Primeiras impressões de um intercambista na Irlanda | Bolder Podcast 220

Quais são as primeiras impressões de um intercambista na Irlanda depois de apenas três semanas no país? No Bolder Podcast 220, Marco Antonio Rodrigues fala sobre o choque com o inglês, o frio, o transporte, a procura por trabalho no audiovisual e um golpe de €700 durante a busca por acomodação.

O episódio foi gravado em 2023 e registra uma experiência pessoal do começo do intercâmbio. Preços, procedimentos de imigração, condições de trabalho e regras para estudantes podem ter mudado. Ainda assim, o relato de Marco traz lições práticas para quem está organizando a mudança e quer evitar erros provocados pela pressa.

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O que Marco esperava encontrar na Irlanda?

Antes de embarcar, Marco pesquisou sobre três assuntos: oportunidades de trabalho, dificuldade para encontrar moradia e clima. Ele esperava enfrentar frio e uma crise de acomodação, mas não imaginava que o inglês seria o obstáculo mais imediato.

No Brasil, havia estudado inglês de forma intermitente durante aproximadamente um ano. Chegou acreditando que possuía uma base próxima do nível intermediário, mas o teste da escola o colocou no A1. A diferença apareceu logo nos primeiros dias, quando precisou resolver sozinho tarefas simples como pedir comida, comprar um chip de celular e usar o ônibus.

Para Marco, sair do país já exige reconstruir a rotina. Fazer isso sozinho e com pouca compreensão do idioma aumenta a dificuldade: além de escola e documentação, é preciso aprender onde comprar comida, como chegar aos lugares e como pedir ajuda.

As primeiras dificuldades com comida, internet e transporte

Na primeira noite, Marco tentou pedir comida pelo aplicativo que usava no Brasil e percebeu que precisaria descobrir os serviços locais. Acabou pagando cerca de €15 em um pedido, valor que pesou porque ele havia chegado decidido a economizar.

No dia seguinte, pediu orientação a um morador da acomodação sobre onde comprar um chip. Entendeu que a pessoa iria acompanhá-lo, mas recebeu apenas a indicação do ônibus e do ponto no mapa. Marco entrou no transporte sem internet móvel e acompanhou o trajeto pelo celular até conseguir chegar à loja.

Apesar do inglês limitado, conseguiu explicar que precisava de um chip. A atendente compreendeu o pedido e preparou tudo. A experiência reforçou uma de suas primeiras impressões: muitos irlandeses estão acostumados a lidar com estudantes estrangeiros e tentam facilitar a comunicação.

O transporte confundiu até depois das primeiras semanas

Marco abriu o episódio contando que havia se atrasado porque precisou fazer uma baldeação e não entendeu o aviso. Também disse que perdeu ônibus por esperar no lado errado da rua, seguindo automaticamente a lógica do trânsito brasileiro.

Esses episódios parecem pequenos, mas revelam o desgaste do início do intercâmbio. Quando o estudante ainda não conhece as rotas e compreende pouco os anúncios, um deslocamento simples pode exigir bastante atenção. A familiaridade veio aos poucos, conforme Marco repetiu os trajetos.

Como foi passar pela imigração com inglês básico?

Marco relata que sua entrada no país foi tranquila. A documentação da escola e as informações sobre o curso ajudaram na conversa com o agente. Ele também havia contratado traslado e acomodação temporária por meio da instituição, o que evitou a necessidade de organizar tudo sozinho ao desembarcar.

A residência estudantil oferecia quarto e banheiro próprios, cozinha equipada, limpeza semanal e atendimento da escola quando surgiam problemas. Marco tinha aproximadamente um mês e meio de hospedagem, prazo importante para procurar uma moradia com mais calma.

Esse relato não substitui os requisitos oficiais de entrada. Cada viajante precisa conferir a documentação correspondente ao curso, nacionalidade e situação migratória antes de embarcar.

O frio irlandês foi pior do que Marco imaginava

Marco chegou em março e encontrou uma combinação de frio, vento e chuva. Para ele, a temperatura exibida no celular não traduzia a sensação térmica. Guarda-chuva também não parecia uma solução confiável por causa das rajadas.

