um trabalhador irlandês tende mais a interromper a tarefa até receber exatamente o que foi previsto.

Ela também compara a relação com o trabalho. Na percepção pessoal de Bló, muitos irlandeses cumprem o horário necessário e protegem fins de semana, férias e feriados. Brasileiros imigrantes, especialmente os que querem avançar rapidamente, podem trabalhar horas demais. Aprender a descansar também faz parte da adaptação.

O que faria a Teacher Bló voltar para a Irlanda?

A primeira razão seria a família. Se os pais precisassem de cuidados, Bló afirma que voltaria imediatamente. A segunda seria uma melhora significativa do clima — hipótese que ela apresenta com bom humor ao falar sobre o aquecimento global.

Como cidadã irlandesa, ela reconhece os benefícios e a rede de proteção social disponíveis no país. Ainda assim, no momento da gravação, sol, praia, moradia e liberdade geográfica pesavam mais na escolha.

A história corrige uma ideia simplista sobre imigração. Nem todo movimento acontece do Brasil para a Europa, e nem todo europeu considera a Europa o melhor lugar para viver. O destino ideal depende das prioridades e da estrutura de cada pessoa.

Assista ao vídeo completo para acompanhar o passeio por Dublin, conhecer a perspectiva da Teacher Bló e entender por que uma visita de três meses ao Brasil se transformou numa nova vida em Garopaba.