Como é ser cosplayer na Irlanda: eventos, concursos e comunidade nerd

Ser cosplayer na Irlanda ajudou Nadine, criadora do Discovery Diny, a encontrar uma comunidade quando ainda conhecia pouca gente no país. Ela foi sozinha à MegaCon, ouviu português atrás de sua cadeira durante um desfile e saiu do evento com novas amizades — incluindo outras brasileiras que compartilhavam o mesmo hobby.

Na conversa com Bolder, Nadine explica o que é cosplay, como aprendeu a costurar pelo YouTube e quais diferenças encontrou entre os eventos irlandeses e brasileiros. O episódio passa por concursos, figurinos comprados ou produzidos à mão, regras de respeito aos participantes, trabalho em Dublin e viagens ao Japão e à China.

O que é cosplay?

A palavra combina “costume” e “play”: vestir-se e interpretar um personagem de anime, game, filme, quadrinho ou outra obra. Nadine resume como uma brincadeira de caracterização, mas deixa claro que o hobby pode envolver costura, modelagem, pintura, atuação e pesquisa detalhada.

Ela faz uma distinção simples: todo cosplay é uma fantasia, mas nem toda fantasia é cosplay. Vestir-se genericamente de pirata é uma fantasia; reproduzir Jack Sparrow, com referências a um personagem específico, é cosplay.

A participação não depende de ter o mesmo corpo, gênero ou tom de pele do personagem. Para Nadine, cosplay é para todos. Em competições sérias, os jurados devem avaliar a adaptação, a confecção, o acabamento e a apresentação, não características físicas que a pessoa não pode mudar.

Como Nadine começou a fazer cosplay?

Nadine é de Florianópolis e cresceu assistindo a desenhos com o avô. A irmã mais velha começou a frequentar eventos de anime e a influenciou. Entre as primeiras referências estavam Misa Amane, de Death Note, e personagens de Naruto.

O programa Art Attack também teve papel importante. Nadine gostava de transformar materiais disponíveis em casa e já tinha interesse por trabalhos manuais antes de conhecer o universo cosplay.

Quando começou, por volta de 2010, comprar figurinos prontos ou importar perucas não era tão simples. Muitas costureiras não entendiam os desenhos apresentados pelos clientes. Ao descobrir uma máquina antiga de pedal na casa da avó, Nadine procurou tutoriais no YouTube e aprendeu a costurar sozinha.

Como adolescente, não tinha dinheiro para produzir quantos personagens quisesse. A estratégia era usar uma roupa algumas vezes, vendê-la e financiar o projeto seguinte. Depois, também confeccionou peças para outras pessoas, embora nunca tenha transformado essa atividade numa produção em grande escala.

A loja nerd que ajudou a financiar a mudança

No Brasil, Nadine e a irmã mantinham uma loja online de action figures, perucas, lentes de contato e acessórios ligados à cultura otaku. Vendiam para todo o país e montavam estandes em eventos de anime.

Alguns acessórios eram importados; outros eram produzidos pela própria Nadine. A renda do negócio ajudou no plano de ir para a Irlanda.

Paralelamente, ela trabalhava com redes sociais para uma rádio. Essa experiência explica por que, mais tarde, decidiu criar um perfil próprio que combina viagens, cultura asiática, vida no exterior e eventos nerds.

Por que ela escolheu a Irlanda?

O objetivo inicial era aprender inglês. Nadine já possuía passaporte europeu e procurou países da Europa onde pudesse viver e trabalhar usando o idioma. Considerou Malta, mas escolheu a Irlanda sem ter o país como um sonho antigo.

A ideia era permanecer durante um ano; no momento da entrevista, já havia completado um ano e meio e não sabia quando sairia. Emigrar mostrou possibilidades de vida que ela não enxergava no Brasil. Ao mesmo tempo, o clima irlandês continua sendo um motivo para cogitar outro país no futuro.

Ela não frequentou uma escola de inglês por longo período. Fez poucas aulas particulares e desenvolveu o idioma principalmente no trabalho e no contato diário com clientes e colegas.

Como conseguir trabalho com inglês básico?

