Trabalhar como cuidadora na Irlanda foi a estratégia escolhida por Renata Ramos para tentar construir uma nova vida para a família. Enfermeira obstétrica em São Paulo, ela chegou ao país sem falar inglês, entrou diretamente no setor de home care e obteve uma permissão de trabalho com apoio da empresa.
No Bolder Podcast, porém, Renata não apresenta a imigração como uma história simples de sucesso. Ela fala sobre a distância dos dois filhos, os desafios do trabalho, o peso do julgamento e a decisão de voltar ao Brasil mesmo depois de conquistar o visto que fazia parte do plano inicial.
De enfermeira obstétrica a cuidadora na Irlanda
Renata começou na saúde aos 18 anos como auxiliar de enfermagem. Depois cursou a faculdade, fez especializações e concentrou a carreira na área materno-infantil. Trabalhou em pronto-socorro infantil, UTI pediátrica, UTI neonatal e obstetrícia. Seu último emprego no Brasil foi em uma maternidade reconhecida de São Paulo.
A Irlanda nunca havia sido um projeto antigo. A possibilidade surgiu durante uma conversa com um primo do marido que já vivia no país. Renata e Rodrigo passaram cerca de um ano e meio estudando a mudança. A ideia era começar no cuidado domiciliar, conseguir uma permissão de trabalho e, depois do prazo aplicável, reunir a família.
Cinco meses antes da viagem, ela foi desligada da maternidade. Como já pretendia sair, interpretou a demissão como uma ajuda inesperada para executar o plano. Levou diploma, histórico e traduções porque sabia que a formação em enfermagem poderia facilitar sua entrada no setor.
Como Renata conseguiu o primeiro emprego?
A busca começou antes do embarque. Ainda no Brasil, Renata conversou com um profissional de recursos humanos da empresa que mais tarde a contrataria. A orientação foi entrar em contato novamente quando estivesse na Irlanda.
Ela chegou em 19 de abril e marcou a entrevista para 19 de maio. Depois da aprovação, ainda precisou concluir cursos exigidos para a função e aguardar a verificação de antecedentes antes de iniciar as visitas. Em junho, começou a trabalhar. A primeira solicitação de permissão foi feita em outubro, encontrou um problema durante o processo e precisou ser refeita; a segunda foi aprovada em novembro.
Esse é o relato pessoal de Renata, não uma garantia de prazo ou elegibilidade. Requisitos de formação, salários, cursos e imigração mudam. Quem pretende seguir o mesmo caminho deve conferir as regras atuais nos órgãos oficiais e com o empregador antes de tomar decisões financeiras.
Como é o trabalho de cuidadora na Irlanda?
O cuidado não é restrito a idosos nem se resume a companhia. Dependendo do cliente, pode envolver higiene, mobilidade, alimentação e outras atividades práticas. Em alguns atendimentos, Renata acompanha passeios, conduz a cadeira de rodas, prepara um chá ou simplesmente conversa e assiste televisão com a pessoa.
O primeiro dia foi especialmente difícil. Renata entrou na casa de um desconhecido acompanhada por uma profissional africana e não compreendia o que nenhuma das pessoas dizia. Ela sabia executar cuidados de saúde, mas precisava receber instruções específicas sobre cada cliente e sobre a rotina da empresa.
Com o tempo, as conversas se tornaram sua principal escola de inglês. Alguns idosos aceitavam se comunicar por mímica e perguntavam se podiam corrigir sua fala. O sotaque e a dicção de pessoas mais velhas aumentavam a dificuldade, mas o contato frequente acelerou a compreensão.
Demência, agressividade e limites profissionais
Embora fosse enfermeira, Renata havia construído a carreira com mães e crianças. O contato diário com Alzheimer e outras formas de demência era novo. Ela descreve a tristeza de visitar alguém repetidas vezes e ouvir que a pessoa não reconhecia seu rosto ou seu nome.
Também enfrentou recusas e comportamento agressivo. Uma cliente fechou a porta em duas visitas consecutivas. Em outra ocasião, jogava comida no chão e mandava Renata limpar. A cuidadora comunicou cada episódio à empresa e, quando percebeu que não conseguiria continuar com segurança e respeito, pediu para não retornar àquela casa.
O caso mostra a importância de não levar sintomas cognitivos para o lado pessoal, mas também de manter limites e registrar ocorrências. A empresa precisa conhecer a situação para orientar a família e proteger cliente e profissional.