As roupas levadas do Brasil ajudavam quando usadas em camadas, mas ele concluiu que não valia a pena investir em uma jaqueta nova antes da viagem. Preferiu comprar na Irlanda uma peça impermeável mais adequada ao clima local. Uma calça térmica e a segunda pele trazida do Brasil continuaram úteis.

A recomendação baseada em sua experiência é simples: aproveitar o que já possui, levar camadas e reservar parte do orçamento para comprar no destino aquilo que realmente estiver faltando.

Networking no primeiro dia abriu portas no audiovisual

Marco trabalha com edição, motion design e finalização de vídeo. No sábado em que chegou à Irlanda, enviou uma mensagem para Bolder oferecendo ajuda. O contato se transformou em colaboração nas gravações do podcast e deu a ele uma primeira conexão profissional no país.

Ele também aplicou uma dica que havia ouvido em outro episódio: pesquisou produtoras de vídeo em Dublin e enviou e-mails apresentando currículo e portfólio. Entre as respostas, uma produtora o chamou para um período de experiência de duas semanas.

Para Marco, a experiência local ajudaria a ultrapassar uma barreira comum: conseguir a primeira referência profissional na Irlanda. O trabalho de vídeo era tecnicamente parecido com o que já fazia no Brasil, mas compreender as orientações do diretor em inglês era difícil.

Como trabalhar com audiovisual sem dominar o inglês?

Quando não entendia uma instrução, Marco pedia uma referência visual. Em uma das tarefas, por exemplo, recebeu como inspiração a abertura da série Família Soprano. A referência permitiu compreender o estilo esperado sem depender apenas da explicação oral.

Mesmo assim, ele não minimiza o problema. É necessário entender briefing, alterações e prazos. A recomendação para quem pretende trabalhar na área é estudar o máximo possível antes de viajar e aprender o vocabulário específico de produção, edição e motion design.

Trabalho não remunerado exige limites claros

No episódio, Marco conta que se ofereceu para colaborar sem remuneração porque buscava experiência e contatos. Bolder pondera que uma colaboração desse tipo precisa ter prazo, horário e aprendizado definidos, sem se transformar em trabalho indefinido e gratuito.

Além dessa cautela, o estudante deve verificar se a atividade respeita as regras de trabalho, estágio e imigração aplicáveis ao seu caso. Portfólio e networking são importantes, mas não justificam exploração ou uma relação sem limites.

A experiência de nove meses trabalhando em Angola

A Irlanda não foi a primeira experiência internacional de Marco. Aos 24 anos, ele foi contratado para trabalhar durante nove ou dez meses em Angola. Atuou como editor, profissional de motion design e finalizador na estruturação de uma emissora de televisão.

O convite surgiu por indicação. A empresa ajudou com passaporte, visto, transporte, moradia e custos do projeto. Marco chegou sem conhecer pessoalmente o empregador e enfrentou a preocupação da família, mas o trabalho se confirmou e a emissora continuava funcionando no momento da entrevista.

Além da produção, Marco ensinou processos a profissionais brasileiros e angolanos. Foi a primeira vez que percebeu a capacidade de transmitir o próprio conhecimento e acompanhar uma equipe crescendo.

Apesar da boa remuneração, a rotina parecia uma “gaiola de ouro”. Alertas constantes de segurança limitavam sua circulação: hotel, transporte da empresa e televisão formavam quase todo o cotidiano. Quando o contrato terminou, ele preferiu procurar uma experiência diferente.

Por que ele escolheu fazer intercâmbio na Irlanda?

Durante o retorno de Angola, Marco passou um dia em Portugal e gostou da arquitetura, da história e da sensação de estar na Europa. Voltou ao Brasil planejando trabalhar em Portugal, mas não conseguiu uma vaga à distância.

Como também precisava aprender inglês, cogitou o Canadá. Considerou o processo mais burocrático e acabou escolhendo a Irlanda, que reunia o estudo do idioma e a possibilidade de viver na Europa.

Marco reconhece que o intercâmbio exige gastar um dinheiro que preferia guardar. Ele compara a decisão a dar um passo para trás antes de avançar: interromper uma situação profissional estável para adquirir idioma, contatos e uma experiência internacional mais alinhada com seus objetivos.

