Alex Marani construiu uma carreira como engenheiro de produção na Irlanda, mas começou a vida fora do Brasil servindo mesas na Austrália e chegou a trabalhar em um hospital irlandês, apesar de não suportar ver sangue. Entre esses extremos, ele aprendeu que formação e experiência não bastam quando o candidato não sabe se posicionar para o mercado.
No Bolder Podcast, Alex detalha as áreas que contratam engenheiros de produção, o papel da indústria farmacêutica, os erros mais comuns em currículo e LinkedIn e a importância de adaptar a estratégia a cada vaga. Hoje em posição de liderança global, ele também explica como networking, visibilidade e trabalho híbrido influenciam a progressão profissional.
Da Vale para um intercâmbio na Austrália
Alex é de Sete Lagoas, em Minas Gerais, e fazia estágio na Vale no final da graduação em Engenharia de Produção. O gestor reconheceu o potencial dele, mas apontou uma limitação direta: para avançar na carreira internacional, precisaria melhorar a comunicação em inglês.
Ele decidiu agir imediatamente. Viajou antes mesmo da cerimônia de formatura — a mãe recebeu o diploma em seu lugar — e foi para a Austrália. Embora tivesse estudado inglês durante anos no Brasil, percebeu ao chegar que ainda não conseguia se comunicar com segurança.
Como estudante, trabalhou de garçom e em outras atividades, inclusive no Sydney Opera House. A experiência foi importante, mas as exigências para construir uma permanência mais estável e a dificuldade de entrar em sua área levaram Alex a procurar outro país.
A chegada à Irlanda e o trabalho no hospital
Depois de viajar pela Europa, Alex chegou à Irlanda com as economias quase no fim. Algumas entrevistas feitas a distância não avançaram, mas ele decidiu permanecer no país e pediu para dormir no sofá de uma amiga enquanto se reorganizava.
Essa amiga conseguiu para ele um trabalho em um hospital. O problema era conhecido: Alex não conseguia ver sangue. No primeiro dia, uma emergência com uma gestante fez com que ele quase desmaiasse. Mesmo assim, permaneceu cerca de um mês até concluir que precisava voltar a usar sua formação.
Nesse momento, ele já reunia três elementos importantes: inglês funcional, cidadania europeia e experiência anterior em engenharia. Ainda faltava, porém, uma estratégia de busca de emprego adequada ao mercado irlandês.
Por que apenas enviar currículos não funcionava?
Na Austrália, entregar currículo pessoalmente havia funcionado para trabalhos operacionais. Alex tentou repetir a abordagem na Irlanda, mas percebeu que vagas qualificadas exigiam outro processo: currículo direcionado, palavras-chave, perfil claro no LinkedIn e contato com pessoas da área.
Ele começou a estudar como os processos seletivos filtravam candidatos. Hoje, como entrevistador, observa que profissionais muito competentes às vezes nem chegam à conversa com o gestor porque o documento não evidencia os termos e resultados procurados naquela vaga.
Currículo para engenharia na Irlanda
Alex recomenda um currículo simples, legível e adaptado para cada candidatura. O objetivo não é inventar experiência, mas colocar em destaque as competências que resolvem o problema descrito pela empresa. Fotos, excesso de cores e informações sem relação com a função podem atrapalhar tanto a leitura humana quanto os sistemas automáticos de seleção.
Ele sugere se candidatar quando o profissional atende a cerca de 60% ou 70% dos requisitos. A descrição costuma representar o candidato ideal, e esperar cumprir absolutamente todos os itens pode eliminar oportunidades compatíveis.
Como usar o LinkedIn de forma estratégica
Para Alex, preencher o cargo e esperar mensagens não é uma estratégia. O perfil deve comunicar com clareza qual trabalho a pessoa busca, em que setor atua e quais resultados consegue entregar. Repostar conteúdo com comentários próprios, publicar aprendizados e mostrar participação em projetos ajuda a construir essa imagem.
Ele compara o posicionamento profissional a uma marca: quando alguém pensa em determinada necessidade, seu nome precisa estar associado àquela solução. Isso exige constância, interação com recrutadores, participação em eventos e conversas individuais — online e presencialmente.
Onde trabalha um engenheiro de produção na Irlanda?
A formação permite atuar em diferentes setores. Alex cita bancos, alimentos, dispositivos médicos e, principalmente, empresas farmacêuticas. Na entrevista, ele destaca a presença de grandes fabricantes no país e a dificuldade que algumas companhias enfrentam para preencher posições especializadas.
