Câncer na Irlanda: os três diagnósticos de Rafael Elvas

Como é enfrentar o câncer na Irlanda, longe da família e dentro de um sistema de saúde diferente? No Bolder Podcast 294, Rafael Elvas conta uma trajetória marcada por três diagnósticos em fases distintas da vida: um tumor abdominal ainda na infância, um câncer de língua já vivendo em Sligo e, mais recentemente, um câncer de próstata descoberto em estágio inicial.

A conversa com Bolder acompanha o caminho entre sintomas, consultas, biópsias, cirurgia, radioterapia, quimioterapia e recuperação. Rafael também explica como funcionaram, no caso dele, os encaminhamentos pelo sistema público irlandês, a hospedagem perto do hospital em Galway e o acompanhamento ativo do câncer de próstata.

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O primeiro câncer, aos 10 anos

Rafael recebeu o primeiro diagnóstico em 1985, quando tinha 10 anos e vivia no Rio de Janeiro. Uma massa abdominal exigiu cirurgia de emergência, seguida de outras operações e de quase três anos de quimioterapia, entre março de 1985 e janeiro de 1988.

Ele se lembra de uma infância dividida entre hospital e escola. Os colegas ajudavam levando material e mantendo o contato durante o tratamento. O histórico familiar também chamava atenção: sua avó paterna havia morrido de câncer de mama aos 46 anos.

Décadas depois, essa história continuaria relevante nas consultas. Ao chegar à Irlanda, Rafael já sabia que não deveria ignorar alterações persistentes no corpo, embora admita que o medo o fez adiar a procura por ajuda quando surgiu um novo sintoma.

A ferida na língua que não cicatrizava

Rafael mudou-se para a Irlanda em fevereiro de 2019 e se estabeleceu em Sligo. Algum tempo depois, percebeu uma ferida na lateral da língua. A princípio, parecia uma afta ou uma lesão causada por algum dente, mas ela não desaparecia.

Mesmo com o próprio histórico, ele demorou a marcar uma consulta. Foi a esposa quem ajudou a romper esse bloqueio e agendou o GP. O médico examinou a boca e encaminhou Rafael a um especialista de cabeça e pescoço. A biópsia confirmou um câncer de língua.

Esse ponto do relato deixa um alerta objetivo. A orientação atual do HSE é procurar um GP ou dentista quando uma úlcera na boca dura mais de três semanas, volta repetidamente ou apresenta sinais preocupantes. A maioria dessas lesões não é câncer, mas uma ferida persistente precisa ser examinada. Veja a orientação oficial do HSE sobre úlceras na boca.

Cirurgia em Galway e a retirada de parte da língua

O tratamento foi transferido para o University Hospital Galway. Segundo Rafael, passaram-se cerca de dois meses entre a primeira consulta com o GP e a cirurgia, realizada em 12 de dezembro. Antes da operação, a equipe explicou que talvez fosse necessário retirar até 60% da língua. No procedimento, foi removida aproximadamente 40% da parte lateral.

Rafael também passou por uma traqueostomia temporária. O momento mais assustador aconteceu na primeira noite, quando acordou com a sensação de não conseguir respirar. A equipe interveio e ele compreendeu que a cânula exigia cuidados específicos.

A internação durou cerca de 12 ou 13 dias. Depois da retirada da traqueostomia, ele voltou a se alimentar e não sentiu dor significativa na língua. Recebeu alta em 23 de dezembro e passou o Natal em casa.

Radioterapia, quimioterapia e o deslocamento de Sligo

A cirurgia foi seguida por seis semanas de radioterapia e duas sessões de quimioterapia. Rafael morava a cerca de 130 quilômetros de Galway. Para chegar ao hospital, utilizava um transporte diário que saía de Sligo e levava pacientes em tratamento.

Durante a semana, ele ficava numa hospedagem próxima ao hospital, mantida com doações e apoio do sistema de saúde. O local oferecia quarto, café da manhã, jantar e suporte de enfermagem. Nos fins de semana, voltava para casa.

Cada sessão de radioterapia levava aproximadamente 15 minutos. Para manter a cabeça imóvel, Rafael usava uma máscara moldada no próprio rosto. As primeiras semanas foram administráveis; nas duas últimas, as queimaduras na boca e na garganta tornaram difícil comer e beber.

Ele perdeu o paladar, sofreu com desidratação e precisou de alimentação de alta densidade calórica fornecida pelo hospital. O tratamento terminou no início de março de 2020. Os efeitos variam de pessoa para pessoa, e o HSE recomenda que pacientes comuniquem à equipe sintomas que impeçam a alimentação ou a hidratação.

