Mãe solo na Irlanda: moradia, trabalho e recomeço

Ser mãe solo na Irlanda obrigou Deusa de Assis a tomar decisões difíceis sobre moradia, trabalho e permanência no país. Ela chegou em 2010 pensando em ficar um ou dois anos, sem falar inglês, e acabou construindo uma vida que já durava cerca de 14 anos quando participou do Bolder Podcast.

Na conversa com Bolder, Deusa relata uma gravidez sem apoio do pai da criança, a saída forçada de uma casa compartilhada com um bebê de quatro meses, a procura desesperada por aluguel e a mudança profissional que lhe permitiu cuidar da filha. A história também explica como anos trabalhando como childminder deram origem a um novo negócio de alimentação infantil.

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A chegada à Irlanda sem falar inglês

Deusa veio para a Irlanda com o objetivo de aprender inglês. No começo, sabia basicamente pedir um Big Mac. Levou cerca de três meses para encontrar o primeiro trabalho, como au pair, morando com uma família e cuidando de três crianças enquanto estudava.

Depois, conseguiu uma vaga administrativa em um escritório. Esse emprego formal teve uma importância que ela só percebeu plenamente mais tarde: quando engravidou, tinha registro, pagava impostos e pôde acessar licença-maternidade e direitos relacionados ao trabalho.

A decisão de continuar a gravidez na Irlanda

A gravidez aconteceu enquanto Deusa ainda estava em uma relação recente. Ela conta que o pai da criança reagiu mal e apresentou o dinheiro como opção para interromper a gestação ou voltar ao Brasil. Aos cinco meses, os dois já estavam afastados.

Deusa chegou a comprar uma passagem de volta. Em uma conversa, porém, sua mãe percebeu que ela não demonstrava vontade de retornar e se ofereceu para viajar à Irlanda para acompanhar o nascimento. A passagem foi cancelada e Deusa decidiu permanecer.

A mãe esteve presente no parto e nas primeiras semanas. Quando voltou ao Brasil, Deusa ficou sozinha com a bebê e com todas as decisões práticas da nova rotina.

Um quarto compartilhado com um bebê

Durante a gravidez, Deusa saiu de um estúdio em Dublin 6 e alugou um quarto em uma casa compartilhada em Bray. Ela conhecia o proprietário, que também morava no imóvel, e explicou previamente que estava grávida.

Depois do nascimento, a situação tornou-se desconfortável. Deusa passava a maior parte do tempo no quarto com a filha. O choro incomodava o proprietário e até acender a luz para amamentar de madrugada gerava reclamações.

Quando a bebê tinha aproximadamente quatro meses, o proprietário deu 30 dias para que as duas saíssem. Deusa pagava o aluguel em dia, mas não encontrou uma proteção imediata que resolvesse o problema. Ela precisava localizar outra casa dentro do prazo.

Deusa de Assis em entrevista sobre maternidade solo e moradia na Irlanda
Deusa de Assis relembra os desafios da maternidade solo e da crise imobiliária na Irlanda.

A crise imobiliária já dificultava a vida há dez anos

O relato ajuda a colocar a crise imobiliária irlandesa em perspectiva. Deusa lembra que os aluguéis eram menores, mas já faltavam imóveis e havia filas para visitar apartamentos. Dizer que tinha um recém-nascido reduzia ainda mais as opções.

Ela procurou em sites, pediu ajuda a amigos e chegou a sair com a bebê tentando encontrar alguma alternativa. Uma amiga que trabalhava em restaurante conversou com o proprietário do estabelecimento, que também alugava imóveis, e conseguiu indicar um apartamento de dois quartos.

Deusa não tinha naquele momento o dinheiro necessário para assumir tudo sozinha. A solução foi alugar o segundo quarto para estudantes. Isso ajudava a pagar as contas, mas gerava insegurança: ela dividia a casa com desconhecidos enquanto precisava proteger a filha.

Demissão, creche cara e trabalho como childminder

Ao voltar da licença-maternidade, Deusa enfrentou conflito no escritório. Ela relata pressão para reduzir horário e salário e diz que acabou demitida perto do vencimento do visto. Sem condições de pagar creche, não tinha tempo para permanecer parada procurando uma solução ideal.

