O intercâmbio na Irlanda de Marcelle Mancini levou cerca de cinco anos para sair do papel. Nascida e criada no Chapadão, no Rio de Janeiro, ela trabalhou desde criança, enfrentou duas experiências problemáticas com empresas de intercâmbio e precisou juntar dinheiro mais de uma vez antes de finalmente embarcar.
No Bolder Podcast 286, Marcelle conta a Bolder como a infância marcada pela falta de dinheiro moldou sua relação com trabalho, consumo e segurança. A conversa também mostra uma parte menos romantizada do intercâmbio: o frio na chegada, a espera por documentos, a dificuldade para conseguir horas de trabalho e a necessidade de criar um novo objetivo depois de realizar o sonho de morar fora.
Do Chapadão ao sonho de morar fora
Marcelle cresceu no Chapadão com a mãe e cinco irmãos. Ela lembra que faltavam itens básicos e que, ainda criança, ia à escola também porque a merenda era uma refeição garantida. Aos seis anos, já recolhia latinhas e materiais para reciclagem com os irmãos.
O primeiro emprego com carteira assinada veio somente aos 21 anos, depois de concluir os estudos exigidos pelas empresas. Em uma loja de roupas e calçados, aprendeu sobre vendas, cresceu profissionalmente e chegou à gerência.
Por algum tempo, receber salário, comprar um celular e ajudar em casa deram a sensação de que a vida havia melhorado o suficiente. Depois, os assaltos, a instabilidade financeira e a dificuldade de construir planos de longo prazo fizeram o desejo de sair do Brasil reaparecer.
“Atravessar a lua”
Quando era criança, Marcelle imaginava que precisaria atravessar a Lua para chegar aos Estados Unidos. A imagem virou uma forma de explicar um sonho que parecia distante demais para sua realidade.
Os Estados Unidos foram a primeira opção. Depois ela pesquisou o Canadá, mas o custo e as limitações para trabalhar não combinavam com sua situação. A Irlanda apareceu por meio de um amigo chamado Davidson, cuja irmã havia feito intercâmbio no país.
No início, Marcelle não se interessou. Ela queria uma cidade grande e associava a Irlanda ao interior. Aos poucos, a possibilidade de estudar e trabalhar fez o destino parecer mais viável.
Os golpes antes do intercâmbio na Irlanda
A primeira tentativa começou por volta de 2017. Marcelle fechou um pacote parcelado, pois não tinha cartão nem dinheiro para pagar à vista. Ela conta que pagou durante dois ou três anos acreditando que o contrato incluía tudo o que precisaria para viajar.
Perto do embarque, descobriu que itens importantes, como transfer, material e exame final, não estavam incluídos. Depois de buscar a Justiça, conseguiu recuperar o dinheiro. A experiência deixou uma lição concreta: não basta ouvir a apresentação comercial; é necessário conferir cada serviço descrito no contrato.
Na tentativa seguinte, Marcelle contratou outra empresa e enfrentou um novo problema durante o período da pandemia. Com o projeto novamente interrompido, decidiu negociar diretamente com uma escola. A opção que cabia no orçamento ficava na região de Limerick.
O relato não transforma todas as agências em vilãs, mas mostra por que o estudante deve confirmar a situação da escola, os itens incluídos, as regras de cancelamento e a forma de proteção do pagamento antes de transferir dinheiro.
Como Marcelle juntou dinheiro para o intercâmbio
O custo não se limitava ao curso. Marcelle precisava pagar passagem de ida e volta e comprovar a reserva financeira exigida na época. Para chegar ao valor, manteve o trabalho principal e passou a oferecer faxinas pelas redes sociais.
Ela fez limpeza, capinou terrenos e aceitou trabalhos que pagavam pouco — em alguns casos, ainda levava o próprio material. Amigos e indicações ajudaram a ampliar a clientela. Depois, trabalhou com vendas em uma escola de idiomas, onde também teve contato com o inglês.
O processo exigiu abrir mão de lazer, roupas e comemorações. Marcelle conta que chegou a voltar a pé do trabalho para guardar o valor da passagem de ônibus. Para ela, a disciplina não veio de uma fórmula pronta, mas de metas pequenas e da decisão de não abandonar o objetivo quando o dinheiro acabava.


A chegada à Irlanda não foi como nas redes sociais
Marcelle desembarcou sem roupa adequada para o clima. Como vivia no Rio de Janeiro, não tinha um casaco pesado e chegou usando várias camadas, touca, chinelo e meia. Grande parte da mala estava ocupada por itens de cama que ela não teria dinheiro para comprar ao chegar.
Um funcionário do transfer a ajudou a entender o caminho até a acomodação e indicou onde procurar roupas mais baratas. Até uma ida ao supermercado se tornou marcante: com o dinheiro de uma faxina, Marcelle percebeu que conseguia comprar biscoitos e outros produtos que durante a infância eram considerados luxo.
