Defesa pessoal feminina: Jaque Almeida e o jiu-jitsu

A defesa pessoal feminina se tornou parte central do trabalho de Jaque Almeida depois de uma trajetória que uniu jiu-jitsu, imigração e comunicação. Nascida em Suzano e criada principalmente em Mogi das Cruzes, ela deixou uma carreira em publicidade no Brasil para estudar inglês na Irlanda — e acabou reconstruindo tanto a vida profissional quanto a relação consigo mesma.

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No Bolder Podcast 334, Jaque conta a Bolder como começou no jiu-jitsu aos 21 anos, morou em uma casa com 32 pessoas ao chegar à Irlanda, passou por empregos difíceis, conquistou uma vaga em marketing com permissão de trabalho e, anos depois, enfrentou um burnout. A conversa também explica como essas experiências deram origem às aulas, palestras e mentorias que ela desenvolve para mulheres.

Como o jiu-jitsu entrou na vida de Jaque Almeida

Jaque começou a praticar jiu-jitsu no fim de 2012. Ela era sedentária, queria emagrecer e procurou uma academia pensando em fazer pilates ou aulas de jump. Um amigo insistiu para que experimentasse a luta.

O primeiro treino mudou sua percepção do próprio corpo. Jaque descobriu que conseguia executar alavancas, controlar movimentos e usar uma força que não sabia possuir. O emagrecimento veio como consequência, mas deixou de ser a principal razão para continuar.

Rafael e Gabriel Marangoni, seus treinadores em Mogi das Cruzes, tiveram papel importante nesse início. Mesmo sem saber se ela permaneceria no esporte, deram suporte e apresentaram o jiu-jitsu como técnica, disciplina e processo de aprendizado — não apenas como combate.

Com o tempo, o tatame se transformou em uma referência para outras áreas. Metas, repetição, correção e capacidade de continuar depois de uma derrota passaram a orientar também decisões profissionais.

Por que Jaque decidiu morar na Irlanda

No Brasil, Jaque trabalhava em uma agência de publicidade que atendia órgãos públicos e prefeituras. Ao mesmo tempo, sentia que não recebia o reconhecimento profissional esperado. Ela também havia deixado de lado o desejo antigo de aprender inglês e percebeu que parte dos seus planos estava sendo construída em função de relacionamentos e expectativas externas.

Durante a terapia, visitou um apartamento e uma agência de intercâmbio para comparar dois futuros possíveis. O apartamento era bonito, mas não despertou pertencimento. Na agência, a resposta foi imediata: estudar fora era o projeto que queria retomar.

Jaque encerrou o relacionamento, saiu do emprego e embarcou para a Irlanda com a reserva calculada para o período de estudante. A mudança não foi apresentada como fuga, mas como uma tentativa de recuperar objetivos que haviam sido adiados.

A chegada: 32 moradores e dinheiro contado

A primeira casa tinha 32 pessoas. Jaque dividia o quarto com outras cinco e pagava €300 de aluguel, em uma situação que ela mesma reconhece que provavelmente não seria permitida hoje.

Como filha única, precisou aprender rapidamente a compartilhar espaço, despesas e rotinas. Uma planilha registrava os gastos da casa. O dinheiro levado para a imigração precisava cobrir também depósito, primeiro aluguel, alimentação e transporte, custos que nem sempre aparecem com clareza no planejamento inicial.

A reserva curta aumentou a urgência para encontrar trabalho, mesmo com pouco inglês.

Uma primeira experiência de trabalho que quase encerrou o intercâmbio

O primeiro emprego foi como kitchen porter. Jaque relata que o chefe jogava restos de comida no chão para que ela limpasse, mantinha o turno até as 22h e criava situações que a deixavam desconfortável.

Sem ônibus ao fim do expediente, ela caminhava cerca de 43 minutos até a casa. Trabalhou apenas um fim de semana e voltou no dia seguinte para receber o valor devido. A experiência foi tão negativa que ela pensou em usar a reserva, terminar os estudos e voltar ao Brasil.

A mudança de perspectiva começou por indicação de colegas do jiu-jitsu. Jaque participou de um trabalho voluntário auxiliando idosos em um mercado. Mesmo sabendo apenas cumprimentos básicos em inglês, foi recebida com cuidado e concluiu que não poderia avaliar o país inteiro pelo primeiro chefe.

Hotel, café e Subway: o inglês aprendido trabalhando

Depois do voluntariado, Jaque trabalhou em hotel, café e no Subway. O atendimento repetitivo ajudou a desenvolver o inglês: perguntas, pedidos e conversas com clientes se repetiam diariamente, permitindo praticar sem esperar dominar o idioma.

No Subway, conheceu Sam Slater, lutador de MMA. A conexão a aproximou da academia onde mais tarde passou a dar aulas de jiu-jitsu para mulheres.

Quando chegou à terceira renovação como estudante, Jaque decidiu tentar voltar à área de comunicação. Estabeleceu a meta de enviar dez currículos por dia. Começou em novembro e determinou que, se não conseguisse uma oportunidade até 25 de janeiro, faria um curso curto e retornaria ao Brasil.

Em 22 de janeiro, recebeu a primeira entrevista. Explicou sua experiência, a proximidade do vencimento da permissão e a necessidade de patrocínio para trabalhar. A empresa pediu duas referências e ofereceu uma posição de marketing executivo.

Jaque Almeida fala sobre jiu-jitsu e defesa pessoal feminina
Jaque Almeida conversa com Bolder sobre imigração, jiu-jitsu e defesa pessoal.

Como ela voltou para a carreira de marketing

Jaque identificou que ainda não tinha desenvoltura suficiente para depender somente da comunicação oral. Por isso, usou o conhecimento de design como porta de entrada. Fez um curso de seis meses em design digital e marketing na Griffith College e também estudou SEO.

