Como está a vida na Irlanda para quem chega como intercambista? Gabriel e Sabrina, criadores do Catarinas na Europa, respondem a essa pergunta a partir da própria experiência: planejamento no Brasil, dificuldade para encontrar acomodação, trabalhos fora de suas áreas, evolução no inglês e a tentativa de construir uma permanência mais estável no país.
No Bolder Podcast 350, o casal evita vender a Irlanda como solução automática. Eles explicam por que estavam felizes com a decisão de emigrar, mas ainda não se consideravam satisfeitos profissionalmente. A conversa mostra que o começo exige aceitar limites, reorganizar expectativas e entender que poder de compra não é a única medida de qualidade de vida.
Quem são Gabriel e Sabrina, do Catarinas na Europa?
Gabriel e Sabrina são de Itajaí, em Santa Catarina. Eles se conheceram jovens, casaram cedo e compartilhavam o desejo de morar fora do Brasil. Estados Unidos e Canadá apareceram primeiro nos planos; a Irlanda só entrou no radar quando começaram a assistir a conteúdos sobre intercâmbio durante o período anterior à pandemia.
No Brasil, Gabriel acumulava quase nove anos de experiência na área de logística e comércio exterior em uma grande empresa de alimentos. Sabrina trabalhava com venda de móveis sob medida e estudava fisioterapia, curso que decidiu interromper para realizar o projeto de viver no exterior.
Em aproximadamente um ano, os dois pesquisaram custos, montaram uma planilha e calcularam a vida com a renda limitada de estudantes. A preparação incluiu até o processo para levar a cachorrinha do casal, mas a crise de acomodação fez com que ela permanecesse com a família no Brasil.
O planejamento para o intercâmbio na Irlanda
Gabriel chegou 15 dias antes de Sabrina. O casal viajou com dois amigos e sabia que não encontraria imediatamente uma casa só para eles. A primeira acomodação, perto de Dundrum, reunia seis pessoas e apenas um banheiro. Mesmo com as limitações, eles permaneceram ali por cerca de um ano e dois meses.
A conta feita no Brasil partia do salário mínimo da época e do limite de 20 horas semanais para estudantes. Essa referência ajudou a chegar com expectativas mais realistas sobre aluguel, alimentação e divisão de casa. Ainda assim, a rotina prática era mais intensa do que os vídeos mostravam: resolver documentação, PPS, escola, emprego e moradia ocupava quase todo o tempo.
Para o casal, uma das causas de frustração entre intercambistas é imaginar que poucas horas de trabalho serão suficientes para morar sozinho, comprar tudo o que deseja e ainda juntar muito dinheiro. No episódio, eles lembram que aluguel e custo de vida consomem uma parte importante da renda e que o período de estudo deve ser usado para desenvolver o inglês.
Os primeiros trabalhos de Gabriel na Irlanda
Ansioso para começar, Gabriel procurou oportunidades em grupos do Facebook. Em poucos dias, estava dividindo a semana entre construção civil e um emprego como kitchen porter, o profissional que lava pratos e dá suporte à cozinha.
O episódio traz uma cena concreta desse início. Depois de trabalhar desde as oito da manhã na construção, Gabriel seguiu para a cozinha e ficou até perto da madrugada. Sem ter se alimentado direito, sentiu-se mal em meio ao calor e ao movimento de um evento. Quando pediu comida, recebeu primeiro uma taça de sorvete, enquanto a cozinha estava sobrecarregada. A experiência o levou a abandonar o trabalho de kitchen porter e permanecer na construção.
Mais tarde, ele também fez entregas e trabalhou como cleaner. Mesmo com a experiência anterior em comércio exterior, ainda não se sentia pronto para disputar vagas em sua área por causa da comunicação em inglês. Ao final da conversa, resume o momento com uma frase honesta: estava feliz com a decisão, mas ainda não satisfeito.
De cleaner ao trabalho de home care
Sabrina chegou sem conseguir conversar em inglês e começou a trabalhar como cleaner por meio de um aplicativo. A atividade trouxe independência e contato direto com clientes, mas também situações desconfortáveis e muito aprendizado prático.
Depois, ela entrou na área de home care, prestando apoio a pessoas idosas. O trabalho ampliou o uso do inglês e mudou sua percepção sobre cuidado. Sabrina relata que uma mesma pessoa pode estar carinhosa em um dia e confusa ou agressiva no outro, especialmente em situações relacionadas à demência.
Um dos atendimentos que mais a marcou envolveu um homem que se comunicava por língua de sinais. Como ela não dominava o recurso, os dois precisaram escrever em um caderno. A experiência despertou a vontade de aprender ao menos sinais básicos para tornar o atendimento mais humano.
O trabalho também revelou a solidão de alguns idosos. Sabrina conta que trabalhou no Natal cuidando de pessoas que não tinham familiares por perto. Para ela, home care não se resume a entregar água ou medicamentos: conversar sobre o dia, ouvir e criar confiança também fazem parte do cuidado.
Por que algumas pessoas desistem da vida na Irlanda?
Gabriel e Sabrina apontam uma combinação de fatores: expectativa financeira exagerada, saudade, dificuldade com o clima, inglês insuficiente e resistência a recomeçar profissionalmente. Quem deixou uma carreira consolidada no Brasil pode estranhar a necessidade de aceitar um trabalho operacional enquanto constrói idioma e contatos.
Eles também destacam que morar fora não é igual a viajar. Há dias de frio, chuva, pressão financeira e dúvidas sobre a decisão. Ao mesmo tempo, o casal valoriza as viagens que conseguiu fazer, as experiências que antes pareciam distantes e a autonomia desenvolvida ao começar de novo.
As regras de estudo, trabalho e imigração mencionadas refletem o período da gravação e podem mudar. Quem planeja um intercâmbio deve confirmar as condições atuais em fontes oficiais antes de tomar decisões.
A vida na Irlanda vale a pena?
Para Gabriel e Sabrina, valeu a pena, mas não porque tudo tenha acontecido rapidamente. A resposta está no processo: planejaram com antecedência, aceitaram dividir casa, trabalharam em funções diferentes e continuaram investindo no inglês.
O objetivo de Gabriel era voltar à logística e ao comércio exterior; Sabrina buscava estabilidade por meio do trabalho de cuidado. A história do Catarinas na Europa mostra que uma mudança de país não apaga o que foi construído no Brasil, mas pode exigir um caminho longo até que experiência, idioma e oportunidade se encontrem.
Assista ao episódio completo no topo da página para conhecer os detalhes dessa trajetória e a visão do casal sobre trabalho, acomodação, saudade e adaptação na Irlanda.
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