Duas semanas depois de chegar, Nadine conseguiu emprego numa unidade da Starbucks. Nunca havia trabalhado com café e usou o Google Tradutor durante parte da entrevista.

Uma gerente polonesa e um funcionário brasileiro ajudaram na comunicação. Também houve um fator de oportunidade: alguém estava deixando a equipe justamente na semana em que ela entregou o currículo.

No início, aprendeu receitas e tarefas de limpeza. Quando a gerente quis colocá-la no caixa, Nadine duvidou que conseguiria atender. A chefe escreveu as perguntas básicas num papel, e a repetição transformou as frases em rotina. Com o tempo, ela passou a conversar normalmente com os clientes.

O caso mostra que inglês básico não impede toda contratação, mas também não garante vaga. Documento europeu, ajuda interna, disponibilidade e o momento certo contribuíram para o resultado.

Como é a comunidade cosplay na Irlanda?

O primeiro evento de Nadine no país foi a MegaCon. Ela comprou um figurino pronto, adquiriu o ingresso e foi sem companhia porque queria conhecer pessoas com interesses semelhantes.

Enquanto assistia ao desfile, ouviu uma conversa em português. Conheceu outra cosplayer brasileira e, a partir dali, entrou num círculo que incluía participantes e um fotógrafo brasileiro que registra os eventos por hobby.

Apesar da grande comunidade brasileira na Irlanda, Nadine conhecia apenas outras três brasileiras dedicadas ao cosplay. A cena local existe e cresce, mas ainda é pequena em comparação com o Brasil.

Quais são os principais eventos nerds?

Ela cita Dublin Comic Con, MegaCon, AmiCon, Irish Gaming Market e GamerFest. Alguns têm foco mais amplo em cultura pop; outros privilegiam games, quadrinhos ou anime. Concursos de cosplay costumam fazer parte da programação.

Na percepção de Nadine, os eventos irlandeses lembram o estágio em que as convenções de Florianópolis estavam por volta de 2013 ou 2014: públicos menores, ambiente familiar e uma comunidade concentrada. A Dublin Comic Con é a maior, recebe atores e dubladores internacionais, mas continua muito abaixo da escala das grandes convenções brasileiras.

A cena menor também cria oportunidades. Depois de mostrar seu trabalho, Nadine foi convidada para integrar o júri de um concurso do Irish Gaming Market.

Comprar cosplay pronto é errado?

Não. Nadine separa duas atividades: o cosplayer usa e interpreta o personagem; o cosmaker produz a roupa e os acessórios. A mesma pessoa pode exercer as duas funções, mas não precisa.

Costurar, modelar armadura e construir máscaras exigem habilidades, ferramentas, espaço e muitas horas. Na Irlanda, Nadine vive num quarto e não tem ateliê nem máquina. Por isso, escolhe personagens mais simples ou importa figurinos enquanto prioriza economizar para viajar.

Mesmo uma roupa comprada geralmente precisa de ajustes no corpo, novos acessórios ou acabamento. O problema surge quando alguém afirma ter confeccionado uma peça que comprou, especialmente numa competição em que a autoria faz parte das regras.

Como funcionam os concursos de cosplay?

As competições podem ter desfile, apresentação ou as duas modalidades. No desfile, o participante mostra a roupa em diferentes ângulos. Na apresentação, interpreta o personagem individualmente, em dupla ou em grupo.

Concursos maiores podem exigir fotos do processo, descrição dos materiais e explicação de como cada elemento foi construído. Na World Cosplay Summit, cuja final acontece no Japão, saber defender tecnicamente o projeto é parte importante da disputa.

Complexidade não garante vitória. Uma armadura de dois metros pode perder para uma roupa simples se tiver acabamento ruim ou se não reproduzir bem o personagem. Jurados observam fidelidade, caimento, adaptação ao corpo, escolha de tecidos, pintura e coerência com a história apresentada.

No Brasil, alguns concursos oferecem prêmios valiosos. Nadine cita uma amiga que ganhou um carro. Na Irlanda, as disputas ainda são menores e, segundo ela, costumam concentrar interpretação e avaliação no próprio desfile.