O golpe de acomodação que custou €700

O trecho mais importante da conversa é o relato do golpe. Marco publicou em grupos do Facebook que procurava uma acomodação. Um perfil respondeu em inglês, enviou o vídeo de um imóvel e apresentou um suposto proprietário.

Quando Marco pediu uma visita, ouviu que não seria possível porque havia pessoas morando na casa. Recebeu um contrato, assinou e enviou €700 por Pix para uma conta brasileira em nome de outra pessoa. Logo depois, o golpista tentou cobrar um valor adicional.

Com ajuda de amigos, Marco percebeu que havia perdido o dinheiro. Contatou o banco no Brasil e registrou um boletim de ocorrência, mas sabia que a transferência instantânea tornava a recuperação improvável. O episódio o deixou frustrado e com vergonha, embora o responsável pelo crime fosse o golpista.

Quais sinais indicavam que era um golpe?

  • O contato se recusou a permitir uma visita presencial ao imóvel.
  • A conversa saiu do Facebook e continuou pelo Telegram.
  • O suposto proprietário e o titular da conta de pagamento tinham nomes diferentes.
  • O pagamento foi solicitado por Pix para uma conta no Brasil.
  • O contrato apareceu antes de qualquer verificação real da casa e das pessoas que moravam nela.
  • Depois da primeira transferência, surgiu a tentativa de cobrar mais dinheiro.

O maior fator, segundo Marco, foi o desespero. Ele ainda possuía cerca de cinco semanas de acomodação estudantil e não precisava fechar negócio imediatamente. A vontade de resolver logo o problema reduziu sua atenção aos sinais.

Como evitar golpe de aluguel na Irlanda?

A lição central de Marco é não transferir dinheiro antes de visitar o imóvel. É importante testar a chave, observar mofo e conservação, conhecer os moradores e confirmar com quem o contrato está sendo firmado.

Se a opção ainda não apareceu, uma hospedagem temporária pode custar mais por alguns dias, mas é preferível a entregar depósito e aluguel a uma pessoa desconhecida. Pressa, preço muito atraente e histórias que impedem a visita devem ser tratados como alertas.

Na acomodação que finalmente escolheu, Marco fez uma visita, testou a chave e observou a organização da casa. O imóvel ficava longe, mas oferecia uma solução segura enquanto ele continuava procurando algo melhor.

Como Marco imaginava os próximos oito meses?

Depois de três semanas, Marco já sentia alguma evolução na comunicação. Morava com pessoas que falavam inglês e precisava usar o idioma diariamente. Sua maior dificuldade era compreender os outros, não explicar o que queria.

Para o fim do intercâmbio, esperava atingir um nível entre intermediário e avançado e trabalhar com audiovisual, seja em uma vaga fixa ou em projetos freelance. Também considerava renovar o curso e aguardava a possibilidade de reconhecer a cidadania espanhola.

Apesar das dificuldades, ele se via morando na Irlanda. A diversidade de Dublin foi um dos pontos que mais o impressionaram: em poucos dias, encontrou pessoas de diferentes países, ouviu vários idiomas e percebeu a cidade como uma base para conhecer outras culturas.

O que ele faria diferente?

Ao final, Marco responde que teria pesquisado ainda mais e estudado inglês com maior constância antes de viajar. Entre os pontos negativos, menciona frio, chuva e a confusão inicial com o transporte. Entre os positivos, destaca diversidade, contato com diferentes culturas e receptividade das pessoas que tentaram ajudá-lo.

As primeiras impressões de um intercambista na Irlanda não foram idealizadas. Em três semanas, Marco se atrasou, se perdeu, teve dificuldade para entender orientações e caiu em um golpe. Ao mesmo tempo, criou contatos, entrou em produtoras, resolveu a documentação com apoio da escola e começou a reconstruir a carreira.

O episódio vale principalmente pela honestidade: intercâmbio não é apenas viagem, emprego e fotos em Dublin. É um processo de adaptação em que paciência e atenção podem ser tão importantes quanto dinheiro e inglês.