Os empreendedores brasileiros na Irlanda já atuam muito além de serviços voltados apenas à própria comunidade. No BICC Summer Festival, Bolder encontrou negócios de alimentação, tecnologia, cosméticos, confeitaria, educação, nutrição, velas artesanais e comunicação visual, muitos deles conquistando também clientes irlandeses.
O evento foi organizado pela Brazil Ireland Chamber of Commerce, a BICC, para aproximar empresas, consumidores e possíveis parceiros. Em vez de uma feira fechada, o festival ocupou um espaço aberto e com circulação de público, permitindo que pessoas que não acompanhavam os canais da Câmara conhecessem os expositores.
O vídeo registra como esses negócios começaram, quais obstáculos encontraram e por que feiras presenciais ainda fazem diferença, mesmo para empresas que vendem principalmente pela internet.
O que é a BICC?
A BICC é uma associação empresarial criada para estreitar as relações comerciais entre Brasil e Irlanda. Na entrevista, uma representante explica que o trabalho começou apoiando empresários brasileiros já instalados no país.
Essa aproximação também movimenta comércio entre os dois mercados. Restaurantes e lojas na Irlanda importam ou compram produtos brasileiros, como tapioca e açaí, enquanto prestadores de serviços ajudam as empresas a se estruturar localmente.
Em um mapeamento realizado em 2022, a organização identificou cerca de 1.300 empresas ligadas à comunidade brasileira. Segundo a BICC, novos negócios continuaram surgindo depois do levantamento. O objetivo dos eventos é tornar essa rede mais visível e mostrar que empreender pode ser uma alternativa profissional para quem vive no país.
Comida árabe brasileira que encontrou espaço em Dublin
A Zaira nasceu no fim da pandemia a partir da paixão dos fundadores pela culinária árabe. As receitas tinham relação com a experiência brasileira — o Brasil reúne uma grande comunidade de origem libanesa — e começaram sendo testadas com amigos e conhecidos.
O negócio saiu de casa para uma cozinha compartilhada em Swords. Depois, chegou à região de Dublin 7, com delivery, takeaway, eventos e catering. Também começou a fornecer produtos para cafés e redes locais.
Após quase três anos, aproximadamente 70% dos clientes ainda eram brasileiros. A participação em mercados, contudo, já estava mudando esse perfil. A marca percebeu boa receptividade entre irlandeses de 25 a 55 anos interessados em conhecer outras culinárias.
O idioma e as regras apareceram como dificuldades, mas a empresa também encontrou apoio na rede formada pela BICC. Para os fundadores, as feiras são importantes justamente porque colocam a comida diante de quem talvez nunca procurasse espontaneamente um negócio brasileiro.
Churros do Lulu: de pontos brasileiros a um café próprio
O Churros do Lulu começou vendendo em estabelecimentos brasileiros. Depois de cinco ou seis anos de operação, os sócios abriram um coffee shop próximo à Mountjoy Square, com churros brasileiros e espanhóis, salgados, café, smoothies e outros produtos.
A transição para uma loja própria trouxe desafios diários: treinamento da equipe, melhoria do atendimento, escolha do cardápio e manutenção da operação. A adaptação foi recompensada por uma clientela cada vez mais diversificada.
Em determinados dias, segundo o representante entrevistado, o público do café chegava a 60% de irlandeses e 40% de brasileiros. Para conquistar esse resultado, o negócio manteve os produtos brasileiros, mas também incorporou Irish breakfast, pães e lanches conhecidos pelos clientes locais.
Tecnologia irlandesa com fundadores brasileiros
Uma das empresas presentes desenvolveu uma plataforma low-code para organizar processos e documentos. Entre os produtos está uma ferramenta voltada a subsídios de viagem, criada para ajudar empresas e funcionários a tratar corretamente despesas que podem receber tratamento fiscal específico.
A companhia também oferece um sistema de gestão de equipes e instalações para restaurantes, supermercados, farmácias, hospitais, padarias e prestadores de serviços. Na época do evento, afirmava atender mais de 200 clientes nessa área.
O caminho passou por um plano de negócios e pela busca de apoio no Local Enterprise Office. A equipe destaca que o processo exige trabalho e documentação, mas aproxima a empresa de instituições, parceiros e potenciais clientes irlandeses. O objetivo nunca foi permanecer restrito à comunidade brasileira.
