Amanda Siqueira na Irlanda: de imigrante a influenciadora

A trajetória de Amanda Siqueira na Irlanda passa longe da ideia de sucesso instantâneo nas redes sociais. Antes de transformar o Instagram em ferramenta de trabalho, ela chegou ao país sem falar inglês, fez delivery de bicicleta no inverno, limpou quartos de hotel, produziu bolos, trabalhou durante quase quatro anos como cuidadora e chegou a capotar o carro em uma estrada do interior.

No Bolder Podcast, Amanda explica como essas experiências moldaram sua relação com trabalho, exposição e oportunidades. A conversa também aborda bodybuilding, parcerias comerciais, produção de eventos, saúde emocional e a fé que ela usa como apoio diante das dificuldades da vida de imigrante.

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Do interior do Brasil para um intercâmbio na Irlanda

Amanda trabalhava como consultora de vendas na Toyota, por meio da Rodobens, quando percebeu que estava psicologicamente esgotada e já não se sentia feliz na função. Um casal de amigos sugeriu que ela investisse no inglês e considerasse um intercâmbio.

A ideia surgiu durante um jantar e provocou uma decisão rápida. Amanda usou o dinheiro da rescisão para organizar a viagem e desembarcou na Irlanda sem conhecer ninguém e praticamente sem falar inglês.

A mudança foi também cultural. Vinda de uma cidade pequena e de um ambiente mais conservador, ela encontrou um país com pessoas de diferentes nacionalidades, comportamentos e estilos de vida. Amanda descreve esse período como uma metamorfose: depois da experiência, não voltou a enxergar o mundo da mesma forma.

Nove meses no Brasil e o retorno inesperado

Em determinado momento, Amanda retornou ao Brasil e permaneceu lá durante nove meses. Ela não queria encerrar o projeto na Irlanda, mas estava sem recursos para comprar outro curso, pagar a passagem e renovar a permanência como estudante.

Segundo seu relato, uma alteração nas regras durante a pandemia permitiu que estudantes em determinada situação retornassem ao país com uma extensão. A notícia apareceu justamente quando o dinheiro estava acabando. Amanda conferiu as datas, comprou a passagem e voltou à Irlanda poucos dias depois.

As condições migratórias mencionadas pertencem àquele período excepcional e não representam as regras atuais. Para Amanda, porém, o episódio ganhou um significado pessoal por estar ligado a uma orientação que havia buscado por meio da fé.

Os trabalhos de Amanda Siqueira na Irlanda

Amanda afirma que não foge de trabalho. Se a atividade era uma forma honesta de pagar as contas e cabia em sua rotina, ela aceitava aprender. Essa postura a levou por funções muito diferentes.

Delivery de bicicleta e limpeza de hotel

Um dos primeiros trabalhos foi fazer entregas de bicicleta, inclusive durante o inverno irlandês. Ela lembra do vento forte e da dificuldade física de pedalar no frio.

Também trabalhou como housekeeper em um hotel quatro estrelas. Saber limpar a própria casa não a preparou para o método e o ritmo profissional: havia metas de quartos, procedimentos específicos e pressão para produzir cada vez mais. Amanda permaneceu aproximadamente cinco ou seis meses na função.

Como virou confeiteira no Café Mineiro

Precisando de um trabalho extra, Amanda soube que o Café Mineiro procurava uma pessoa para fazer bolos. Na entrevista, afirmou que já tinha experiência e recebeu a tarefa de preparar três bolos no dia seguinte.

Naquela noite, pesquisou receitas no YouTube. Durante o teste, um confeiteiro mais experiente corrigiu o método e ensinou o processo. Amanda conseguiu a vaga, profissionalizou-se e passou a produzir os bolos vendidos pelo estabelecimento.

Mais tarde, durante a pandemia, aproveitou o que havia aprendido para vender e entregar bolos com o próprio carro. O episódio resume bem a maneira como ela encara oportunidades: primeiro entra, depois estuda, pede ajuda e transforma a experiência em uma habilidade real.

Quase quatro anos trabalhando como cuidadora

A ocupação mais longa foi na área de cuidados. Amanda havia cursado parte da graduação em Enfermagem no Brasil e feito estágio na Santa Casa. A empresa considerou esse histórico quando a contratou.

Ela cuidou de idosos com diferentes condições, incluindo demência avançada e pacientes em cuidados paliativos. Em um episódio tenso, um homem em crise pegou uma faca; Amanda precisou correr, trancar-se no banheiro e esperar ajuda.

Em outros casos, formou vínculos afetivos com pessoas que a tratavam como filha ou neta. O contato constante com envelhecimento e morte mudou a maneira como enxerga o tempo. Amanda passou a pensar com mais frequência sobre saúde, escolhas e a importância de aproveitar oportunidades enquanto pode.

O acidente em uma estrada rural

Quando trabalhou no interior, Amanda dirigia entre propriedades distantes para atender os pacientes. Tentando otimizar os deslocamentos, acabou capotando o carro em uma estrada estreita. O veículo parou de lado e seu telefone foi lançado para fora.

Ela conseguiu sair e pedir ajuda, mas o acidente deixou um trauma que ainda afetava sua confiança ao dirigir. Mesmo assim, Amanda apresenta o episódio como parte de um ciclo profissional que lhe trouxe aprendizado sobre inglês, cuidado e limites.

Como o Instagram se tornou uma profissão

No início, Amanda não tinha uma estratégia de conteúdo. Publicava cafés, viagens, festas e situações do cotidiano. Ao abrir o perfil e mostrar a vida na Europa, percebeu que as pessoas se interessavam por sua rotina.

