Como é a vida na Irlanda para um intercambista que chega sem falar inglês? Amauri Júnior respondeu a essa pergunta depois de seus primeiros cinco meses no país. No Bolder Podcast, ele relata a busca por trabalho, a experiência como kitchen porter, a rotina de estudos, os problemas com moradia e a criação de um canal no YouTube enquanto tentava se estabelecer em Dublin.
A conversa registra um começo ainda em construção, sem transformar dificuldades em fórmula de sucesso. Amauri fala sobre casas cheias, empregos temporários, demora na documentação e jornadas longas, mas também explica como os contatos feitos na Irlanda ajudaram a dar mais estabilidade à rotina.
De Piripiri a São Paulo antes do intercâmbio
Amauri nasceu em Piripiri, no Piauí, e se mudou para São Paulo aos 17 anos. No início, dividiu uma acomodação de trabalhadores com cerca de 20 pessoas e dormia em beliches. Foi uma primeira experiência de adaptação longe da família, muito antes de pensar em morar na Europa.
Ele construiu a carreira em restaurantes e hotéis, principalmente como garçom. A rotina incluía horários divididos e dias extensos: começava no almoço, fazia uma pausa e voltava para o serviço noturno. Também trabalhou em Angra dos Reis. Com a renda da profissão, conta que conseguiu construir uma casa no Piauí aos 24 anos.
O interesse por exercícios, calistenia e criação de conteúdo levou Amauri ao YouTube. Ele começou a aprender gravação e edição por conta própria, antes mesmo da viagem. Essa experiência seria importante mais tarde, quando os vídeos sobre o cotidiano na Irlanda começaram a alcançar um público maior.
Por que Amauri escolheu a Irlanda?
O plano inicial era estudar na Nova Zelândia. A Irlanda entrou no radar por meio de contatos feitos pela internet e pela possibilidade de conciliar curso de inglês e trabalho. Amauri chegou a conversar com uma agência, mas acabou organizando a viagem sem a intermediação dela e recebeu ajuda de um amigo chamado Alon.
Ele desembarcou em 30 de janeiro, no inverno, sem domínio do inglês. Além do frio e da mudança cultural, precisou lidar com quarto compartilhado, documentação e a necessidade de encontrar renda rapidamente. No momento da entrevista, ainda havia passado apenas cinco meses no país, portanto suas conclusões refletem o início do intercâmbio.
Como conseguir trabalho na Irlanda sem inglês?
A experiência como garçom não garantiu uma vaga semelhante em Dublin. Sem inglês suficiente para atender clientes, Amauri encontrou dificuldades em restaurantes e precisou buscar funções com menor exigência de comunicação. A primeira oportunidade veio por indicação, como kitchen porter — o profissional responsável por limpeza, organização e apoio operacional na cozinha.
O trabalho na Microsoft não era em tecnologia
Um dos vídeos do canal de Amauri chamou atenção com a história de como ele conseguiu trabalhar na Microsoft sem inglês. No podcast, ele esclarece o contexto: prestava serviço como kitchen porter na estrutura da empresa, e não ocupava uma vaga de tecnologia ou um cargo corporativo na Microsoft.
Por meio de empresas terceirizadas, também trabalhou em locais como o Bank of Ireland e uma instituição de ensino católica. No começo, os turnos eram irregulares. Ele podia ser chamado para um dia e depois passar um período sem nova escala, o que dificultava qualquer previsão de renda.
Contatos ajudaram a conquistar uma rotina fixa
A situação começou a melhorar depois de novos contatos feitos durante o período do St. Patrick’s Day. O networking abriu caminho para uma oportunidade mais constante. Amauri passou a ter uma rotina próxima das 12h às 22h, conciliando trabalho, escola e produção de vídeos.
O relato mostra por que conseguir o primeiro turno e ter um emprego estável são coisas diferentes. Para quem chega sem inglês, indicação e disponibilidade podem abrir a porta, mas a irregularidade das escalas precisa entrar no planejamento financeiro.
