Ser criador de conteúdo e estudante de inglês na Irlanda nunca foi o plano profissional de Lucas Zambiazi. Ele saiu de Porto Alegre depois de anos adiando o intercâmbio, chegou com inglês “de sobrevivência” e começou a registrar a rotina para não precisar contar as mesmas histórias separadamente à família e aos amigos.
Quase dois anos depois, o canal virou uma comunidade de futuros intercambistas. Lucas trabalha como barista e atendente de salão, estuda, grava e edita nas folgas. Na conversa com Bolder, ele conta como pagou a viagem vendendo brigadeiros, escapou de um golpe de aluguel, perdeu empregos, aprendeu inglês no atendimento e até conheceu a namorada por causa de um vídeo.
Quem é Lucas Zambiazi?
Lucas nasceu e cresceu em Porto Alegre. Aos 28 anos, já perto de completar dois anos na Irlanda, sua rotina é bem diferente da que tinha no Brasil.
Antes do intercâmbio, trabalhava remotamente para uma empresa de tecnologia que combatia fraude documental. Quando alguém abria uma conta e enviava foto do rosto e do documento, sistemas automatizados faziam a primeira análise. Lucas integrava a etapa humana de verificação.
A equipe recebia treinamento sobre RGs de diferentes estados, CPF, carteira profissional e passaporte. Em dias movimentados, havia milhares de documentos na fila. A análise podia levar poucos minutos, mas exigia concentração e atenção aos sinais de montagem ou imagem criada artificialmente.
Era um emprego estável e realizado de casa, das 15h à meia-noite. Mesmo assim, o antigo sonho de aprender inglês no exterior continuava presente.
Um sonho de intercâmbio desde os 13 anos
Lucas se interessou por inglês por causa de filmes, músicas e jogos. Ao descobrir que pessoas viajavam para morar com nativos, estudar e trabalhar, decidiu que faria isso pelo menos uma vez na vida.
Aos 17 anos, pediu aos pais um intercâmbio em Londres como presente de aniversário. A família não tinha condições de bancar o projeto e reagiu com humor. O presente acabou sendo bem mais simples, e a viagem ficou para depois.
Ele considera positivo não ter ido tão cedo. Aos 18 anos, sabia muito pouco inglês e acredita que teria enfrentado dificuldades ainda maiores. Trabalhou em diferentes funções, amadureceu e guardou o plano.
O acidente de moto que mudou as prioridades
A decisão voltou com força depois de um acidente grave de moto. Lucas quase morreu e passou a questionar o modo como vivia. Gastava com festas, não economizava e conhecia pouco fora de Porto Alegre.
O acidente também provocou medo de sair de casa. O trabalho remoto ajudou durante a recuperação, mas poderia se transformar numa nova zona de conforto. Aproximando-se dos 30 anos, Lucas concluiu que, se não emigrasse naquele momento, talvez nunca fosse.
Começou a guardar dinheiro, vendeu a moto recuperada e pediu R$5 mil emprestados à avó para aproveitar uma promoção e fechar o curso. Depois de deixar a empresa, usou verbas do desligamento para devolver o valor em aproximadamente três meses.
Como os brigadeiros ajudaram a pagar o intercâmbio?
Após encerrar o turno remoto à meia-noite, Lucas preparava brigadeiros e outros doces. A mãe, técnica de enfermagem, levava os produtos para o hospital onde trabalhava.
Ele vendia três ou quatro vezes por semana. A renda pagou cerca de duas semanas de hostel e formou parte da reserva convertida em euros. Para fechar o curso, ainda precisou combinar a venda da moto, economias e o empréstimo familiar.
A história mostra que o intercâmbio não nasceu de uma sobra financeira. Foi construído com várias fontes pequenas, prazos e renúncias.
As enchentes quase impediram a viagem
Lucas quitou curso e passagem no início de 2024 e deveria embarcar em agosto. Entre abril e junho, as enchentes atingiram o Rio Grande do Sul, inundaram bairros e fecharam o Aeroporto Salgado Filho.
A casa da família ficava numa área alta da zona sul e não foi inundada, mas houve falta de energia, bloqueios e escassez nos mercados. Quando a água começou a entrar na rua, Lucas separou documentos, malas e os cachorros para uma possível saída.
Ele e os pais ajudaram em abrigos de animais. Também procurou, com amigos, uma pessoa desaparecida na região da Ilha da Pintada, depois localizada com vida.
Sem previsão clara para o aeroporto, chegou a considerar ônibus até Florianópolis e conexão em São Paulo. No fim, embarcou pela Base Aérea de Canoas: fez os procedimentos em Porto Alegre, seguiu de ônibus para a base e voou até São Paulo antes de continuar para a Europa.
