Por que o Estrada Livre voltou para a Irlanda depois de passar meses viajando pelo Brasil e pela Ásia? No Bolder Podcast, Gabriel explicou que a decisão não veio de um fracasso nem de um único problema. Foi o resultado de uma combinação de saúde mental, rotina de trabalho, oportunidades profissionais, vínculos familiares e planejamento financeiro.
Na conversa com Bolder, ele também desmontou a versão idealizada da vida de nômade digital. A Tailândia entregou praias, cultura, baixo custo e encontros marcantes, mas produzir conteúdo durante a viagem significava gravar durante o dia, editar à noite e continuar cuidando de comentários, reuniões e propostas comerciais.
Quem é Gabriel, do Estrada Livre?
Gabriel vive na Irlanda desde 2020 e já havia participado do Bolder Podcast quando o programa ainda estava no começo. Antes de se mudar definitivamente, visitou o país em 2018 com a mãe, voltou ao Brasil e decidiu que queria construir uma vida fora.
A pandemia mudou o caminho profissional. Sem muitas opções de trabalho, ele começou a fazer delivery e, paralelamente, desenvolveu o canal Estrada Livre. O projeto cresceu falando sobre a vida na Irlanda, mas o objetivo de Gabriel era ampliar o conteúdo e tentar viver da internet enquanto conhecia outros países.
A viagem pela Ásia nasceu dessa vontade. Ele passou cerca de dois meses na Tailândia, seguiu para o Vietnã e, ao todo, ficou aproximadamente seis meses fora da Irlanda, contando também o período no Brasil.
Como ele planejou a viagem pela Ásia
Gabriel planejou a mudança por cerca de um ano. A escolha da Tailândia levou em conta a diferença cultural, a estrutura para o turismo e um custo de vida que permitiria permanecer mais tempo sem consumir rapidamente a reserva.
Durante o podcast, ele citou aproximadamente €10 mil como a reserva que consideraria adequada para alguém em uma situação parecida com a dele: já recebendo alguma renda pela internet e querendo manter um fundo de emergência para acidentes ou uma passagem de volta. Não foi apresentado como valor universal. O orçamento muda conforme duração, padrão de hospedagem, deslocamentos e renda disponível.
O alerta mais importante foi não viajar contando que um canal recém-criado pagará as despesas imediatamente. Conteúdo de viagem exige transporte, hospedagem, alimentação, equipamentos e muitas horas de produção. Segundo Gabriel, a monetização do YouTube sozinha é baixa; patrocínios e parcerias têm um peso decisivo.
Quanto custa viajar pela Tailândia?
Na experiência de Gabriel, era possível encontrar hostels entre aproximadamente €4 e €13 por noite, além de quartos de hotel perto de €13 ou €14 em alguns destinos. Ele também encontrou opções ainda mais baratas, mas com condições ruins. Refeições em restaurantes locais costumavam ficar na faixa de €3 a €5.
Esses números refletem a viagem dele, e não uma tabela atual ou uma garantia para qualquer turista. Gabriel economizou fazendo trajetos longos de ônibus, evitando voos frequentes e escolhendo acomodações simples. Quem viaja por poucos dias e busca hotéis melhores terá outra conta.
Hostel vale a pena para uma viagem longa?
No início, os hostels foram úteis para conhecer pessoas. Gabriel criou amizades com viajantes de várias nacionalidades e teve contato com histórias que dificilmente encontraria em uma viagem fechada em hotéis. Entre elas, estavam trabalhadores de Myanmar afetados pela guerra, brasileiros contratados para jogar futsal e até um profissional brasileiro especializado na produção de sapatilhas de balé.
Com o tempo, porém, dividir quarto se tornou cansativo. Barulho durante a madrugada, troca constante de hóspedes, falta de privacidade e problemas de limpeza dificultavam tanto o descanso quanto o trabalho. Depois de cerca de um mês, ele passou a priorizar quartos privativos.
O maior perrengue aconteceu em Koh Lanta. Primeiro, Gabriel encontrou um hostel muito sujo, onde os hóspedes precisavam andar descalços. Ao trocar por uma acomodação anunciada como resort, ouviu vários ratos no teto e depois encontrou fezes dentro do quarto. Permaneceu ali por quatro ou cinco dias antes de sair.
O que mais marcou a viagem pela Tailândia
Gabriel percorreu diferentes regiões, incluindo Bangkok, Chiang Mai, Krabi, Koh Lanta e as ilhas Phi Phi. Em Maya Bay, conhecida pelo filme A Praia, explicou que visitantes não podiam entrar no mar por causa das regras de conservação. O passeio também incluiu snorkel e outras ilhas.
Chiang Mai e Krabi foram os lugares em que ele se imaginou vivendo por um período maior. Chiang Mai oferecia uma rotina urbana mais tranquila, enquanto Krabi combinava praia com acesso a outros destinos que ele queria conhecer.
A experiência também revelou contrastes. Fora das áreas turísticas, Gabriel viu pobreza, lixo e cidades em que quase ninguém falava inglês, como Surat Thani. Nessas situações, o tradutor do celular se tornou essencial. Ao mesmo tempo, ele descreveu os tailandeses como receptivos e o país como seguro na maior parte de sua experiência.
A Tailândia é só festa e turismo sexual?
Uma parte da conversa tratou do estereótipo que reduz a Tailândia ao turismo sexual. Gabriel confirmou que ele existe e é muito visível em ruas específicas de Bangkok e em determinados pontos turísticos. Ainda assim, enfatizou que isso não representa o país inteiro, marcado também por templos, budismo, gastronomia, natureza e vida local.