O fim do tratamento coincidiu com o lockdown

Logo após concluir as sessões, Rafael foi internado por desidratação. Como apresentou febre leve e tosse no início da pandemia, acabou isolado até que os exames descartassem Covid-19 e influenza. Enquanto ainda estava no hospital, a Irlanda entrou em lockdown.

Ele voltou a Sligo e encontrou a cidade praticamente fechada. Trabalhava como kitchen porter em um hotel e, por ter poucas contribuições acumuladas, inicialmente enfrentou dificuldade para acessar um benefício comum. Mais tarde recebeu o pagamento emergencial da pandemia.

Em junho de 2020, mesmo ainda preocupado com a imunidade, retornou ao trabalho porque temia perder a renda. O episódio mostra que a recuperação de um câncer não termina na última sessão: moradia, deslocamento, emprego e benefícios também interferem no tratamento.

Como ficaram a fala, a alimentação e o paladar?

Rafael voltou a falar e a comer relativamente rápido. A voz ficou com uma pequena alteração, e ele precisa de mais tempo para algumas refeições. Comidas muito apimentadas ou muito quentes passaram a causar incômodo.

O paladar retornou gradualmente ao longo de cerca de seis meses. Ele associa as limitações mais persistentes à radioterapia, não à dor pós-operatória. Até um assobio específico que fazia para chamar sua cachorra deixou de sair da mesma forma.

O terceiro diagnóstico: câncer de próstata

O acompanhamento médico continuou depois da recuperação. Uma alteração no PSA levou a novas investigações. Rafael realizou uma primeira biópsia no Brasil, em 2021, com resultado negativo, e permaneceu sob acompanhamento de urologia na Irlanda.

Em 2023, uma biópsia mais aprofundada coletou 24 amostras. Três apresentaram células cancerígenas. A equipe explicou que, no caso dele, o tumor tinha características de baixa agressividade e apresentou opções como radioterapia, cirurgia ou monitoramento.

Rafael inicialmente preferia operar, mas uma cirurgia abdominal realizada na infância impediria a abordagem robótica considerada mais simples. Após discutir riscos e benefícios com o urologista, seguiu a recomendação de vigilância ativa: exames periódicos de PSA, ressonância e nova biópsia quando indicada.

Vigilância ativa não significa ignorar o câncer. É uma estratégia clínica usada em casos selecionados, com acompanhamento programado e possibilidade de tratamento se houver progressão. O HSE publicou uma diretriz nacional sobre vigilância ativa no câncer de próstata. A decisão depende do quadro individual e deve ser feita com a equipe médica.

Como foi o atendimento do câncer na Irlanda?

Rafael faz uma avaliação positiva do atendimento recebido. Ele destaca a rapidez do encaminhamento quando a ferida na língua foi considerada suspeita, o acesso a cirurgia, radioterapia e quimioterapia, o transporte entre Sligo e Galway e o contato com enfermeiros especializados.

Também houve limitações. Nem sempre estava disponível um intérprete de português, e em algumas ocasiões ele conversou com profissionais em espanhol. Ainda assim, relata que recebeu ajuda para compreender os procedimentos. O HSE informa que pacientes em tratamento costumam ter um ponto principal de contato, geralmente um enfermeiro especialista, além de apoio de assistentes sociais e centros locais.

Os custos e direitos variam conforme residência, elegibilidade, seguro e situação migratória. Portanto, a experiência de Rafael não deve ser entendida como garantia de gratuidade para qualquer pessoa. Quem recebe um diagnóstico pode pedir à equipe hospitalar orientação sobre cobranças, medical card, benefícios e apoio financeiro.

A importância da rede de apoio

A esposa de Rafael esteve presente nas consultas, na internação e na recuperação. Ele ressalta que o cuidador também precisa de apoio: acompanhar alguém em tratamento pode envolver medo, esgotamento e mudanças profundas na rotina.

No episódio, ele também cita o grupo Amor Simples de Doar, criado por brasileiros para acolher pessoas com câncer na Irlanda. Entre as formas de ajuda estão escuta, companhia e apoio com o idioma. Para quem vive longe da família, uma rede local pode fazer diferença desde a primeira consulta.

O principal recado de Rafael Elvas

A história não oferece uma fórmula para enfrentar o câncer. O ponto mais concreto é não adiar a investigação por medo ou constrangimento. Foi uma ferida persistente que levou ao diagnóstico na língua, e foi o acompanhamento do PSA que permitiu identificar cedo a alteração na próstata.

Exames e idades de rastreamento não são iguais para todas as pessoas. Histórico familiar, sintomas, idade e outros fatores precisam ser discutidos com o GP. Este artigo resume uma experiência pessoal e não substitui orientação médica.

Assista ao episódio completo para ouvir Rafael explicar os três diagnósticos, o tratamento em Galway e a vida que continuou sendo construída depois deles.