Em um grupo de mães, anunciou que passaria a trabalhar como childminder. Assim, poderia cuidar de outras crianças em casa e manter a própria filha por perto. Uma das primeiras famílias permaneceu com ela por cinco anos; as crianças cresceram juntas e ainda eram amigas na época da entrevista.

Ao longo dos anos, Deusa calcula ter cuidado de 15 crianças. A atividade que começou como saída de emergência tornou-se uma carreira construída em torno da rotina real da maternidade.

Da cozinha de casa a uma empresa de alimentação infantil

Cuidar das crianças também exigia preparar refeições. Deusa passou aproximadamente dez anos aprendendo a cozinhar para bebês e crianças, considerando idade, textura, alergias, higiene e exigências legais.

Essa experiência deu origem à With Love To, empresa de alimentação infantil que estava sendo lançada no momento do podcast. Para colocar o projeto de pé, ela fez cursos sobre segurança alimentar, alergênicos e práticas de cozinha.

O recomeço não apaga o período difícil. Ele mostra como uma competência desenvolvida por necessidade pode ganhar estrutura profissional quando recebe tempo, formação e planejamento.

Como Deusa conseguiu estabilidade na moradia

Mais tarde, Deusa recebeu auxílio parcial para o aluguel, calculado de acordo com sua renda. Para solicitar o benefício, precisou também entrar em uma lista de habitação. Ela não acreditava que algum dia surgiria uma oportunidade concreta.

Depois de alguns anos, recebeu uma convocação para conhecer um imóvel novo ligado a um modelo de habitação apoiada. Deusa esclarece no episódio que a casa não foi dada gratuitamente e não se tornou propriedade particular. Ela paga um valor relacionado à renda, mas ganhou estabilidade para permanecer no imóvel a longo prazo.

Para uma mãe que já havia recebido 30 dias para sair com uma bebê, essa segurança tinha um significado especial: o proprietário não poderia simplesmente anunciar a venda e obrigar mãe e filha a recomeçar mais uma vez.

Rede de apoio para mães imigrantes

Deusa procurou ajuda em grupos de mães, entre amigos e até na igreja. Um padre a ouviu e a levou a um escritório de advocacia quando ela não tinha recursos para pagar orientação. Ela também recebeu indicações de trabalho e moradia de pessoas da comunidade.

O episódio mostra que rede de apoio não é uma ideia abstrata. Ela pode ser alguém que acompanha um parto, indica um apartamento, cuida de uma criança por algumas horas, explica um direito ou simplesmente ouve sem julgar.

Direitos de locação, benefícios e regras de imigração mudam e dependem de cada caso. Quem enfrenta risco de perder a moradia deve consultar fontes oficiais e serviços especializados, como a Threshold e o Citizens Information.

Perguntas frequentes sobre ser mãe solo na Irlanda

É fácil alugar uma casa com filhos na Irlanda?

O relato de Deusa mostra que não. Oferta limitada, preço, comprovação de renda e resistência de alguns proprietários tornam a procura difícil. Famílias em risco devem buscar orientação antes de aceitar um aviso de saída como definitivo.

Como trabalhar sem ter dinheiro para creche?

Deusa encontrou uma solução específica ao trabalhar como childminder com a filha em casa. Isso não serve para todas as pessoas e exige observar regras atuais, seguros e requisitos da atividade. Existem também subsídios de cuidado infantil sujeitos a critérios.

Morar na Irlanda sem família é muito solitário?

Para Deusa, sim, especialmente nos primeiros anos da filha. Ela considera positivos aspectos de saúde, escola e segurança, mas reconhece o peso de decidir tudo sozinha e viver longe da família brasileira.

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Um recomeço construído etapa por etapa

Deusa não apresenta uma fórmula simples. Ela passou de au pair a funcionária de escritório, perdeu o emprego, tornou-se childminder, cuidou de 15 crianças e transformou o conhecimento adquirido em um negócio de alimentação infantil.

Ao mesmo tempo, saiu de um quarto compartilhado, alugou um apartamento com desconhecidos e finalmente conquistou estabilidade habitacional. A experiência de ser mãe solo na Irlanda continua marcada pela falta de rede familiar, mas também pela capacidade de encontrar soluções concretas a cada nova dificuldade.