O primeiro empregador da área não cumpriu corretamente o contrato de pagamento, o que poderia prejudicar a renovação migratória. Ela voltou ao mercado com experiência irlandesa e mais confiança.

Na procura seguinte, decidiu não começar a candidatura dizendo que precisava de uma permissão de trabalho. Primeiro apresentava competências e resultados; depois explicava a documentação necessária. Segundo Jaque, essa mudança evitou que empresas sem familiaridade com o processo descartassem o currículo antes de conhecer seu perfil.

Permissões de trabalho e residência dependem de critérios específicos e mudam com o tempo. A experiência dela não substitui orientação oficial. As regras atuais devem ser conferidas no Serviço de Imigração da Irlanda.

O burnout e a mudança de propósito

Anos depois, já em uma função de gestão, Jaque diz ter sofrido um burnout provocado pela pressão e pelo conflito entre suas responsabilidades e os valores da empresa. Ela passou mal em casa, ficou inconsciente e, ao recuperar a consciência, teve dificuldade para lembrar o próprio nome e a idade. Amigos que estavam presentes prestaram auxílio.

Mesmo após o episódio, voltou ao trabalho na segunda-feira e permaneceu por mais um mês porque se preocupava com funcionários e clientes. Só depois percebeu que estava priorizando todos ao redor, enquanto a empresa não protegia sua saúde.

Ao sair, passou alguns meses sem conseguir assumir outro emprego convencional. Manteve apenas aulas e atividades relacionadas ao trabalho que considerava seu propósito. Jaque atribui a recuperação à reserva financeira, ao apoio das pessoas próximas, à fé e à decisão de investir naquilo que já fazia com mulheres.

Depois de uma viagem ao Brasil, começaram a surgir palestras no Sebrae, em uma prefeitura e na OAB. Ela passou a aplicar princípios do jiu-jitsu à comunicação assertiva, à postura corporal, ao feedback e à liderança.

Defesa pessoal feminina vai além do confronto físico

Para Jaque, defesa pessoal não começa quando uma agressão física já está acontecendo. Ela envolve perceber o ambiente, identificar mudanças de comportamento, compreender comunicação verbal e não verbal e estabelecer limites.

Nas aulas e palestras, trabalha postura, voz, base corporal e capacidade de criar distância. Uma das frases que repete é que a mulher não deve abaixar a cabeça, exceto para proteger o pescoço em uma situação específica de treino ou defesa.

Ela recomenda manter os ombros para trás, evitar andar distraída com o celular e observar quem está ao redor. Se a pessoa se sentir ameaçada, uma base com um pé à frente e outro atrás pode oferecer mais estabilidade.

Em caso de queda, Jaque orienta proteger a cabeça mantendo o queixo próximo ao peito. Se estiver consciente no chão, as pernas podem ajudar a criar distância e tempo para levantar e sair. Essas orientações não substituem treinamento presencial: técnica de defesa pessoal precisa ser praticada com acompanhamento adequado.

Jiu-jitsu é indicado para iniciantes?

Jaque rejeita a ideia de que alguém precisa emagrecer ou ficar forte antes de começar. Ela mesma entrou sedentária e construiu preparo com o treino. O professor deve adaptar movimentos à idade, à experiência e às limitações de cada aluno.

Ela cita alunas entre 60 e 70 anos e explica que exercícios como rolamentos podem ser ajustados ou substituídos. Para Jaque, não existe idade-limite universal, mas existe responsabilidade do treinador em respeitar cada corpo.

Comunidade e empoderamento no tatame

Na Irlanda, Jaque percebe que muitas mulheres procuram primeiro a defesa pessoal, enquanto no Brasil o interesse inicial costumava ser maior pelo esporte. Parte do trabalho dela é mostrar que as duas áreas se conectam.

As aulas femininas também criam uma comunidade. Quando uma nova aluna entra, o grupo comemora e reduz a pressão de ter que provar força ou conhecimento. Mulheres mais experientes organizam treinos conjuntos para aproximar praticantes de academias diferentes.

O objetivo não é vencer colegas a qualquer custo. Jaque conta que corrige alunos que usam força de forma desnecessária, pois uma experiência agressiva pode traumatizar quem acabou de começar e afastar alguém que poderia permanecer anos no esporte.

Perguntas frequentes sobre defesa pessoal feminina

Jiu-jitsu serve para defesa pessoal?

O jiu-jitsu ensina controle corporal, base, quedas, alavancas e reação sob pressão. Esses elementos podem ajudar, mas nenhuma luta oferece garantia em uma situação real. Prevenção, percepção do ambiente e saída segura continuam sendo prioridades.

É preciso ser forte para começar?

Não. Técnica, condicionamento e confiança são construídos ao longo do treino. Uma boa academia adapta a atividade para iniciantes e respeita limitações físicas.

Defesa pessoal é apenas aprender golpes?

Na abordagem apresentada por Jaque, não. Comunicação assertiva, postura, percepção de risco, limites e capacidade de pedir ajuda fazem parte do processo.

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Da publicidade às palestras e mentorias

A trajetória de Jaque não aconteceu em linha reta. Ela deixou a publicidade, quase desistiu da Irlanda depois do primeiro emprego, reconstruiu o inglês no atendimento ao público, voltou ao marketing e precisou abandonar uma função de gestão depois do burnout.

O elemento constante foi o jiu-jitsu. O esporte serviu como método para criar metas, suportar frustrações e transformar experiência em ensino. Hoje, como faixa-preta, atleta, treinadora e palestrante, Jaque usa o que aprendeu para trabalhar confiança, comunicação e defesa pessoal feminina.

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