Dentro de uma fábrica, o engenheiro de produção pode investigar interrupções, melhorar processos, planejar capacidade para os meses seguintes, coordenar insumos e reduzir prazos. A atuação também pode migrar para qualidade, compras, cadeia de suprimentos, fornecedores, projetos e liderança.
No cargo que ocupava na data do episódio, Alex trabalhava três dias no escritório e dois em casa. Sua função apoiava 42 fábricas da companhia em diferentes países. Quando surgia um problema com um fornecedor, podia ser chamado para viajar rapidamente e participar da resolução.
Indústria farmacêutica e controle de qualidade
Alex explica que a produção farmacêutica opera com controles rigorosos. Questões químicas, qualidade da água, higiene ou contaminação podem interromper processos antes que um produto avance. O papel das equipes é identificar a causa, conter o risco e restabelecer a operação com segurança.
Experiências muito específicas também podem abrir portas. Ele usa como exemplo a cadeia fria, necessária para produtos que exigem temperatura controlada. Quando uma empresa não encontra facilmente esse conhecimento no mercado local, pode buscar profissionais em outros países, inclusive com menos anos de carreira.
Experiência brasileira conta no mercado irlandês?
Segundo Alex, recrutadores irlandeses geralmente não conhecem em detalhe cada faculdade brasileira. A instituição pode ser pesquisada, mas a experiência, a capacidade de comunicação e os resultados profissionais tendem a pesar mais do que a fama local da universidade.
Estágios e trabalhos realizados durante a graduação contam como experiência. O mesmo vale para habilidades transferíveis. Quem atuou durante anos com finanças, por exemplo, pode destacar orçamento, análise e compras para entrar em uma função próxima da engenharia de produção e depois se movimentar internamente.
Para quem vem de canteiros de obras ou montagens eletromecânicas, liderança, planejamento, segurança, gestão de equipes e resolução de problemas podem ser traduzidos para necessidades de fábrica. A chave é demonstrar a relação em vez de esperar que o recrutador faça essa interpretação sozinho.
Inglês precisa ser perfeito?
Alex não acredita que seja necessário falar um inglês impecável. O profissional precisa, porém, conseguir explicar problemas, participar de reuniões, escrever informações essenciais e entender colegas de diferentes países. Em cargos globais, comunicação é parte do trabalho, não apenas uma exigência da entrevista.
Para quem ainda está no Brasil, a recomendação é combinar estudo com prática: entrevistas, filmes, séries, conversas e vocabulário técnico. Mesmo uma entrevista sem proposta pode ensinar como apresentar experiência e preparar o candidato para a oportunidade seguinte.
Home office atrapalha a promoção?
Essa é uma das opiniões mais diretas do episódio. Para Alex, o trabalho totalmente remoto pode reduzir a visibilidade e dificultar a progressão porque elimina conversas espontâneas com líderes e colegas. A competência continua importante, mas relações de confiança também influenciam quem recebe novos projetos e responsabilidades.
Quando a equipe está distribuída, ele recomenda criar deliberadamente os contatos que aconteceriam no escritório. Alex reserva conversas curtas para conhecer colegas, perguntar sobre família, férias e rotina, sem transformar todo encontro em atualização de tarefas. O objetivo é manter proximidade e presença mesmo à distância.
Um plano para buscar vaga de engenharia na Irlanda
- Escolha o tipo de função: chão de fábrica, qualidade, compras, fornecedores, planejamento ou trabalho remoto exigem estratégias diferentes.
- Mapeie empresas e setores: descubra quais organizações contratam seu perfil e quais costumam apoiar permissões de trabalho.
- Adapte cada currículo: use a linguagem da vaga e priorize resultados relevantes, sem inventar qualificações.
- Construa visibilidade: mantenha o LinkedIn ativo, participe de grupos e compareça a eventos profissionais.
- Use habilidades transferíveis: liderança, orçamento, melhoria de processos e gestão podem conectar uma experiência anterior à nova posição.
- Pratique entrevistas: comece antes de se sentir completamente pronto e use cada conversa para corrigir sua apresentação.
De Sete Lagoas a uma carreira global
Alex lembra de Sete Lagoas quando celebra cada conquista. Depois da Austrália, da falta de dinheiro e do primeiro mês no hospital, ele chegou a uma posição que influencia fábricas em vários países e o levou a todos os continentes a trabalho.
O ponto mais útil da história não é a ideia de que basta persistir. É que persistência sem direção estava produzindo pouco resultado. A carreira mudou quando ele definiu o objetivo, ajustou currículo e LinkedIn, criou relações profissionais e passou a tratar a busca por emprego como um projeto. Assista ao episódio completo para ouvir os exemplos e as respostas dadas a profissionais de diferentes áreas.
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