Sugar Loaf: uma padaria brasileira para públicos diferentes
A Sugar Loaf abriu no início da pandemia com uma proposta familiar aos brasileiros: ser a padaria onde o cliente pode comprar pão, frios, salgados, doces e fazer um lanche durante o dia.
O pão francês foi um dos maiores desafios técnicos. A equipe já tinha experiência, mas precisou adaptar ingredientes, equipamentos e processos. A receita melhorou ao longo dos anos e virou um dos diferenciais do estabelecimento.
No cardápio, aparecem quindim, pudim, bolo, palha italiana, pão de mel, salgados, pão na chapa, pão com requeijão e pão com mortadela. A intenção não é reproduzir cada detalhe de uma padaria brasileira sem adaptação, mas chegar o mais perto possível do sabor e da experiência.
Abrir uma empresa na Irlanda foi considerado relativamente simples quando comparado ao Brasil, desde que o empreendedor pesquise e siga as instruções disponíveis. O obstáculo maior foi encontrar o público. O nome em inglês confundia brasileiros, que não sabiam se encontrariam produtos do Brasil, e estrangeiros, que imaginavam outro tipo de padaria.
Com o tempo, essa mistura deixou de ser um problema. Na data da entrevista, a clientela estava dividida aproximadamente pela metade entre brasileiros e pessoas de outras nacionalidades.
Velas artesanais com fragrâncias brasileiras
A Joelles começou em 2020, quando muitas pessoas buscavam novas atividades durante a pandemia. A fundadora iniciou com velas artesanais e depois migrou para cera de soja, associando a escolha a uma proposta de maior sustentabilidade.
A marca foi registrada em 2022 e passou a trabalhar com fragrâncias ligadas ao Brasil, como açaí, jabuticaba e bambu. Também mantém aromas já conhecidos pelo consumidor irlandês.
A abertura de uma loja física trouxe uma lição importante: conhecer a marca não significa que o público aparecerá automaticamente para comprar. Além de operar o espaço, a empresa precisou apresentar os produtos ao mercado e buscar outros lojistas interessados em revendê-los.
Nas feiras, o cliente pode experimentar o aroma antes da compra, algo difícil no comércio eletrônico. Qualidade e diferenciação são fundamentais porque, como a própria fundadora resume, o consumidor pode comprar uma vez por curiosidade, mas só volta se gostar do produto.
WLT: comida congelada para bebês e crianças
A WLT produz refeições caseiras ultracongeladas para bebês e crianças pequenas. A proposta é oferecer comida prática, com possibilidade de armazenamento no freezer por até três meses, conforme apresentado pela empresa.
A fundadora trabalhou como childminder durante dez anos. Começou cozinhando para a própria filha e para as crianças sob seus cuidados. Quando outros pais passaram a pedir refeições para levar para casa e consumir no fim de semana, ela percebeu que havia um negócio.
Depois de anos desenvolvendo receitas voltadas ao público infantil, deixou o trabalho como cuidadora para se concentrar integralmente na produção. Na época do festival, a WLT havia sido selecionada para a Food Academy do SuperValu, programa criado para desenvolver marcas locais com potencial.
O planejamento incluía ajustes de branding até dezembro e a entrada dos produtos em lojas da rede no início do ano seguinte. Para uma empresa pequena, a seleção representava acesso a um dos supermercados mais tradicionais da Irlanda.
Bake It Happen: a feira como vitrine presencial
A Bake It Happen produz bolos e doces para aniversários, casamentos e eventos corporativos. Para Carol, fundadora da marca, confeitaria não termina na entrega de um produto: o bolo ajuda a transmitir uma mensagem, marcar uma celebração e criar uma lembrança.
Como o negócio não tinha loja física, feiras funcionavam como uma vitrine. No BICC Summer Festival, a empresa levou bolos de pote nos mesmos sabores oferecidos nos menus de aniversário. Assim, potenciais clientes podiam experimentar antes de encomendar uma festa.
Além das vendas, o evento criava networking entre expositores e contato direto com brasileiros, irlandeses e outras comunidades. O cliente podia conhecer o trabalho pessoalmente e depois continuar a conversa pelos menus e pelo WhatsApp da empresa.