Ele decidiu não filmar essas áreas porque esse não era o conteúdo que queria produzir. Para Gabriel, mostrar apenas esse recorte reforçaria uma imagem distorcida da Tailândia.
Sobre segurança, relatou não ter sido roubado e disse que era comum ver pessoas deixando pertences na areia enquanto entravam no mar. Mas lembrou que viajar sozinho exige cuidado, especialmente em áreas de festa. Uma conhecida contou que o namorado teria sido dopado e roubado no país. A recomendação foi controlar a própria bebida, não aceitar copos de desconhecidos e evitar perder a atenção por consumo excessivo de álcool ou outras substâncias.
Por que o Vietnã foi mais difícil
Gabriel conheceu apenas a Cidade de Ho Chi Minh, durante a temporada de chuva. O clima limitou passeios e gravações, a barreira do idioma dificultou a comunicação e a comida local não funcionou para o paladar dele. O próprio convidado reconheceu que a experiência poderia ter sido diferente em Hanói ou em outra região.
Depois de deixar o hostel e alugar um apartamento privativo, ele ganhou conforto, mas ficou mais isolado. A combinação de chuva, pouco contato social e uma rotina profissional intensa agravou a sensação de solidão.
A realidade de trabalhar como criador de conteúdo viajando
Para quem acompanha apenas as imagens prontas, viajar produzindo conteúdo pode parecer uma sequência de passeios. Gabriel descreveu outra rotina: sair para gravar durante o dia, voltar e editar à noite, publicar vídeos, produzir stories e reels, responder ao público e participar de reuniões comerciais.
O trabalho ocupava praticamente todos os dias. Além do cansaço, havia a pressão de fazer o projeto gerar receita. Gabriel disse que conseguia pagar o que gastava no período, mas ficava no “zero a zero”: a reserva continuava protegida, porém não havia avanço na construção de patrimônio.
Ele acredita que o canal poderia crescer se continuasse viajando, especialmente porque começou a atrair pessoas interessadas especificamente na Tailândia. Alguns seguidores chegaram a reconhecê-lo nas ruas e disseram que haviam escolhido o destino depois de assistir aos vídeos. Mesmo assim, crescimento potencial não compensava permanecer em uma rotina na qual ele já não estava bem.
Por que o Estrada Livre voltou para a Irlanda?
Gabriel já pretendia retornar à Irlanda no fim do ano. O que mudou foi a data. Ele antecipou a volta ao perceber que vários fatores apontavam na mesma direção:
- a solidão e o desgaste emocional estavam afetando sua disposição para produzir;
- boa parte da audiência do Estrada Livre ainda buscava conteúdo sobre a Irlanda;
- empresas irlandesas demonstravam interesse em parcerias;
- viver da internet cobria os gastos, mas não permitia acumular patrimônio naquele momento;
- ele gosta da Irlanda e tem família no país;
- quer receber novamente a mãe e proporcionar novas experiências a ela.
Por isso, a resposta não é simplesmente “acabou o dinheiro” ou “a viagem deu errado”. Gabriel afirmou que poderia continuar por mais tempo e que a reserva não havia sido consumida. A escolha foi voltar para um lugar onde já tinha rede de apoio, oportunidades e condições melhores para organizar os próximos objetivos.
Voltar significa que a experiência fracassou?
Para Gabriel, não. Quando alguém perguntava se “não tinha dado certo”, ele apontava tudo o que viveu: meses no Brasil, uma longa passagem pela Tailândia, a experiência no Vietnã, novos públicos e relações com pessoas de diferentes países.
O mesmo raciocínio apareceu quando ele relembrou uma temporada anterior em Portugal. Mesmo ouvindo opiniões negativas, foi conferir por conta própria, percebeu que não era o que queria e retornou à Irlanda. O valor estava em substituir a dúvida pela experiência concreta.
Irlanda ainda vale a pena em 2026?
Na avaliação de Gabriel durante o programa, sim — desde que exista planejamento. Ele vê a Irlanda como um país de oportunidades, capaz de gerar crescimento pessoal e profissional, mas não esconde os desafios de acomodação, custo de vida e começo de carreira.
O alerta mais direto foi para quem pensa em chegar sem curso, documentação ou reserva e pretende resolver tudo trabalhando. Sem permissão adequada, contatos e estrutura, a pessoa pode gastar com aluguel de conta e bicicleta para delivery, roupas de chuva e frio, depósito e acomodação antes mesmo de receber.
Gabriel citou casos de pessoas pagando €700 para dividir um quarto com outros dois moradores. Como normalmente existe depósito, a entrada na casa pode exigir o equivalente a dois aluguéis. O conselho foi aceitar que o plano pode levar três ou quatro anos, juntar dinheiro e fazer o processo corretamente.
Uma volta que faz parte da viagem
A passagem pela Ásia ampliou o Estrada Livre para além da Irlanda e mostrou a Gabriel que ele pode alcançar públicos interessados em outros destinos. Também deixou claro que liberdade geográfica não elimina cansaço, solidão nem a necessidade de pensar no futuro financeiro.
Agora, a intenção é permanecer na Irlanda por um bom tempo, descansar das viagens e cuidar de outros planos. Ele não fala em ficar para sempre e já considera uma futura temporada na África, mas também não trata a Irlanda como uma derrota ou uma prisão.
Assista ao episódio completo do Bolder Podcast para acompanhar os relatos sobre Tailândia e Vietnã, os bastidores do trabalho no Estrada Livre e a explicação completa de Gabriel sobre sua volta à Irlanda.
