Comprar e reformar um apartamento na Irlanda foi a solução encontrada por Thiago para deixar definitivamente as casas compartilhadas. Arquiteto e designer, ele comprou por €160 mil um imóvel antigo de um quarto no centro de Drogheda e investiu aproximadamente €40 mil entre obra e mobiliário.
No vídeo, Bolder visita o apartamento pronto e reconstrói uma trajetória que começou em uma casa com 38 moradores. Além dos valores, Thiago mostra as decisões que tornaram o espaço mais funcional: integração de sala e cozinha, lavanderia própria, aquecimento elétrico por ambiente e móveis planejados quase inteiramente com módulos da IKEA.
Como era morar com 38 pessoas em Dublin?
Thiago chegou à Irlanda como intercambista em maio de 2019. Quando o prazo da acomodação inicial estava acabando, uma amiga avisou que surgiria uma vaga na casa dela, mas revelou um detalhe: o imóvel tinha 38 moradores.
Não era uma residência comum adaptada de qualquer forma. O proprietário havia estruturado o local para aquela capacidade. Eram dez quartos — nove quádruplos e um duplo —, todos com banheiro. A sala tinha dez geladeiras, cinco fogões, cinco fornos e três pias; a lavanderia reunia cinco máquinas de lavar e cinco secadoras.
Para um recém-chegado, a convivência ajudou a fazer amigos e praticar inglês com pessoas de vários países. Três moradores sentados para tomar cerveja logo atraíam outros e transformavam uma terça-feira comum em um encontro. Ainda assim, dividir o quarto e viver sem espaço próprio se tornou um incômodo duradouro.
A trajetória até conseguir trabalhar como arquiteto
O primeiro curso de inglês não entregou a experiência que Thiago esperava. Ele chegou no nível A1, encontrou uma turma formada apenas por brasileiros e um professor irlandês que frequentemente explicava a matéria em português. Com a escola pouco desafiadora, concentrou-se no trabalho e em juntar dinheiro para reconhecer a cidadania italiana.
Foi à Itália para um processo que deveria levar cerca de 45 dias, mas chegou justamente no início da pandemia. Ficou cinco meses em lockdown numa cidade de aproximadamente 200 habitantes e consumiu a reserva que havia levado.
Depois, viveu um ano em Hamburgo. Gostou da Alemanha, porém percebeu que precisaria dominar alemão para trabalhar como arquiteto e lidar com clientes e burocracia. Passou ainda por Malta, onde finalmente avançou no inglês por ser o único brasileiro da escola. Conseguiu uma vaga na área, mas o salário anual de €24 mil era menor do que poderia obter em funções de entrada em Dublin.
Ao retornar à Irlanda com cidadania europeia, enfrentou novamente a crise de acomodação. Só depois de uma nova passagem pela Alemanha conseguiu, durante uma estadia temporária, o primeiro emprego como arquiteto e designer e um quarto individual.
Por que comprar um apartamento em Drogheda?
Antes da compra, Thiago pagava €700 por um quarto individual com banheiro em Newcastle, dividindo a casa com mais duas pessoas. O imóvel era novo e confortável, mas o transporte era ruim e o ônibus disponível passava apenas uma vez por hora — quando passava.
Como trabalhava em Duleek, a cerca de dez minutos de Drogheda, começou a observar a cidade. Encontrou comércio, shopping, serviços, acesso ao aeroporto e ligação com Dublin. Já tinha carro, portanto não precisava restringir a procura ao centro da capital.
No Daft, viu apartamentos de um quarto para alugar por €1.200 ou €1.300 e imóveis à venda a partir de aproximadamente €150 mil. Na comparação feita por ele naquele momento, comprar em Drogheda podia custar perto de um terço de um imóvel equivalente em Dublin.
Quanto custou o apartamento?
O preço pedido era €155 mil. Thiago ofereceu €160 mil e o proprietário aceitou. A obra, sem contar os móveis, ficou perto de €30 mil; mobiliário e equipamentos adicionaram aproximadamente €10 mil, com a cozinha representando a maior parte.