Cosméticos brasileiros no mercado irlandês
A MH Beauty surgiu como um e-commerce especializado em cosméticos brasileiros. A seleção incluía marcas como O Boticário, Natura, Boca Rosa e Bruna Tavares.
A ideia nasceu de uma experiência comum entre imigrantes: as fundadoras aproveitavam viagens ao Brasil para trazer os próprios produtos. Com o crescimento da comunidade em Dublin, perceberam que outras pessoas tinham a mesma demanda.
Mesmo sendo uma loja on-line, a presença em eventos continuava útil. A feira permitia que consumidores conhecessem produtos, testassem fragrâncias e maquiagem e descobrissem uma empresa que talvez ainda não tivessem encontrado nas redes sociais.
Nutrição sem a imagem de uma dieta punitiva
Marcela é nutricionista formada no Brasil e trabalhava na Irlanda com abordagem holística e nutrição comportamental. No evento, apresentou um trabalho voltado a melhorar a relação das pessoas com a comida.
Ela procurava desconstruir a ideia de que consultar um nutricionista significa eliminar tudo aquilo de que o paciente gosta. A proposta envolvia educação nutricional e uma abordagem menos baseada em medo ou punição.
Para alcançar um público mais amplo, Marcela produzia parte do conteúdo em inglês, tentando atender também pessoas de outras nacionalidades que vivem na Irlanda.
Ciranda: português como língua de herança
A Ciranda é um Kids Language Club voltado ao português como língua de herança. O trabalho atende filhos de brasileiros que crescem na Irlanda e podem ter pouco contato com o idioma e a cultura fora de casa.
No festival, a equipe utilizou músicas como “O sapo não lava o pé”. Algumas crianças conheciam a canção; outras nunca a tinham ouvido, e os próprios pais percebiam que não haviam compartilhado aquela referência.
O objetivo não é apenas ensinar vocabulário. A Ciranda envolve a família e usa música, brincadeiras e elementos culturais para manter a conexão com o Brasil. A equipe também destaca os benefícios de crescer com mais de um idioma.
Inve: comunicação visual para quem está começando
A Inve atua com comunicação visual, desde cartões de visita e panfletos até adesivação de veículos, placas luminosas e fachadas. O fundador já havia trabalhado numa gráfica irlandesa e percebeu que muitas empresas do setor priorizavam grandes clientes.
A oportunidade estava nos pequenos negócios. Um empreendedor que precisava adesivar apenas um carro ou produzir uma fachada menor nem sempre encontrava atendimento adequado. A Inve foi criada para ocupar esse espaço.
Os principais obstáculos citados foram o valor dos aluguéis e o custo dos funcionários. Por outro lado, havia demanda e fluxo de clientes. Como empresa B2B, a Inve também enxergava os próprios expositores da feira como potenciais clientes, não apenas as pessoas que circulavam pelo evento.
O que o BICC Summer Festival ensina sobre empreender na Irlanda?
As entrevistas mostram alguns padrões. Muitos negócios começaram em casa ou durante a pandemia, validaram a ideia com amigos e clientes próximos e depois buscaram cozinha compartilhada, loja, programa de aceleração ou apoio institucional.
Outro ponto é a necessidade de sair da bolha brasileira. Produtos brasileiros podem ser o diferencial, mas as empresas que cresceram adaptaram atendimento, cardápio, comunicação ou embalagem sem abandonar a origem.
As recomendações dos participantes foram diretas:
- estudar o mercado e os números antes de investir;
- conversar com quem já atua no mesmo setor;
- procurar a BICC e o Local Enterprise Office;
- entender as regras específicas da atividade;
- testar o produto em feiras e mercados;
- construir relações também com clientes e parceiros irlandeses.
O evento anterior da Câmara, o Brasil Showcase, havia recebido cerca de 1.500 pessoas. Para a edição seguinte, a expectativa declarada era chegar a 2.000 ou até 3.000 visitantes. O Summer Festival tinha uma escala menor, mas aproveitava o espaço aberto para alcançar quem passava pela região.
Assista ao vídeo completo para conhecer os produtos, ouvir os fundadores e ver como os empreendedores brasileiros apresentaram seus negócios ao público no BICC Summer Festival.
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