Chegada à Irlanda com inglês de sobrevivência
Lucas chegou no verão e ficou num hostel. Gostou da convivência com pessoas de vários países e conseguia manter conversas simples com estrangeiros que também não eram fluentes.
O desafio maior foi organizar documentação por telefone. Na época, precisou ligar, falar em inglês e soletrar o nome com o alfabeto fonético. Usou uma cola ao lado e conseguiu concluir o agendamento.
Como havia assistido a muitos vídeos antes de viajar, não esperou pelo passeio de orientação da agência. Foi atrás de transporte, cartão, imigração e moradia por conta própria.
Como Lucas quase caiu num golpe de aluguel?
Com apenas duas semanas reservadas no hostel, a procura por quarto se tornou prioridade. Lucas encontrou uma vaga individual por €600 e marcou visita às 8h. O ônibus atrasou; quando chegou, dois candidatos já estavam negociando e um deles ficou com o quarto.
No dia seguinte, Lucas visitou outra casa e reconheceu quem estava transferindo a vaga: era justamente o jovem que havia aceitado o quarto de €600. Depois descobriu que o primeiro anúncio era irregular.
O anunciante recebeu depósito e aluguel sem autorização da proprietária e foi para Portugal. Uma semana depois, a dona encontrou o novo morador e exigiu sua saída. Ele conseguiu recuperar o depósito dela, mas perdeu o aluguel entregue ao golpista.
Lucas escapou por ter chegado atrasado. O caso reforça uma regra básica: visitar o imóvel não prova que a pessoa esteja autorizada a alugá-lo. É preciso confirmar identidade, contrato, relação com o proprietário e condições antes de transferir dinheiro.
De trabalhador remoto a cleaner, delivery e barista
Na Irlanda, Lucas passou por funções que nunca havia exercido. Trabalhou em warehouse, limpeza, cafeteria de museu, delivery e lavanderia.
A experiência mais curta foi na lavanderia. Um colega pediu que colocasse cestos de roupa de hotel numa máquina, mas não explicou que cada lote correspondia a tipos diferentes de quarto. Lucas misturou as peças, colocou um contrato importante em risco e foi demitido após cerca de duas semanas.
Sem emprego durante o inverno, fez entregas e publicou um vídeo admitindo o erro e a frustração. O episódio virou uma das conexões mais importantes de sua vida.
Hoje ele trabalha numa creperia e wine bar de inspiração francesa. Prepara cafés, cria latte art, serve mesas, apresenta vinhos e ajuda em outras tarefas do salão.
Trabalhar como barista ajuda a aprender inglês?
Para Lucas, foi o trabalho que mais desenvolveu o idioma. Ele entrou com nível intermediário, próximo de B1, e percebeu grande avanço depois de quatro meses.
O aprendizado não veio apenas dos pedidos. Clientes fazem small talk sobre clima, bairro, produtos e rotina. Repetir essas conversas todos os dias ampliou vocabulário, compreensão de sotaques e confiança.
A função também exige decorar receitas, explicar vinhos e lidar com pedidos inesperados. É uma prática de inglês muito mais variada do que apenas repetir o nome das bebidas.
Como nasceu o canal de Lucas Zambiazi?
Lucas já gostava de gravar. Quando mais novo, filmava brincadeiras com amigos, passeios de bicicleta e vídeos promocionais para conhecidos. Parte desse material ficou perdida em antigos canais do YouTube.
Antes de embarcar, percebeu que teria de mandar as mesmas fotos e explicações para pais, avó e amigos. Decidiu reunir tudo em vídeos. Se mais alguém assistisse, seria consequência.
Os comentários mostraram que havia público procurando informações sobre a Irlanda. Lucas passou a explicar documentação, moradia, trabalho, compras e viagens a partir da própria experiência.
O canal cresceu organicamente e deu origem a uma comunidade chamada Gurizada na Irlanda. Pessoas ainda no Brasil trocam informações, chegam em períodos próximos, fazem amizades e indicam vagas. Lucas alerta que um grupo não substitui cautela: combinar casa ou transferir dinheiro para alguém conhecido apenas online continua arriscado.
Conteúdo sobre intercâmbio exige responsabilidade
Quando pais e futuros estudantes começaram a pedir orientação, Lucas sentiu o peso de publicar informações que podem influenciar uma mudança internacional. Por isso, costuma marcar a diferença entre sua experiência e uma regra geral.
Ele trabalhou por um período vendendo intercâmbio, mas deixou a atividade. Não gostava de empurrar um produto para receber comissão e se sentia responsável quando o cliente enfrentava problemas fora de sua área de controle.
Um jovem de 18 anos comprado por meio de sua intermediação permaneceu apenas um mês na Irlanda, usou a reserva para viajar a Bangkok e deixou de responder. Em outros casos, clientes reclamaram com Lucas sobre depósitos de acomodação administrados por terceiros.
