Katelin Fiddis: a norte-irlandesa que aprendeu português e criou laços com o Brasil

O interesse por idiomas transformou a trajetória de Katelin Fiddis e criou uma ligação inesperada entre a Irlanda do Norte e o Brasil. No episódio 65 do Bolder Podcast, a criadora do canal A Gringa Norte-Irlandesa conta como começou a estudar português, viveu em São Paulo e passou a produzir conteúdo para brasileiros.

Em português fluente, Katelin fala sobre formação acadêmica, trabalho voluntário, diferenças culturais e a maneira como a experiência no Brasil mudou sua percepção sobre situações que antes pareciam corriqueiras.

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Irlanda do Norte e República da Irlanda não são o mesmo país

Logo no início da conversa, Katelin chama atenção para uma confusão frequente entre brasileiros. A ilha da Irlanda é dividida entre duas jurisdições: a República da Irlanda, um Estado soberano, e a Irlanda do Norte, que integra o Reino Unido ao lado de Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Essa diferença afeta governo, moeda, serviços públicos e regras de imigração. Katelin vive na região de Belfast e comenta que até pessoas residentes na República da Irlanda nem sempre conhecem bem a realidade do outro lado da fronteira.

O tema também envolve identidade. Pessoas da Irlanda do Norte podem se identificar como britânicas, irlandesas ou ambas, e a entrevista mostra por que é importante não presumir a nacionalidade escolhida por alguém apenas pelo local onde nasceu.

Do interesse pela América Latina ao estudo do português

Katelin começou a olhar com mais curiosidade para a América Latina por volta dos 17 anos. Naquele momento, ainda considerava diferentes possibilidades profissionais e chegou a pensar em música e informática antes de escolher uma graduação em idiomas.

Ela optou por estudar espanhol e português, embora soubesse apenas algumas palavras no início do curso e nunca tivesse assistido a filmes brasileiros ou acompanhado a música do país. As aulas reuniam variantes de Portugal e do Brasil, o que produziu situações curiosas quando ela chegou a São Paulo e ouviu comentários sobre seu sotaque.

Durante a formação, Katelin passou parte de um período no exterior em Madri e outra parte no Brasil. Ela diz que queria mais do que frequentar uma universidade: buscava uma experiência de convivência direta com a população e com o cotidiano local.

A experiência de viver e trabalhar em São Paulo

No Brasil, Katelin ficou com uma família e participou de projetos ligados a uma organização cristã. Um deles atendia crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade na região central de São Paulo, próxima à Praça da Sé.

Ela relata que o contato com jovens expostos à vida nas ruas, ao uso de drogas e à violência foi um choque. Katelin havia crescido em um ambiente protegido na Irlanda do Norte e passou a comparar pequenos incômodos de sua rotina com problemas muito mais graves enfrentados pelas pessoas que conheceu.

A entrevista trata essa experiência pelo olhar pessoal da convidada. Questões como pobreza, dependência química e violência contra crianças são complexas e não podem ser explicadas por uma única vivência, mas o trabalho marcou profundamente a relação de Katelin com o Brasil.

A recepção dos brasileiros e o choque cultural

Katelin descreve os brasileiros como mais abertos a conversas pessoais, elogios e demonstrações de afeto do que as pessoas de seu convívio na Irlanda do Norte. Ela recorda que, ao chegar a igrejas e reuniões de família, era recebida com perguntas, abraços e comentários sobre sua aparência.

O cabelo ruivo foi uma diferença especialmente marcante. Katelin conta que sofreu provocações por causa dele durante a infância e a adolescência na Irlanda do Norte. No Brasil, a reação foi praticamente oposta: muitas pessoas elogiavam a cor e queriam saber se era natural.

Para ela, a curiosidade brasileira às vezes produz perguntas muito diretas, mas também acelera a criação de vínculos. A convidada diz que algumas amizades construídas em poucos meses no Brasil alcançaram um grau de intimidade que normalmente levaria muito mais tempo em seu país.

Comida brasileira, música e novas descobertas

A culinária ocupa boa parte da conversa. Katelin cita coxinha, arroz com feijão, farofa, feijoada, coração de galinha e língua bovina entre os alimentos que experimentou. Algumas escolhas provocaram estranhamento no início, enquanto outras se tornaram lembranças afetivas de pessoas e lugares.

Na universidade, ela também estudou história, cinema e música brasileira. Entre os temas mencionados estão o período colonial, os Jogos Olímpicos, filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite e gêneros musicais populares. Katelin reconhece, porém, que conhecer um país tão grande é um processo contínuo.

Como nasceu o canal A Gringa Norte-Irlandesa

O canal surgiu como uma forma de responder dúvidas sobre a Irlanda do Norte e compartilhar a relação de Katelin com o Brasil. Nos vídeos, ela aborda idioma, comida, geografia, música e diferenças culturais, além de testar seus conhecimentos sobre estados, capitais e símbolos brasileiros.

A produção de conteúdo aproximou Katelin de uma comunidade que nem sempre encontra informações em português sobre a Irlanda do Norte. Também permitiu que ela continuasse praticando o idioma e aprendendo com sugestões enviadas pelo público.

Uma ponte entre duas culturas

A trajetória de Katelin mostra como aprender uma língua pode ir muito além da gramática. O português abriu caminho para uma experiência de vida no Brasil, para amizades e para um projeto digital que apresenta a Irlanda do Norte a milhares de brasileiros.

Ao mesmo tempo, sua história revela os limites das generalizações culturais. Nem todos os brasileiros ou norte-irlandeses se comportam da mesma maneira, mas comparar experiências ajuda a identificar hábitos que muitas vezes passam despercebidos para quem sempre viveu no mesmo lugar.

Fontes complementares

Office for National Statistics — Irlanda do Norte no Reino Unido

Northern Ireland Assembly — situação política e relação com a União Europeia