Caçadores de veados na Irlanda: Manejo necessário ou crueldade?
Recentemente, manchetes sobre a contratação de “snipers” para abater cervos no Phoenix Park, em Dublin, geraram uma onda de indignação e curiosidade nas redes sociais. Mas o que existe por trás dessas operações? Para esclarecer o assunto, o Bolder conversou com Davis Ramos, um brasileiro que vive na Irlanda e atua legalmente como deer manager. Longe dos estereótipos de “matador”, Davis apresenta uma visão técnica e ecológica sobre a superpopulação de servídeos e por que o controle populacional é vital para o ecossistema irlandês.
O estigma da caça e a realidade irlandesa
Davis começa desmistificando a imagem negativa que muitos brasileiros carregam sobre a caça, muitas vezes associada à ilegalidade e à extinção de espécies no Brasil. Na Irlanda, a situação é o oposto: o país enfrenta uma superpopulação de veados que não possuem predadores naturais — o lobo irlandês, seu antigo predador, está extinto há séculos.
De acordo com dados oficiais citados por Davis, entre 2023 e 2024, quase 80 mil veados foram abatidos legalmente na Irlanda. Esse número assustador é, na verdade, um reflexo da necessidade de reequilibrar o ambiente.
Por que o abate controlado é feito?
A falta de manejo não afeta apenas a estética dos parques; ela gera problemas reais e mensuráveis:
- Acidentes de trânsito: Colisões com veados em rodovias são frequentes e perigosas.
- Danos à agricultura: Grupos de 80 a 120 animais invadem fazendas, pulam cercas e consomem plantações inteiras e o alimento destinado ao gado.
- Degradação florestal: A superpopulação impede o reflorestamento de espécies nativas, pois os veados consomem os brotos novos.
- Bem-estar animal: Sem manejo, os animais sofrem com a escassez de alimento e doenças.
A polêmica dos “snipers” no Phoenix Park
Sobre a notícia dos snipers que abateram 118 cervos no Phoenix Park, Davis explica que o termo é sensacionalista. O que ocorre é um abate profissional e humano realizado por deer managers. Ele esclarece um ponto crítico: o abate de fêmeas e juvenis (filhotes) é feito para garantir que o animal não sofra. Se apenas o filhote é retirado, a mãe sofre; se apenas a mãe morre, o filhote não sobrevive sozinho. O objetivo é o controle da taxa de natalidade, que chega a 90% de sucesso na espécie.
Como se tornar um caçador legal na Irlanda?
Diferente do que muitos pensam, ter uma arma para caçar na Irlanda exige um processo rigoroso e burocrático. Davis detalha os passos:
- Curso RIDCap: Um treinamento de biologia, segurança e balística.
- Prova Teórica e Prática: É necessário acertar pelo menos 40 de 50 questões e passar em um teste de tiro em campo certificado.
- Licença de Caça Anual: Emitida pelo órgão de Heritage.
- Acesso à Terra: O caçador precisa de autorização por escrito de um proprietário de terra privada ou acesso às florestas da Coillte.
- Aprovação da Garda: A polícia irlandesa faz uma verificação rigorosa antes de liberar a posse da arma, que deve ser guardada em um cofre específico.
Bolder ressalta que defesa pessoal ou residencial não são motivos válidos para ter uma arma na Irlanda; a licença é exclusiva para a atividade de manejo.
Do campo para a mesa: A carne de Venison
Um dos pontos mais interessantes da conversa é o aproveitamento do animal. Davis não caça por troféus, mas para consumo próprio. A carne de veado, chamada de Venison, é descrita como:
- 100% Orgânica: Livre de hormônios e antibióticos.
- Nutritiva: Mais rica em proteína e ferro, e com menos gordura que a carne de boi.
- Saborosa: Comparável às melhores carnes de caça do mundo.
Conclusão: Vale a pena o manejo?
Para Davis, a atividade é uma conexão com a natureza e uma forma de assumir a responsabilidade pelo próprio alimento, sem terceirizar o abate. Embora polêmico para alguns, o manejo legalizado é apresentado como a solução mais ética e sustentável para o equilíbrio dinâmico da fauna irlandesa.
E você, o que acha? O abate controlado é a melhor solução para a superpopulação ou deveriam existir outras alternativas?
Assista à entrevista completa no canal do Bolder Podcast: youtube.com/live/FviJTptHwek