Mesmo assim, a sensação de realização não apareceu imediatamente. Durante cerca de três meses, ela se perguntava por que não se sentia diferente depois de alcançar o objetivo. A resposta veio quando percebeu que chegar à Irlanda encerrava uma meta, mas não resolvia automaticamente todas as áreas da vida.
Como é morar em Ennis e trabalhar como cuidadora
Na época da entrevista, Marcelle vivia em Ennis, perto de Limerick. Ela gosta do interior, da casa e da convivência com a comunidade local, mas reconhece os problemas de transporte. Dependendo do horário e da conexão, um deslocamento pode tomar várias horas.
Na Irlanda, trabalhou como cuidadora. Primeiro passou por uma instituição e depois por uma agência que atende pessoas em suas casas. O trabalho domiciliar melhorou seu inglês porque os pacientes queriam conversar, mostrar livros e explicar palavras. Em um dos atendimentos, ela anotou 14 termos novos em cerca de uma hora.
O desafio era a instabilidade das escalas. Algumas visitas duravam apenas meia hora, e o tempo entre uma casa e outra nem sempre era remunerado. Havia semanas com nove horas e outras com mais de 30. Marcelle precisou pedir mais turnos porque poucas horas não cobriam suas despesas.
Seu caso mostra que conseguir uma vaga não significa receber imediatamente a carga horária desejada. Localização, transporte, confiança da empresa e disponibilidade dos pacientes interferem diretamente na renda.
Inglês, faculdade e o plano de permanecer na Irlanda
Depois da chegada, Marcelle passou a pensar no que faria quando o período de estudante terminasse. Considerou uma faculdade na Irlanda e começou a se preparar para o IELTS, mas os valores dos cursos mudaram seus planos.
Ela também pesquisava caminhos ligados ao trabalho de cuidadora e cogitava fazer parte da formação online pelo Brasil. O ponto central era encontrar uma solução que permitisse continuar no país sem comprometer todo o dinheiro guardado.
Regras de imigração, limites de trabalho para estudantes e critérios de residência mudam. Portanto, a experiência de Marcelle não deve ser usada como orientação jurídica. Quem planeja estudar ou trabalhar deve conferir as condições atuais no Serviço de Imigração da Irlanda antes de contratar um curso.
O intercâmbio na Irlanda vale a pena?
Para Marcelle, valeu. Ela ganhou autonomia, teve contato com outra cultura e passou a enxergar possibilidades que pareciam inacessíveis durante a infância. Isso não significa que a Irlanda seja livre de violência, dificuldades financeiras ou frustração.
Ela critica a ideia de mudar apenas para comprar um celular, viajar ou fugir de todos os problemas do Brasil. O motivo precisa ser pessoal e suficientemente forte para sustentar os períodos de solidão, trabalho pesado e incerteza.
O que a experiência de Marcelle ensina
- Leia o contrato inteiro: confirme curso, material, exames, transfer, cancelamento e reembolso.
- Monte uma reserva realista: não conte com emprego imediato nem com uma quantidade fixa de horas.
- Pesquise a cidade: aluguel e transporte mudam bastante fora de Dublin.
- Prepare o inglês: estudar antes ajuda, mas a convivência diária também exige prática constante.
- Defina o próximo objetivo: chegar ao país é apenas o começo da adaptação.
Outras experiências de brasileiros podem ser encontradas na categoria Bolder Podcast. Comparar relatos ajuda a distinguir experiências pessoais de regras que valem para todos.
Perguntas frequentes sobre intercâmbio na Irlanda
É possível estudar e trabalhar na Irlanda?
Isso depende do curso, da permissão migratória e das regras vigentes. Nem todo estudante tem os mesmos direitos. A confirmação deve ser feita nos canais oficiais antes da matrícula.
É seguro fechar o intercâmbio diretamente com a escola?
Marcelle escolheu esse caminho depois de problemas com empresas, mas comprar diretamente também exige verificação. Confira se a instituição é elegível, quais proteções existem e o que acontece em caso de cancelamento.
É fácil conseguir trabalho como cuidadora?
A experiência de Marcelle mostra que há oportunidades, mas também requisitos, deslocamentos e escalas variáveis. Inglês, referências, documentação e qualificações podem ser exigidos conforme a vaga.
Da infância no Chapadão a uma nova meta
Marcelle não apresenta sua trajetória como uma sequência perfeita. Ela fala dos golpes, do medo, das dívidas, da dificuldade com o inglês e dos traumas que ainda influenciam situações simples, como entrar em uma loja ou comer com calma em um restaurante.
Ao final, sua mensagem é prática: parar de anunciar o sonho para todo mundo, trabalhar, guardar dinheiro e mudar de posição. No caso dela, “atravessar a Lua” deixou de ser uma fantasia infantil e virou um projeto feito de faxinas, vendas, contratos, recomeços e persistência.
O episódio completo mostra que fazer intercâmbio na Irlanda não apaga o passado nem resolve todos os problemas. Mas pode abrir espaço para uma vida diferente quando o plano é tratado com informação, responsabilidade e um objetivo que continue fazendo sentido depois do desembarque.