O resultado final ultrapassou ligeiramente €200 mil quando decoração e todos os itens foram incluídos. Era praticamente o mesmo orçamento que ele tinha para comprar um apartamento já reformado, mas a escolha por um imóvel antigo permitiu definir layout, acabamento e armazenamento.
Esses valores descrevem uma compra específica e não devem ser usados como preço atual médio em Drogheda. Estado do prédio, metragem, localização, disputa entre compradores e data da negociação alteram completamente a conta.
O que mudou no banheiro e na lavanderia?
O banheiro antigo tinha banheira, encanamento e uma porta diagonal que consumia área de circulação. Thiago reduziu um pouco o cômodo, substituiu a banheira por box e aproveitou o espaço liberado para criar uma lavanderia.
Máquina de lavar e secadora ficaram empilhadas em um suporte próprio e presas por uma cinta, evitando deslocamento com a vibração. O armário também guarda malas, aspirador e um boiler elétrico de 80 litros.
O boiler antigo ocupava grande parte do armário e tinha um reservatório grande. Como o chuveiro passou a ser elétrico, o equipamento menor ficou responsável apenas pela água quente das pias. Thiago estima que o aparelho tenha custado por volta de €300, mas não separou o valor da instalação — que provavelmente foi mais alto.
Sala e cozinha integradas mudaram o apartamento
A principal alteração foi remover a parede de drywall que separava a cozinha da sala. Antes, os dois ambientes eram pequenos, com portas e corredor consumindo espaço. A nova ilha central passou a reunir cooktop de indução, extrator embutido e lugar para refeições.
Antes de comprar, Thiago chamou um engenheiro estrutural e apresentou o projeto. Só avançaria se a remoção fosse possível. O profissional confirmou que as divisórias internas não eram estruturais; depois, o projeto completo foi enviado à administração do edifício para aprovação.
Essa etapa é uma das lições mais importantes do vídeo. Ser uma parede interna ou de drywall não autoriza removê-la automaticamente. Estrutura, instalações, segurança contra incêndio, regras do condomínio e eventuais permissões precisam ser confirmadas antes da obra.
Como a cozinha aproveita um espaço pequeno?
A ilha substitui a mesa de jantar e permite que quem cozinha continue conversando com as visitas. Geladeira, freezer, lava-louça e lixeiras ficaram embutidos. Gavetas profundas facilitam o acesso aos alimentos e um armário esconde o pilar existente.
O micro-ondas permanece ligado dentro de um nicho ventilado; a air fryer é retirada durante o uso por produzir mais calor. Thiago mantém a bancada livre e limpa cada equipamento antes de guardá-lo.
Quase todos os módulos e eletrodomésticos vieram da IKEA. Para ele, o resultado prova que móveis de uma grande rede não precisam gerar uma casa genérica: o projeto, a seleção de acabamentos e a combinação dos módulos definem o ambiente.
Um escritório escondido dentro do armário
Como usa um desktop potente para arquitetura, Thiago não queria trabalhar no quarto nem deixar o computador exposto na sala. A solução foi projetar um armário com apenas 35 centímetros de profundidade.
Durante o expediente, as portas abrem e formam uma pequena estação de trabalho. No fim do dia, ele fecha tudo e elimina a presença visual do escritório. A mesma lógica aparece na cama com gavetas, no sofá-cama para visitas e no móvel de entrada que combina espelho e sapateira.
O apartamento tem só um quarto, por isso quase todo elemento cumpre mais de uma função. Quando o namorado se mudar, o plano é ampliar o guarda-roupa usando a parede oposta.
Como foi administrar a reforma?
A obra principal levou cinco semanas: retirada dos carpetes, instalação de pisos, pintura, remoção de molduras de gesso, demolição das divisórias aprovadas, banheiro e lavanderia. A montagem dos móveis consumiu mais uma semana.
Mesmo entregando desenhos e medidas, Thiago encontrou tomadas fora de posição e outros desvios. Visitava a obra duas vezes por semana; quando não havia ninguém, registrava fotos e vídeos e comparava tudo com o projeto.