Moradia na Irlanda: casa cheia, distância e contrato
Na primeira acomodação, Amauri dividia a casa com aproximadamente 15 pessoas. A quantidade de moradores afetava tarefas simples, como usar a cozinha e organizar os horários. Mais tarde, ele se mudou para um endereço próximo do trabalho e percebeu uma melhora direta na qualidade de vida.
A proximidade reduziu tempo e custo de deslocamento, mas outra mudança trouxe prejuízo. Amauri havia assinado um contrato de seis meses e precisou sair antes do fim. A experiência virou um alerta: antes de assumir um compromisso longo, vale conhecer a casa, a região, os moradores e o trajeto cotidiano.
PPS, imposto emergencial e recuperação do investimento
A emissão do PPS demorou no caso de Amauri, e parte do salário ficou sujeita à tributação emergencial. Ele relata que, depois da regularização, recebeu de volta cerca de €4.500 somando os valores recuperados naquele período. Esse número pertence à experiência pessoal narrada no episódio e não deve ser tratado como estimativa para todo intercambista.
Após alguns meses de trabalho, Amauri calcula que já havia recuperado o dinheiro investido na viagem. Isso não significava que todos os problemas estivessem resolvidos: aluguel, mudança de casa, escola e a irregularidade inicial dos turnos continuavam pesando no orçamento.
É possível aprender inglês trabalhando com brasileiros?
Amauri chegou sem conseguir se comunicar em inglês e percebeu evolução nos primeiros cinco meses. Ao mesmo tempo, reconhece que trabalhar muitas horas e conviver com vários brasileiros reduzia as oportunidades de praticar. O curso ajudava, mas o cansaço e a rotina de trabalho limitavam o ritmo do aprendizado.
O episódio deixa uma resposta equilibrada: é possível avançar começando do zero, porém apenas morar na Irlanda não torna ninguém fluente automaticamente. É necessário criar situações de uso do idioma e reservar tempo para estudar, mesmo quando o trabalho ocupa grande parte do dia.
O canal no YouTube virou um segundo trabalho
Enquanto trabalhava como kitchen porter e frequentava a escola, Amauri continuou publicando um ou dois vídeos por semana. Ele gravava e editava manualmente pelo celular. O conteúdo sobre a Microsoft ganhou alcance porque parte do público interpretou o título como uma contratação na área de tecnologia.
O crescimento trouxe monetização e engajamento, mas também criou uma terceira frente de responsabilidade ao lado do emprego e dos estudos. Para Amauri, constância foi mais importante do que esperar equipamentos ou condições ideais para começar.
Frio, adaptação e um episódio de xenofobia
Sobre o inverno irlandês, Amauri diz que roupas adequadas ajudam e que o vento costuma ser a parte mais incômoda. Ambientes internos aquecidos tornam a rotina mais suportável, mas a chegada no fim de janeiro intensificou o choque de quem vinha do Brasil.
Ele também relata um episódio de hostilidade perto de casa, quando uma pessoa gritou ofensas associando-o a um espanhol. Embora tenha sido um caso isolado em sua experiência até então, Amauri não esconde o desconforto causado pela situação.
Vale a pena fazer intercâmbio na Irlanda?
Depois de cinco meses, Amauri pretendia permanecer pelo período máximo permitido no intercâmbio e tentar uma oportunidade que pudesse levar a uma permissão de trabalho. Caso isso não acontecesse, considerava outro intercâmbio, uma viagem ou o retorno ao Brasil. A companheira, que estava em São Paulo, também poderia ir para a Irlanda mais tarde, embora o custo de manter duas pessoas exigisse novo planejamento.
A história mostra que a vida na Irlanda como intercambista pode combinar progresso rápido com instabilidade. Amauri encontrou trabalho, recuperou o investimento e fez o canal crescer, mas precisou aceitar funções diferentes de sua experiência anterior, morar em casas cheias e ajustar expectativas sobre inglês e emprego. Assista ao episódio completo para acompanhar a conversa com Bolder e entender os detalhes dessa fase inicial.
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