Saúde mental do imigrante: ansiedade, identidade e apoio

A saúde mental do imigrante é afetada por mudanças que vão muito além do endereço. Trabalho, identidade profissional, clima, idioma, solidão, cobranças familiares e dificuldade para encontrar moradia podem acontecer ao mesmo tempo. Neste especial do Setembro Amarelo, Bolder conversa com as psicólogas Janaína Leony e Larissa Roth sobre esses impactos e sobre a importância de procurar apoio.

Atenção: o episódio aborda depressão, automutilação e suicídio. O conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. Se você ou alguém próximo estiver em risco imediato na Irlanda, ligue gratuitamente para 112 ou 999 ou procure o emergency department mais próximo. Para conversar com alguém a qualquer hora, os Samaritans atendem gratuitamente pelo 116 123. Consulte também a página de ajuda urgente do HSE.

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Imigrar também muda a forma como a pessoa se enxerga

Um dos primeiros pontos da conversa é a perda temporária de identidade. Uma pessoa que trabalhava em escritório, vestia-se de determinada maneira e tinha reconhecimento profissional pode chegar à Irlanda e começar como cleaner, atendente ou operária de fábrica.

Janaína relata a própria experiência. No Brasil, trabalhava em banco, de terno e gravata. Ao se mudar para a Espanha em 2007, passou a vender pão e limpar o chão de uma padaria. Tinha uma filha de 4 anos, €500 disponíveis e contas para pagar. A prioridade imediata era sobreviver e aprender o idioma.

Larissa viveu algo semelhante na Irlanda. Enquanto reconstruía a atuação como psicóloga, trabalhava parte do tempo em uma fábrica de alimentos, onde cabelo preso e unhas sem esmalte faziam parte das regras. Ela descreve como a distância entre “quem eu era” e “o que faço agora” pode afetar autoestima e sensação de pertencimento.

Por que a imigração pode agravar ansiedade e depressão?

Documentos demorados, dificuldade para alugar uma casa, inverno escuro e uma cultura diferente criam um ambiente de incerteza. Nenhum vídeo prepara completamente alguém para a experiência cotidiana de morar fora.

Para quem já tinha histórico de ansiedade, depressão ou outras dificuldades emocionais, essas pressões podem intensificar sintomas. A pessoa pode concluir que “não deu certo” no Brasil e “também não está dando certo” no exterior, transformando problemas de adaptação em uma acusação contra si mesma.

As psicólogas alertam que frases familiares como “você escolheu isso” ou “aqui estava melhor” aumentam a culpa. O imigrante normalmente já conhece as consequências da decisão; o que precisa é de escuta, orientação e ajuda para reorganizar os próximos passos.

Bolder conversa com as psicólogas Janaína Leony e Larissa Roth sobre saúde mental do imigrante
Janaína Leony e Larissa Roth discutem os impactos emocionais da imigração e a importância de buscar ajuda.

Liberdade longe da família pode ser positiva ou destrutiva

Morar longe pode criar espaço para escolhas antes reprimidas. Algumas pessoas conseguem assumir a própria sexualidade, mudar a aparência, fazer uma tatuagem ou experimentar uma carreira sem ouvir constantemente a reprovação familiar.

Essa liberdade, porém, também pode ser usada como fuga. Gastar todos os fins de semana com álcool ou drogas não resolve cobranças internas, traumas ou solidão. Para Larissa, sair do controle dos outros não elimina automaticamente a pressão que a pessoa aprendeu a exercer sobre si mesma.

Voltar ao Brasil não significa fracassar

Um dos trechos mais importantes do episódio questiona a obrigação de “dar certo” a qualquer custo. Se permanecer no exterior está destruindo a saúde mental, voltar temporariamente pode ser uma pausa para descansar, recuperar apoio e refazer o plano.

Janaína e Larissa insistem que retorno não é derrota. A sensação de fracasso pode ser real, mas não descreve necessariamente a situação. Recuar um passo, reorganizar dinheiro, tratamento e expectativas pode permitir uma nova tentativa mais segura.

Rede de apoio: como perceber que alguém não está bem

Mudanças persistentes de comportamento merecem atenção: isolamento, abandono da rotina, desesperança, falas de despedida ou incapacidade de lidar com tarefas básicas. Nem sempre a pessoa dirá claramente o que está acontecendo.

A abordagem deve considerar o grau de intimidade e a abertura existente. Ouvir sem julgamento, demonstrar preocupação e ajudar a procurar um GP ou serviço de saúde costuma ser mais útil do que discutir, minimizar ou tentar diagnosticar.

Em uma emergência, preservar a vida vem antes do medo de desagradar. O HSE recomenda ligar para 112 ou 999 quando alguém estiver prestes a ferir a si mesmo ou outra pessoa. Também é possível acompanhar a pessoa ao GP ou ao emergency department.

Clima, vitamina D e rotina

O inverno irlandês aparece no episódio como parte do problema de adaptação. Dias curtos e chuva podem reduzir atividades externas e contato social. As psicólogas recomendam não abandonar completamente a rotina por causa do clima: sair de casa, manter movimento e encontrar atividades possíveis no inverno ajuda a evitar isolamento.

Elas também comentam vitamina D e outras deficiências nutricionais. Sintomas físicos e emocionais podem se misturar, por isso suplementação não deve ser usada como autodiagnóstico. O caminho seguro é conversar com GP ou outro profissional de saúde, avaliar exames quando indicado e seguir orientação individual.

Autocuidado não precisa ser produtivo

Hobbies aparecem como uma forma de recuperar tempo pessoal. Janaína fala sobre pintar a cerca e retomar o tricô; Larissa comenta a necessidade de reencontrar atividades próprias. O objetivo não é produzir, monetizar ou impressionar alguém, mas criar uma experiência que pertença à pessoa.

Autocuidado também inclui sono, alimentação, água, descanso, limites no trabalho e contato com outras pessoas. Essas práticas não substituem terapia ou atendimento médico quando necessários, mas ajudam a sustentar a rotina.

Onde buscar ajuda de saúde mental na Irlanda

  • Risco imediato: ligue 112 ou 999, ou vá ao emergency department mais próximo.
  • Samaritans: suporte confidencial gratuito, 24 horas, pelo telefone 116 123.
  • Text About It: envie HELLO gratuitamente para 50808 para conversar por mensagem com um voluntário treinado.
  • GP: pode avaliar a situação, orientar tratamento e encaminhar para serviços de saúde mental.

A imigração pode abrir caminhos, mas não exige que ninguém suporte tudo sozinho. Assista ao episódio para acompanhar os relatos completos de Janaína e Larissa e as perguntas enviadas pela audiência.