Uma tomada deslocada 30 centímetros parece um erro pequeno, mas impediria o encaixe do escritório embutido. Corrigir enquanto a parede ainda estava aberta era simples; descobrir depois exigiria quebrar o acabamento pronto.
Vale a pena reformar sem ser arquiteto?
Thiago não recomenda conduzir sozinho uma transformação desse tamanho sem experiência. Comprar um imóvel antigo pode ser vantajoso porque o resultado fica personalizado, mas é preciso enxergar o potencial, especificar medidas, avaliar estrutura e acompanhar mão de obra.
Além do projeto, devem entrar no orçamento inspeção estrutural, elétrica, hidráulica, eficiência energética, advogado, avaliação, imposto, seguro, móveis e uma reserva para imprevistos. A CCPC reúne os custos que compradores devem considerar e recomenda usar os problemas encontrados no survey para orientar a decisão.
Custos que continuam depois da compra
O apartamento não tem estacionamento próprio. Thiago paga cerca de €600 por ano para estacionar na rua e aproximadamente €2.100 anuais de taxa de administração do prédio.
Esses valores precisam ser avaliados antes do lance. A taxa pode cobrir manutenção de áreas comuns, seguro do edifício e serviços, mas também pode subir ou coexistir com cobranças extraordinárias. Atas, fundo de reserva e obras futuras do condomínio merecem análise do comprador e do solicitor.
As janelas antigas ficaram para uma fase posterior porque a troca era cara. Elas ainda deixam entrar bastante ruído da rua. O prédio, porém, possui paredes externas espessas e mantém o calor no inverno, reduzindo a necessidade de ligar os aquecedores constantemente.
Como funciona o financiamento imobiliário na Irlanda?
O vídeo não detalha a entrada, a taxa ou a parcela do financiamento de Thiago. Como referência geral, as regras atuais do Banco Central permitem que first-time buyers obtenham, em regra, até quatro vezes a renda bruta e exigem depósito mínimo de 10%. Para compradores subsequentes, o limite de renda normalmente é 3,5 vezes, também com 10% de entrada.
Esses são limites do sistema, não promessa de aprovação. O banco avalia renda, estabilidade, gastos, outras dívidas e capacidade de suportar juros. As regras e exceções atualizadas estão na página de Mortgage Measures do Central Bank of Ireland.
Morar em Drogheda e trabalhar perto de Dublin
Thiago mora no centro de Drogheda e trabalha em Duleek. Para Dublin, citou um trem expresso de aproximadamente 32 minutos e um serviço convencional próximo de uma hora. O último trem noturno limita alguns compromissos, mas ônibus via aeroporto oferecem uma alternativa durante a madrugada.
A cidade possui comércio, cinema, pubs tradicionais, área histórica e acesso ao aeroporto em aproximadamente 25 ou 30 minutos de carro, segundo sua experiência. A localização permitiu reduzir o preço do imóvel sem voltar ao isolamento que sentia em Newcastle.
Comprar casa na Irlanda vale a pena?
Para Thiago, valeu. O imóvel antes era alugado por cerca de €1.500 por mês e, depois da reforma, ele acredita que teria potencial de locação maior. Essa projeção, porém, é apenas uma estimativa pessoal e não uma garantia de retorno.
A conquista tem um significado que vai além do investimento. Depois de anos dividindo quartos, atravessando países e até deixando a Irlanda por falta de acomodação, ele finalmente controla o próprio espaço.
Seu conselho é pesquisar localização, luz natural, umidade, estrutura e todas as taxas antes de comprar. Para quem pretende ficar no país a longo prazo, guardar dinheiro regularmente e entender as opções de financiamento pode abrir uma alternativa ao aluguel — mas reforma e propriedade só fazem sentido quando a conta completa cabe no orçamento.
Assista ao vídeo para ver o antes e depois, conhecer cada solução do projeto e acompanhar o passeio de Bolder pelo centro de Drogheda.