É possível ganhar dinheiro com cosplay?

Poucas pessoas vivem exclusivamente como cosplayers. As fontes de renda podem incluir confecção por encomenda, presença em eventos, criação de conteúdo, fotografia, publicidade e plataformas de apoio.

Nadine prefere tratar a atividade como hobby e parte de sua identidade digital. O objetivo profissional está no Discovery Diny: ela quer monetizar conteúdo de viagens, Irlanda e cultura nerd e transformar o perfil em uma das suas fontes de renda.

Ela publica em português com legendas em inglês. Testou vídeos falados totalmente em inglês, mas percebeu que a audiência principal já estava ligada ao português e decidiu manter a combinação.

Como abordar uma pessoa que está de cosplay?

A regra é pedir permissão antes de fotografar, abraçar ou tocar. Isso vale por respeito ao corpo e também porque armaduras, perucas e acessórios podem ser frágeis. Segurar uma peça no lugar errado pode destruir horas de trabalho.

Nadine considera o público irlandês mais cuidadoso nesse aspecto do que o brasileiro, embora reconheça que pessoas inconvenientes existem em qualquer lugar. Roupa curta ou personagem sensual não equivale a consentimento.

Ela também recomenda que menores não frequentem grandes eventos sem supervisão. No Brasil, algumas convenções criaram pontos de apoio para receber denúncias de assédio e expulsar responsáveis quando necessário.

Japão e China surpreenderam de formas diferentes

Visitar o Japão era um sonho desde os 12 anos. Vivendo na Irlanda, Nadine finalmente conseguiu organizar uma viagem que passou primeiro por Guangzhou, na China, e depois por Tóquio, Kyoto e Osaka.

Kyoto se destacou pelos templos, pela arquitetura antiga e pela gastronomia. Em Tóquio, ela visitou a Disney, lojas de anime, cafés temáticos e uma festa com música de anime e K-pop.

A surpresa foi encontrar cosplay mais visível na China do que no Japão. Em centros comerciais de Guangzhou, grupos se reuniam nos fins de semana para usar figurinos e produzir fotos, mesmo sem um evento formal. No Japão, ela encontrou estilos alternativos nas ruas, mas não a presença constante de personagens que imaginava.

Também conheceu um café chinês que ficou popular por empregar atendentes homens considerados muito bonitos e visitou espaços temáticos japoneses. Ela diferencia turismo de imigração: adoraria viver na Ásia, mas reconhece que rotina de trabalho, visto e custos são muito diferentes de uma viagem de poucos dias.

Viajar sozinha e economizar na hospedagem

Nadine costuma viajar com mochila pequena em companhias de baixo custo e fica em hostels ou cápsulas. Já pagou entre €30 e €50 por uma cápsula, dependendo da cidade e da localização.

Em Londres, encontrou uma opção limpa, com tomada e ventilação própria. Em Amsterdã, a experiência foi pior: sentiu falta de ventilação e não confiou tanto na limpeza da roupa de cama. A cápsula oferece privacidade, mas não elimina a necessidade de conferir avaliações e estrutura.

Em Edimburgo, um encontro casual virou ensaio fotográfico. Ela pediu a um casal na rua que tirasse uma foto, descobriu que eram fotógrafos e foi convidada para vestir um figurino medieval antes do voo de volta. Nadine verificou o perfil profissional e aceitou, mas reconhece que seguir desconhecidos exige avaliação cuidadosa e não deve ser tratado como prática segura por padrão.

Cosplay ajudou na adaptação à Irlanda

O hobby não foi apenas entretenimento. Ele ofereceu a Nadine uma porta de entrada social, um repertório para produzir conteúdo e uma ligação com a vida que tinha no Brasil.

A comunidade irlandesa é menor, mas isso permitiu que seu trabalho fosse conhecido rapidamente. De visitante solitária na MegaCon, ela passou a integrar a cena e receber convite para julgar um concurso.

Assista ao episódio para ver os figurinos mostrados por Nadine, entender como ela avalia um cosplay e acompanhar as histórias de trabalho, viagens e adaptação que deram origem ao Discovery Diny.

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