Ele preferiu proteger a relação com a audiência e continuar oferecendo dicas sem ocupar o papel de vendedor.
O YouTube já virou profissão?
O canal gera alguma receita, mas ainda não sustenta Lucas. Ele não pretende abandonar imediatamente os outros trabalhos para publicar em tempo integral.
A principal motivação é criar memória. A Irlanda não será necessariamente seu destino definitivo, e os vídeos permitem guardar o intercâmbio, as viagens e a futura visita dos pais.
Quase tudo pode virar conteúdo porque o canal acompanha uma fase da vida, não apenas um país. Comprar videogame, conhecer uma cidade, mudar de casa ou testar um serviço interessa a quem acompanha sua trajetória.
Como Lucas conheceu Alexia através do canal?
Quando Lucas publicou o vídeo sobre a demissão da lavanderia, Alexia ainda morava no Brasil e acompanhava o canal. Ela enviou uma mensagem longa dizendo que o conteúdo ajudava pessoas e que ele conseguiria outra oportunidade.
Lucas agradeceu e os dois mantiveram contato. Quando ela chegou à Irlanda, já havia organizado a acomodação e procurava trabalho. O primeiro encontro passou pela National Gallery of Ireland e por um pub econômico no centro.
Depois, Lucas a levou a uma festa de sua escola. Eles começaram a namorar e não se separaram mais. Alexia hoje participa dos vídeos, incentiva a edição e se tornou peça central do projeto.
Os horários, porém, raramente coincidem. Ela trabalha de manhã e durante a semana; ele começa por volta das 16h, termina tarde e costuma trabalhar aos fins de semana. O casal preserva conversas no fim do dia e usa gravações e passeios como atividades compartilhadas.
Estudante pode faltar à aula para trabalhar?
Não. Lucas se preocupa com intercambistas que tratam a matrícula como acesso ao mercado de trabalho e ignoram a frequência. A permissão Stamp 2 exige que o estudo seja a atividade principal.
O Immigration Service Delivery exige pelo menos 85% de presença nos cursos de inglês elegíveis. O estudante também precisa fazer o exame final e apresentar os resultados para solicitar nova permissão.
Durante o período letivo, o trabalho permitido é limitado a 20 horas semanais. As 40 horas só valem nos períodos oficiais de férias. Escolher um turno profissional que conflita com a escola pode gerar advertências, desligamento e problemas numa futura renovação.
Lucas prefere estudar de manhã e deixar tarde e noite disponíveis. Em uma fase mais pesada, limpava uma loja das 4h30 às 8h, corria para a aula e depois trabalhava na cafeteria do museu. A rotina era possível, mas desgastante.
Emprego na Irlanda com inglês básico é possível?
É possível, mas não automático. Lucas recomenda criar contatos ainda no Brasil, entrar em grupos confiáveis e chegar aberto a funções de entrada. Uma pessoa que encontra vaga pode indicar outra.
Ao falar com empregadores, o aluno precisa deixar claro o horário da escola. Aceitar turnos incompatíveis pode produzir renda no curto prazo e prejudicar a permanência no país.
Também é importante não transformar a experiência de um criador em promessa. Lucas encontrou casa rapidamente, escapou de um golpe por acaso e passou por várias demissões e mudanças de trabalho antes de se estabilizar.
Qualidade de vida e os limites da comparação
Lucas sentiu mais segurança para usar o celular na rua e maior acesso a alimentos e produtos básicos. Em sua percepção, essas diferenças melhoraram a qualidade de vida.
O primeiro contato social foi mais difícil. Ele achou os irlandeses menos calorosos do que os brasileiros e demorou a interpretar emoções em inglês. Com o tempo, clientes e colegas mostraram uma convivência mais próxima.
O inverno também surpreendeu um gaúcho acostumado ao frio. O problema não era apenas a temperatura, mas o vento, a umidade e a necessidade de usar camadas. Hoje vive num estúdio relativamente eficiente, embora a energia pré-paga aumente rapidamente quando o aquecedor é ligado.
Quais são os planos para o futuro?
Lucas confirma que existem planos de estudo, trabalho e mudança, mas prefere não divulgá-los antes de estarem concretizados. Ele não acredita que ficará na Irlanda para sempre, embora ainda não anuncie o próximo destino.
O objetivo imediato é continuar trabalhando, aprimorar o inglês e registrar essa fase com Alexia. O canal permanece como memória, comunidade e uma fonte complementar de renda.
Assista ao episódio para conhecer a trajetória completa de Lucas Zambiazi, ouvir os bastidores dos empregos e entender como um vídeo feito para a família acabou conectando centenas de futuros intercambistas — e a própria namorada.
