Consultora de imagem na Irlanda: a trajetória de Naiady Cunha

Trabalhar como consultora de imagem na Irlanda permitiu a Naiady Cunha retomar uma carreira que parecia ter ficado no Brasil. No Bolder Podcast 384, ela explica como saiu da gestão de moda, chegou ao intercâmbio sem falar inglês, criou uma empresa de limpeza e finalmente transformou a experiência de imigrante em parte de sua consultoria.

O episódio não reduz imagem a roupa cara. Naiady fala de contexto, autoestima, rotina e da distância que muitas mulheres sentem entre a pessoa que eram no Brasil e a vida prática que passaram a levar na Irlanda.

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Da gestão de moda no Brasil ao intercâmbio

Naiady é de São Bernardo do Campo e se formou em Gestão de Negócios da Moda. Ela explica que o setor oferece caminhos em produto, marketing, branding, produção e comércio exterior — muito além de desenhar ou costurar roupas.

O inglês se tornou uma barreira profissional. Negociações com fornecedores internacionais, fichas técnicas, preços e produção exigiam comunicação com equipes de outros países. O intercâmbio nasceu como forma de destravar a carreira.

Ao chegar à Irlanda sem dominar o idioma, as opções imediatas ficaram concentradas em trabalhos como limpeza e cuidado de crianças. Sete anos depois, na data da entrevista, ela já havia construído duas empresas e decidido permanecer no país.

Empreender com limpeza também ensinou sobre imagem

Naiady não trata a empresa de limpeza como uma passagem sem importância. Ela treinava profissionais recém-chegadas, ensinava a montar agenda, cobrar pelo serviço e abordar clientes de forma clara.

A própria roupa de trabalho virou aprendizado. Calças comuns manchavam com produtos de limpeza; ela pesquisou uma peça social mais resistente, que permitia trabalhar com segurança sem abandonar a apresentação que considerava adequada.

Esse exemplo resume sua visão: imagem precisa funcionar na vida real. Não faz sentido usar uma roupa bonita que atrapalhe o trabalho, mas também não é necessário desistir completamente da maneira como a pessoa deseja se apresentar.

Como surgiu a consultoria de imagem na Irlanda

A vontade existia desde o Brasil. Naiady lembra de ter encontrado, ainda como vendedora, um livro sobre personal stylist e pensado que aquela seria sua profissão. Naquele momento, porém, enxergava o serviço como algo reservado a artistas e clientes de renda alta.

Na Irlanda, observar outra profissional atuando na área mostrou que havia espaço para começar. Sua formação em moda forneceu a base técnica, mas foi a experiência como imigrante que definiu o público e os problemas que ela queria resolver.

Por que a imigração muda o estilo pessoal?

Muitas clientes de Naiady chegaram como intercambistas e passaram a usar mochila, tênis e roupas adequadas ao frio — peças que não faziam parte de sua rotina no Brasil. A mudança é prática, mas pode causar a sensação de não saber mais se vestir.

Naiady organiza essa questão em três dimensões de estilo:

  • Hábito: o que a pessoa veste repetidamente por causa da rotina.
  • Essência: aquilo que combina com sua identidade e parece natural.
  • Desejo: a imagem que ela admira e gostaria de construir.

O conflito aparece quando o hábito imposto pela nova vida ocupa todo o espaço e a pessoa deixa de reconhecer sua essência. A consultoria procura aproximar essas três partes sem ignorar clima, trabalho ou orçamento.

Consultoria de imagem é só para comprar roupa?

Não. A compra é apenas uma etapa possível. Naiady fala de análise de necessidades, combinação de peças e pesquisa antes de levar a cliente às lojas. No serviço de personal shopper, ela dizia fazer cerca de cinco horas de pré-shopping para comparar peças, preços e qualidade.

Esse trabalho reduz compras por impulso. Em vez de escolher algo só porque está barato ou em tendência, a pessoa avalia se a peça conversa com o guarda-roupa, suporta o uso esperado e resolve uma necessidade concreta.

Imagem profissional sem fantasia

Um dos melhores pontos do episódio é a recusa dos extremos. Naiady administra equipes, visita clientes de limpeza e também atende consultoria. A roupa muda conforme a tarefa, mas ela procura manter coerência entre conforto, função e identidade.

Para quem imigrou e sente que perdeu a própria referência, a pergunta central não é “qual roupa está na moda?”. É “como quero me apresentar nesta vida que construí?”. A conversa completa com Bolder mostra como Naiady chegou a essa resposta passando por trabalho, estudo e empreendedorismo.