A virada aconteceu aos poucos. Marcas e prestadores de serviços começaram a propor parcerias nas áreas de beleza, cabelo, unhas, moda e eventos. Amanda passou a enxergar o Instagram não apenas como vitrine, mas como uma rede de contatos capaz de conectar produtores, DJs, videomakers, empresários e clientes.

Em uma viagem de aniversário à Sicília, por exemplo, ela entrou em contato com casas noturnas para saber se havia alguma condição especial. Uma delas analisou o perfil e propôs uma parceria: ofereceu acesso ao evento, recebeu Amanda na mesa dos organizadores e publicou o conteúdo produzido por ela. A experiência abriu novas conexões entre o mercado de eventos da Irlanda e da Itália.

Parceria não é necessariamente renda

Amanda explica que, durante muito tempo, recebeu produtos e procedimentos em troca de divulgação. Isso reduz despesas, mas não paga as contas. A pessoa pode fazer cabelo, estética e outros serviços sem desembolsar dinheiro e, mesmo assim, continuar dependente de outro emprego.

A profissionalização começou quando ela passou a medir alcance, pedir resultados aos parceiros e entender quantos clientes suas publicações geravam. Também criou relações de longo prazo, trabalhou com videomaker e começou a estudar Marketing na faculdade.

Outra mudança foi aprender a apresentar preço e mídia kit. Para Amanda, produzir conteúdo exige tempo, constância e credibilidade. Ao recomendar uma empresa, o influenciador empresta a própria reputação; se o serviço for ruim, o público se lembrará de quem fez a indicação.

O que significa trabalhar como influenciadora

A rotina não depende somente de publicar uma foto bonita. Amanda acompanha alcance, entende o público, conversa com parceiros, planeja conteúdo e precisa aparecer com frequência mesmo quando o algoritmo não entrega todas as publicações da mesma forma.

Ela reconhece que alguns temas geram mais comentários e que a personalidade forte pode dificultar a tentativa de agradar a todos. Ao mesmo tempo, não quer construir uma imagem completamente artificial. Prefere mostrar os perrengues e a realidade de uma imigrante, embora preserve momentos em que se sente vulnerável demais para se expor.

Para quem deseja crescer no Instagram, Amanda aconselha usar a visibilidade de maneira estratégica. Conteúdo, networking e relacionamento com parceiros precisam apontar para algum objetivo. Acumular seguidores sem saber qual produto, serviço ou valor será oferecido pode deixar o perfil estagnado.

Bodybuilding como desafio físico e mental

Uma das oportunidades criadas pelas redes sociais foi o convite para experimentar o bodybuilding. Amanda não treinava de forma competitiva e não conhecia aquele universo. Com acompanhamento de nutricionista e treinadores, aceitou o desafio.

A preparação exigiu dieta, rotina de exercícios e capacidade de dizer “não” a recompensas imediatas. Ela conta que já havia recorrido a procedimentos estéticos, mas só entendeu a relação entre corpo, alimentação e disciplina quando passou pelo processo esportivo.

Mais do que o resultado visual, Amanda valorizou a mudança mental. Se conseguia seguir um plano difícil para competir, também poderia aplicar foco e limites a outras áreas da vida. Mesmo depois do cancelamento de uma competição para a qual se preparava, decidiu manter hábitos mais saudáveis e continuar aberta a novos campeonatos.

Inglês, networking e sair da bolha brasileira

Amanda não considera seu inglês perfeito, mas diz ter alcançado um nível de comunicação que ampliou as possibilidades. Antes, o medo de errar a mantinha restrita a círculos brasileiros. Quando decidiu falar com o vocabulário disponível e recorrer a ferramentas de tradução quando necessário, começou a conhecer pessoas de outras nacionalidades.

Essa mudança foi importante para que o trabalho ultrapassasse o nicho brasileiro. Amanda passou a enxergar festas e encontros também como oportunidades de relacionamento profissional. Para ela, construir pontes significa tanto receber indicações quanto conectar outras pessoas sem exigir retorno imediato.

A fé como apoio emocional na imigração

Na parte final da conversa, Amanda fala sobre sua relação com a fé. Ela recorre à oração quando precisa tomar decisões e acompanha transmissões religiosas que funcionam como um momento diário de reflexão.

O apoio espiritual ganhou peso durante os meses no Brasil e no retorno à Irlanda. Amanda entende a mudança extraordinária nas regras de entrada como uma confirmação de que deveria continuar seu caminho no exterior.

Ela também associa a fé à gestão das emoções. A vida de imigrante envolve solidão, pressão financeira, acidentes, trabalhos difíceis e distância da família. Ter uma rotina que a faz parar e reorganizar os pensamentos ajuda a manter estabilidade diante desses períodos.

De imigrante a influenciadora na Irlanda

A história de Amanda Siqueira na Irlanda não é uma sequência linear de conquistas. Ela alternou estudos, trabalhos físicos, cuidados com idosos, empreendedorismo, retorno ao Brasil, produção de eventos e criação de conteúdo.

O ponto comum entre essas fases é a disposição de experimentar. Amanda entrou em funções para as quais ainda precisava aprender, transformou contatos em projetos e passou a tratar o Instagram como um negócio que exige formação, métricas e responsabilidade.

Assista ao episódio completo para conhecer os detalhes da trajetória, os bastidores das parcerias e a visão de Amanda sobre trabalho, exposição, disciplina e vida na Irlanda.