O mercado de trabalho e o ecossistema de negócios na Irlanda passaram por uma transformação drástica nos últimos anos. Se antes a comunidade brasileira viajava para a ilha focada apenas em estudar inglês e trabalhar na área de hospitalidade, o cenário atual mostra o amadurecimento dessa população. Durante a terceira edição do Brazil Showcase, evento organizado pela Brazil Ireland Chamber of Commerce (BIC) em Dublin, ficou evidente que os brasileiros deixaram de ser apenas trabalhadores temporários para se tornarem empresários de sucesso, gerentes de multinacionais e compradores de imóveis na Irlanda.
Como funciona o amadurecimento dos brasileiros na Irlanda?
De acordo com os relatos colhidos por Bolder no evento, a trajetória do imigrante brasileiro na Irlanda evoluiu de forma orgânica. Profissionais qualificados e com experiência prévia no Brasil aprenderam o idioma e começaram a ocupar cargos de liderança em corporações ou a estruturar as suas próprias empresas.
Essa consolidação chamou a atenção das grandes instituições financeiras locais. Bancos tradicionais irlandeses, como o PTSB (terceiro maior banco do país), já contam com funcionários que falam português para facilitar a abertura de contas e o processo de financiamento imobiliário (mortgage) para o público brasileiro.
Empreendedorismo na Irlanda: Vale a pena?
Uma das grandes vantagens apontadas pelos participantes do evento é o ambiente fértil e a menor burocracia para abrir e registrar novos negócios em solo irlandês comparado ao Brasil. Entre as histórias de destaque apresentadas na feira, observou-se uma enorme diversidade de nichos de atuação:
- Construção Civil e Reformas: Empresas brasileiras de engenharia realizam desde reformas residenciais focadas no público imigrante até grandes contratos comerciais com nativos.
- Tecnologia da Informação: Companhias exportam serviços de desenvolvimento de software diretamente do Brasil para a Irlanda e o resto da Europa, tirando vantagem competitiva dos custos operacionais, mesmo precisando gerenciar o desafio do fuso horário (time zone).
- Alimentação e Bem-estar: Desde a introdução de lanches típicos em pequenas cidades (como coxinhas e tapiocas em Cork) até espaços multiculturais de yoga e desenvolvimento pessoal em Dublin, os brasileiros têm usado a criatividade e a flexibilidade para conquistar o mercado local.
Quais os riscos e os principais desafios?
Apesar das facilidades para empreender, os palestrantes e empresários entrevistados por Bolder destacaram barreiras reais do ecossistema irlandês:
- O Sistema de Saúde: Diferente do Brasil, o acesso a médicos gerais (GPs) na Irlanda é caro e burocrático. A falta de conhecimento desse sistema gera um “choque de realidade” nos recém-chegados, o que tem motivado empresas a buscarem soluções alternativas de saúde corporativa para seus funcionários.
- Dependência de Conexões: Como ressaltado por advogados parceiros da Câmara de Comércio, a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma nova empresa na Irlanda costuma ser o acesso à informação correta e a construção de relacionamentos profissionais sólidos (networking).
O que as autoridades pensam sobre a comunidade brasileira?
O embaixador do Brasil na Irlanda destacou o sucesso e a reputação que os brasileiros construíram ao longo das últimas décadas. Segundo ele, o setor econômico irlandês descobriu que a mão de obra brasileira é extraordinária, altamente instruída, criativa e confiável. O salto para o empreendedorismo e a criação de negócios próprios foi visto pela embaixada como um movimento natural dessa evolução socioeconômica.
Conexão bilateral e a expectativa do voo direto
A terceira edição do Brazil Showcase marcou o início de uma fase bilateral mais forte para a Câmara de Comércio, focando em atrair missões de empresas irlandesas para o Brasil e vice-versa.
Outro ponto alto do evento foi o debate trazido pela DAA (órgão que administra os aeroportos na Irlanda) sobre a viabilidade de um voo direto entre a Irlanda e o Brasil. Os dados apontam que mais de 150 mil pessoas voaram entre os dois países no último ano, sendo que cerca de metade desse tráfego teve como destino final a cidade de São Paulo. Embora existam gargalos logísticos globais nas cadeias de suprimentos da Airbus e da Boeing atrasando novas rotas, a demanda existente e o tamanho da comunidade (estimada entre 80 mil e 100 mil brasileiros na Irlanda) justificam comercialmente a criação do trecho direto no futuro.
O amadurecimento e a força econômica mostrados no Brazil Showcase comprovam que os brasileiros criaram raízes definitivas na Irlanda. Para conhecer em detalhes cada uma dessas entrevistas e conferir os bastidores do evento, assista ao vídeo completo no canal Bolder Podcast.