O inglês fez diferença maior do que o diploma
A graduação ajudou Renata a entrar na área e dispensou algumas etapas iniciais exigidas de quem não tem formação em saúde. Ainda assim, ela afirma que o inglês fazia “99% de diferença” para crescer. Colegas com formação técnica, mas comunicação melhor, ocupavam posições superiores dentro da empresa.
Ao olhar para trás, sua principal mudança seria começar a estudar inglês ainda no Brasil. Com uma base melhor, poderia ter concorrido a empresas que pagavam mais, trabalhar em uma nursing home ou iniciar mais cedo o processo para exercer enfermagem.
A validação profissional, segundo ela, exigiria inglês avançado, traduções, avaliações e um período de adaptação. Como precisava decidir rapidamente se levaria os filhos, o tempo e o investimento não se encaixavam no planejamento familiar.
A distância dos filhos foi o maior custo
Renata deixou os dois filhos com os pais no Brasil. Durante um ano e cinco meses, evitou visitá-los porque acreditava que não conseguiria partir pela segunda vez sem levá-los. Nesse período, perdeu formaturas, a primeira comunhão do mais velho e o primeiro dente do caçula.
A distância não significou ausência completa. Por causa do fuso, ela chegou a ficar acordada até meia-noite ou 1h para estudar para provas com os meninos por videochamada. Uma mensagem do filho de 11 anos, agradecendo por seu esforço, ajudou a enfrentar a culpa e os comentários de quem dizia que ela havia “largado” as crianças.
Renata reconhece que conseguiu tentar porque tinha uma rede de apoio sólida, especialmente os pais. Ao mesmo tempo, descreve a experiência como solitária: quando falava da saudade, algumas pessoas tratavam o sofrimento como consequência merecida de sua própria escolha.
Por que a família decidiu voltar ao Brasil?
Quando a permissão de trabalho saiu, Renata e Rodrigo finalmente puderam avaliar o passo seguinte. Colocaram no papel não apenas renda e despesas, mas também os efeitos emocionais da mudança.
Com quatro pessoas — e cinco quando a filha de Rodrigo os visitasse — precisariam de uma casa maior e provavelmente mais afastada de Dublin. Isso acrescentaria carro, transporte e cuidados no contraturno escolar ou uma babá. Na projeção feita pelo casal, a renda de Renata como cuidadora não cobria a vida familiar que imaginavam.
Havia ainda viagens ao Brasil para manter o contato das crianças com pais e avós. Rodrigo teria de deixar um cargo público, veria a filha com menor frequência e os filhos de Renata cresceriam longe do pai e dos avós. O filho mais velho dizia que não queria sair do Brasil nem ficar longe da avó.
Diante dessa conta, os dois decidiram aproveitar o período restante, cumprir os compromissos assumidos e voltar. Para Renata, não se tratava de desistir da Irlanda, mas de priorizar a família naquele momento.
Voltar não significa fracassar
A decisão foi difícil porque Renata associava permanência a sucesso. Precisou reformular essa ideia: mudar para a Irlanda havia sido uma tentativa legítima, com possibilidade de funcionar ou não. Se teve coragem para recomeçar fora, também poderia recomeçar no Brasil.
Ela não se arrepende da experiência. Conheceu Londres e o museu de Florence Nightingale, desenvolveu o inglês, conquistou independência e aprendeu que não controla todos os caminhos. Também reconhece vantagens concretas da Irlanda, como o poder de compra, sem ignorar solidão, moradia, inverno e incerteza migratória.
No retorno, seu plano era trabalhar com consultoria de amamentação e sono infantil, aproveitando a formação em enfermagem obstétrica, a experiência como mãe e uma certificação internacional. A proposta permitiria atender brasileiras em diferentes países, especialmente mulheres sem rede de apoio próxima.
O que considerar antes de trabalhar como cuidadora?
- Inglês: comunicação influencia vagas, segurança e progressão profissional.
- Formação: experiência em saúde ajuda, mas cada empregador e permissão têm critérios próprios.
- Natureza do trabalho: cuidado pode ser físico e emocionalmente exigente.
- Moradia e transporte: atendimentos podem ocorrer em diferentes endereços.
- Família: prazos de reunião familiar, escola, creche e rede de apoio precisam entrar na conta.
- Plano alternativo: imigração exige recalcular a rota sem tratar uma mudança de decisão como fracasso.
Assista ao episódio completo para conhecer a trajetória de Renata Ramos e entender por que a conquista de uma permissão de trabalho foi apenas uma parte — e não o desfecho — de sua experiência como cuidadora na Irlanda.
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